Às 6h, os soldados Roger Escobar de Carvalho e Katieli Dornelles embarcam na viatura no 20º Batalhão de Polícia Militar, na Zona Norte. Os dois integram uma das equipes da Patrulha Maria da Penha de Porto Alegre.
No volante, Dornelles dirige pelas ruas da Capital, enquanto Roger administra uma lista de fichas de mulheres, vítimas de violência doméstica, que possuem medida protetiva.
Num plantão de 12 horas, a dupla faz contato com cerca de 15 mulheres de diferentes perfis, que buscaram ajuda após sofrerem agressões, ameaças, perseguições e tentativas de feminicídio, entre outros crimes previstos. Na maior parte das vezes, o autor é o ex-companheiro, embora existam casos de violência, na qual o agressor é outro familiar, como irmão, filho ou mesmo o pai.
No banco do carona, o soldado Roger, há cinco anos na Brigada Militar, é quem estabelece o contato com as vítimas. Envia mensagens por WhatsApp para a primeira vítima a ser atendida. Sem resposta. O policial tenta ligação, que chama até cair na caixa de mensagens. O patrulheiro insiste. As visitas precisam ser sempre presenciais.
— A gente entende que muitas vítimas estejam trabalhando ou fazendo alguma outra atividade, até pelo horário, a gente começa bem cedo. Procuramos primeiro ir na casa dela e verificar o que está acontecendo, para ver se a gente encontra ela — explica.
— Vamos até lá — diz Dornelles.
Os policiais seguem até um endereço indicado pela vítima em troca de mensagens — um dia antes, eles tinham tentado localizar a mulher em outro local, que era, na verdade, a casa do agressor. Chegam até a rua, buscam o numeral e deparam com um condomínio. O endereço está incompleto: sem número de bloco ou apartamento. Não há portaria no residencial. Tentam novo contato por telefone, sem resposta. Anotam na ficha da vítima a situação e seguem.
— Tivemos que fazer outra certidão, de endereço incompleto, e vamos buscar mais dados, para saber se ela está bem, e se a medida protetiva está sendo realmente cumprida. A gente vai voltar aí. Já deixei mensagem, se ela retornar, a gente volta aqui na casa dela, sem problemas — diz Roger.
Em muitos casos, é comum a vítima de violência doméstica trocar de número de telefone e de endereço, como forma de não ser encontrada pelo agressor. Dados incompletos ou desatualizados obrigam os patrulheiros a realizar trabalho de busca pelas vítimas. Roger segue disparando mensagens e fazendo ligações:
— Essa não está recebendo mensagem pelo Whats. Mora aqui próximo.
Katieli trafega na direção do endereço da vítima, que já vem sendo atendida pela Patrulha.
— É lá no fundo, naquelas casinhas. Já vim aqui. É aquela ali, ó. Essa branca — indica Roger.
Os patrulheiros estacionam a viatura em frente à casa e são atendidos pela mãe da vítima. A jovem está trabalhando no momento.
— Sábado ela vem — adianta a mãe.
Os policiais aproveitam para questionar como está a situação entre a vítima e o agressor.
— Mas ele não está mais incomodando ela? — indaga Roger.
A mãe da vítima garante que não, e que eles têm mediado a situação dos filhos do casal, para que não tenham contato. A Patrulha deixa novamente o número de telefone, para que a vítima procure, se for necessário, e promete retornar no dia seguinte. Roger mostra uma outra pilha de fichas, além daquelas do dia.
— Todas essas aqui, já temos agendamento pré-definido. A gente entra em contato com elas e vai marcando. “Ah, não posso, estou trabalhando, estou viajando.” A gente pega e já deixa marcado, para o dia que ela possa nos receber. Mas não deixamos passar muitos dias — explica o soldado.

"Sou testemunha": trabalho reconhecido
Às 10h23min, Roger liga para outra vítima e confirma uma visita para aquela manhã. Um minuto depois, faz outra ligação, que chama, uma, duas, três vezes. A vítima, enfim, atende. O policial se apresenta e insiste para realizar a visita:
— Tu estaria em casa hoje para nos receber?
— Não, porque estou até saindo — responde.
A mulher quer saber o motivo da visita, antes de aceitar que ela seja realizada.
— É uma visita de fiscalização, a gente faz todo controle da tua medida protetiva, a gente faz relatórios que são anexados diretamente ao teu processo. Nós somos da Brigada Militar. Então, a gente faz esse acompanhamento para saber se o ofensor está cumprindo fielmente a medida protetiva, em não se aproximar e não ter nenhum contato contigo. Se for necessário, a gente pode te acompanhar até a delegacia e fazer registros de descumprimento de medida protetiva — detalha o soldado.
Após a explicação, a vítima aceita receber a Patrulha no dia seguinte, um sábado.
— Sábado é o dia que mais conseguimos fazer visitas, é quando elas mais estão em casa — diz Dornelles.
Às 10h53min, os policiais estão na entrada do prédio de uma das vítimas, conversando com a jovem, que acordou há pouco porque trabalha no período da noite.
A dupla tenta saber como está a vida da vítima, e se ela tem dúvidas sobre o processo. É a terceira vez que a jovem recebe a visita dos patrulheiros.
— Eles visitam, mandam mensagem, perguntam como eu estou. Isso é muito importante. Às vezes, a gente acha que esse trabalho não vai ser feito e ele é feito sim. Sou testemunha — diz.
A gente tem medo de se expor e o medo de denunciar, achando que nada vai ser feito. Mas posso dizer que as coisas são feitas, e agradeço a eles todos esses meses.
VÍTIMA
Violência contra a mulher
Pedidos de ajuda
Os policiais voltam a circular pelas ruas. Pelo mesmo telefone, com o qual tentam contato com as vítimas, também recebem pedidos de ajuda.
— Na maioria das vezes, é descumprimento da medida, dúvidas sobre o processo ou algumas querem revogar a medida protetiva — relata Roger.
A dependência financeira e a situação dos filhos estão entre os pontos que, geralmente, mais preocupam as mulheres atendidas. Na ótica dos patrulheiros, é um dos motivos que faz as mulheres desistirem e retomarem o relacionamento com o agressor.
— Como a nossa área de atuação tem muitos níveis sociais, isso vai mudando. Tem pessoas que cortam a relação, bloqueiam de tudo, outras dependem financeiramente e é difícil cortar o vínculo com o ofensor — diz o soldado.
Há muitos fatores, muitas vítimas estão assustadas, com medo, sem saber o que fazer. Querem saber se ele já foi notificado. E como vai ser a vida delas dali para a frente
KATIELI DORNELLES
Soldado da Patrulha Maria da Penha
Nos três anos em que atua nessa função, a história que mais impactou o patrulheiro Roger foi a de uma jovem de 18 anos agredida com uma barra de ferro pelo ex.
— Deixou ela em coma por 90 dias. Depois que ela voltou para casa, infelizmente de cadeiras de rodas, irreconhecível, a gente foi prestar apoio. Ela não tinha como permanecer na casa dos pais, porque necessitava de cuidados especiais. Era uma menina jovem. A gente foi na casa dela, ela ia para um abrigo. Aquilo ali me marcou muito — recorda o soldado.
Muitos agressores não aceitam o término do relacionamento, e buscam algum contato com a vítima, seja por mensagens ou até perfis fakes. A Patrulha orienta a vítima a sempre comunicar qualquer descumprimento, que pode resultar na prisão do autor.
Para nós, o mais satisfatório é, nos casos em que os ofensores são muito perseguidores das vítimas, quando eles são presos. Muitas vezes, é a única paz que as vítimas têm, infelizmente. É quando ele está preso que ela tem certeza de que ele não vai mais procurá-la.
ROGER ESCOBAR DE CARVALHO
Soldado da Patrulha Maria da Penha
Prisões
Ao longo deste ano, ao menos 13.403 visitas foram realizadas pelas Patrulhas no Estado. Neste mesmo período, 71 agressores foram presos por essas equipes, por estarem descumprindo a a medida protetiva.
Em todo ano passado, foram presos 242 agressores por este mesmo motivo. O número foi maior do que em 2024, quando foram 196 prisões por descumprimento de medida protetiva.
Desde 2012, são ao menos 2.082 prisões realizadas pelas Patrulhas Maria da Penha em todo o Estado.
Como pedir ajuda
Brigada Militar – 190
- Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado. Também é possível contatar a patrulha pelos telefones disponíveis neste link.
Polícia Civil
- Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
- Em Porto Alegre, a Delegacia da Mulher na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências).
- As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.
Delegacia Online
- É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.
Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180
- Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.
Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556
- Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).
Centros de Referência de Atendimento à Mulher
- Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência.
Ministério Público do Rio Grande do Sul
- O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende o cidadão em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
- Neste espaço é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Para mais informações clique neste link.










