Deflagrada na manhã desta quinta-feira (12), a operação Punctum Finale, desarticulou uma organização criminosa investigada pela prática de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas e por envolvimento em homicídios na capital gaúcha. Foram cumpridas 40 ordens judiciais em Porto Alegre e Guaíba, na Região Metropolitana. Ao todo, já foram presas 19 pessoas, sendo que dois indivíduos estavam recolhidos no sistema prisional. Foram apreendidos valores em espécie e um veículo.
A investigação da Delegacia de Polícia de Repressão ao Crime de Lavagem de Dinheiro (DRLD) do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) teve início em setembro de 2024, após a identificação de uma rede de tráfico de drogas na zona sul de Porto Alegre.
A polícia mapeou mais de R$ 10 milhões em movimentações financeiras suspeitas realizadas pelo grupo de dezembro de 2021 até 2025. O montante seria lavado pelo grupo por meio da compra de imóveis e comércios em Porto Alegre.
Uma das destinações do dinheiro da quadrilha teria sido a aquisição de uma franquia de alimentação, que está em processo de instalação em um shopping de Porto Alegre. Outra movimentação encontrada foi a compra de uma empresa de recolhimento de sucatas. O nome da franquia e do shopping não foi divulgado pela polícia.
— Apuramos que a organização criminosa lava o dinheiro, obtido de forma ilícita, comprando bens imóveis e móveis, bem como investe em empresa de recolhimento de sucatas e franquia de alimentos — contextualizou o delegado Rodrigo Pohlmann Garcia.
Celulares para facção
A polícia apontou ainda para a compra de celulares que posteriormente eram fornecidos para integrantes do grupo dentro do sistema prisional.
Um dos bandidos, segundo a polícia, comprou em uma loja de um shopping de Porto Alegre mais de 20 aparelhos, que foram remetidos para dentro de casas prisionais. Dessa forma, os criminosos conseguiam manter a comunicação com os integrantes do grupo do lado de fora.
Sequência de ações
A ofensiva é o resultado de uma investigação de um ano e meio contra essa facção, que tem atuação na zona sul de Porto Alegre.
Em novembro de 2024, a Polícia Civil já havia deflagrado uma ofensiva contra o grupo. Na ocasião, foram cumpridas 125 ordens judiciais em Porto Alegre, Cachoeirinha, Canoas, Alvorada e Guaíba.
Na ação, policiais apreenderam veículos, R$ 70 mil em dinheiro, munições, uma carabina, dois fuzis e duas pistolas. Entre os fuzis apreendidos estava um de calibre 762, de alto poder de fogo. Esse tipo de armamento de guerra é capaz de perfurar blindados, por exemplo.
A partir dessa primeira operação, a polícia seguiu investigando o grupo e concluiu que os envolvidos traficavam e posteriormente lavavam o dinheiro.
Em junho do ano passado, uma nova operação foi feita contra essa quadrilha. Na ocasião, 12 mandados de busca e três de sequestro de veículos foram feitos contra a organização. O objetivo era descapitalizar o grupo e descobrir mais indícios das atividades ilegais praticadas.
Na época, a polícia descobriu que a facção atuava também na compra e construção de imóveis para esconder o patrimônio irregular. Por isso, solicitou medidas judiciais que congelaram contas de suspeitos de integrarem a facção.
Medidas contra homicídios
Operações de combate à lavagem de dinheiro estão entre as medidas realizadas pela Polícia Civil como forma de enfrentamento aos homicídios na Capital. A ação, segundo o diretor do DHPP, delegado Mário Souza, é uma das que está prevista no protocolo implementado em Porto Alegre, com intuito de coibir a prática de assassinatos pelo crime organizado.
— A repressão ao crime de lavagem de dinheiro visa enfraquecer o poderio financeiro dos grupos criminosos, justamente para evitar que essas usem o dinheiro ilícito para financiar a prática de homicídios — contextualizou o delegado.
Além da medida contra as finanças da organização, há uma série de outras estratégias, como a saturação diária com reforço do policiamento na região, indiciamento de lideranças, executores, mandantes e líderes dos homicídios e também as transferências federais e estaduais, quando necessárias.
Colabore
Informações sobre casos de homicídios podem ser repassadas à Polícia Civil pelo telefone 0800 642 0121.
Contraponto
O que diz a defesa dos investigados:
A defesa técnica dos investigados informa que, até o presente momento, logrou êxito em acessar somente o Pedido de Prisão Preventiva relacionado a deflagração da Operação Punctum Finale.
Ante o estudo minudente da decisão, percebeu-se que não há qualquer referência ao suposto homicídio atribuído publicamente aos investigados, demonstrando-se a fragilidade da investigação. Não sendo suficiente, a Operação atual deflagrada possui conexão íntima com outras duas Operações, de nome Renovatio e Reciclaggio.
De forma incisiva se afirma que o material utilizado para fundamentar novas ordens de prisão e mandados de busca e apreensão já era de conhecimento dos magistrados da Vara de Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro nessas outras duas Operações, sendo que outrora já havia denegação de pedidos de prisão preventiva, tornando-se incoerente, na visão dessa defesa, a decretação posterior com base nesses mesmos elementos.
Com relação aos demais elementos processuais, ainda se aguarda acesso completo dos autos para eventual manifestação. Ressalta-se, ainda, que o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa pressupõe o conhecimento integral dos elementos que fundamentam a persecução policial, razão pela qual a defesa se reserva o direito de se pronunciar de forma técnica e detalhada após o efetivo acesso completo aos autos.
A defesa é constituída pelos advogados criminalistas Dr. Pedro Catão Keenan Martins e Dr. Guilherme Gazave.

