
Mais de um mês transcorrido desde o desaparecimento da família Aguiar, em Cachoeirinha, amigos e vizinhos compartilham sentimentos: dúvidas, revolta e até medo.
— Não sabemos se quem fez tudo isso fez sozinho e se não anda por aqui apagando provas, atento ao que vamos dizer. São uma família tão boa, desde os anos 1990 aqui. Muito corretos, embora bem fechados — diz uma vizinha de 47 anos, que não quis ser identificada.
A mulher também mora no bairro Anair, onde fica o minimercado anexo à residência do casal Isail Vieira de Aguiar, 69 anos, e Dalmira Germann de Aguiar, 70. Eles não são vistos desde 25 de janeiro, quando saíram para procurar a filha Silvana, 48 anos, desaparecida no dia anterior.
Bem na esquina das ruas Barbacena e Viamão, o imóvel de cor azul é percebido à distância. A propósito, o estabelecimento comercial que funcionava de "segunda a segunda" era o principal ponto de referência, o "mercado quebra-galho" da região. Só fechava aos domingos à tarde e costumava abrir em horários estendidos em datas festivas e feriados.
Sobre a grade do portão da casa, uma faixa já rasgada ainda persiste pendurada com a frase mais repetida pelos vizinhos: "Queremos solução".
Relação da filha com os pais

A cerca de um quilômetro do mercadinho, moravam Silvana e o único filho, de nove anos. A residência fica na Rua Fidel Zanchetta, no bairro Parque Granja Esperança. Todos os dias, ela ajudava os pais no estabelecimento. Saía de manhã e voltava à tarde. A criança era sempre vista na companhia da mãe e dos avós.
A mãe, Dalmira, era apelidada por algumas pessoas com o nome da filha: "A Silvana nova, e a Silvana mais velha".
A "mais nova" em questão também mantinha uma rotina discreta, cuidava do corpo, fazia exercícios físicos com frequência e frequentava a Paróquia Santa Luzia. Para complementar a renda, revendia produtos de beleza.
— Ela era filha única. Por isso, o menino, neto, o único. Pense no carinho. Seu Aguiar, às vezes, levava ele no colégio. Em dias muito quentes, levava de guarda-chuva para proteger a criança do sol — lembra a vizinha Ana Paula Melo, 53 anos.
Relação com o suspeito

Com menos frequência, segundo vizinhos, o pai do menino era visto. Chegava rapidamente para buscar e levar o filho. Há anos, o homem já estava separado de Silvana e tinha uma nova companheira.
Cristiano Domingues Francisco é apontado pela polícia como o único suspeito do caso até o momento. O policial militar, afastado do serviço durante as investigações, está preso temporariamente. A Polícia Civil diz já ter elementos para indiciá-lo por feminicídio e duplo homicídio.
Relatos dão conta de que a relação dele com os ex-sogros era protocolar, "seca". A vizinhança questiona o fato de Cristiano ter ido ao estabelecimento, de posse das chaves, depois do desaparecimento da família.
— No mercado, não vendiam fiado e eram muito rigorosos com dinheiro, com cada centavo no troco. Tinha grade no caixa e se protegiam. Seu Aguiar tinha o controle de horário e de tudo. Como ia emprestar as chaves do mercado para o ex-genro? Não existe isso — analisa uma vizinha.
Cristiano ficou em silêncio ao ser ouvido pela polícia. O advogado Jeverson Barcellos, que atua na defesa do investigado, se manifestou em nota:
"A prisão temporária de Cristiano tem prazo de 30 dias para esgotamento e eventual renovação, poderá ser requerida pela autoridade demonstrando a efetiva necessidade. Estamos aguardando acesso às perícias, extração de dados dos telefones celulares e que sejam intimadas as testemunhas indicadas pela defesa, reafirmando a inocência de Cristiano."
Investigação em curso
A polícia informa que segue o trabalho pericial em celulares e imagens de segurança, bem como a coleta de depoimento de outras pessoas.
A investigação também busca localizar o carro vermelho registrado por câmeras de segurança entrando no portão da casa de Silvana, na noite de 24 de janeiro — data em que ela foi vista pela última vez. Mais tarde, no mesmo dia, o carro volta, permanece por aproximadamente 12 minutos no imóvel e, então, deixa o local. Pela distância da imagem, as placas não puderam ser identificadas.




