Cleoni Aparecida Buchebuam, 52, tinha apenas nove anos quando os pais compraram em longas parcelas num carnê uma máquina de costura. A caçula ficava andando ao redor, com olhos atentos, enquanto a mãe costurava roupas. Cleoni nunca aprendeu a costurar, mas, mesmo assim, guardou com afeto o equipamento, quando a mãe faleceu há cerca de 15 anos.
Em meio aos escombros do que restou da sua casa em São Leopoldo, no Vale do Sinos, a diarista ampara a máquina de costura nos braços. Em 16 de janeiro, a casa de Cleoni incendiou. O suspeito de atear fogo ao local é o ex-marido, com quem ela foi casada por quase 35 anos, e teve três filhos.
— Foi tudo batalhadinho, 10 vezes no crédito. Foi tudo comprado, tudo com muito esforço. Mas o que dói mais são as lembranças: as fotos, as roupinhas de batizado, a máquina de costura — lamenta a diarista, enquanto caminha em meio ao que sobrou da casa de alvenaria que tinha três quartos, sala, cozinha e banheiro.
Na área externa, empilhou os pratos de vidro, um dos poucos itens que conseguiu resgatar. Todas as roupas dela foram queimadas, assim como os eletrodomésticos, entre eles a geladeira, cujas parcelas ainda paga. Se foram também todos os móveis: cama, sofá, mesa, cadeiras. No pátio, as plantas que adorava cuidar e o girassol que nunca viu florescer.
Desde o incêndio, Cleoni foi acolhida inicialmente na casa de um filho, no Paraná, e depois na casa de outra filha que está grávida. A diarista, no entanto, espera voltar a ter o próprio lar.
A vaquinha
Uma vaquinha online foi criada para tentar auxiliar Cleoni a recomeçar. A meta é atingir R$ 30 mil. Nesta quinta-feira (12), o valor alcançado era de cerca de R$ 8 mil.
A vaquinha, chamada de Ajude a Cleoni a Recomeçar, pode ser acessada por meio deste link.
Ciúme e controle
O relacionamento com o ex-marido foi o único na vida de Cleoni. Os dois se conheceram ainda adolescentes. A diarista relata que sempre houve ciúme e controle, mas o primeiro episódio de agressão física aconteceu quando já tinham cerca de 15 anos de casados. A mulher tentou intervir após o marido agredir a filha adolescente.
— Ele deu um tapa na minha cara. Eu tinha coleção de xícaras e ele quebrou o armário. Quebrou o micro-ondas. Ele foi embora, arrumou as coisas dele e estava tudo quebrado. A gente ficou uns meses separado, mas daí a minha mãe dizia: "Volta, ele sempre foi um bom pai, um bom marido, ele está arrependido" — recorda.
Cleoni cedeu e retomou o relacionamento. Há pouco mais de dois anos, embriagado, segundo Cleoni, as agressões voltaram, quando ela decidiu que precisava terminar o relacionamento.
— Ele voltou a me agredir quando comecei a falar em me separar. Infelizmente, eu vivia no semiaberto. Eu saía para trabalhar e voltava para casa. Para gente ir no mercado, ele me levava e fazia as compras junto. Raramente eu saía sozinha. Tinha muito controle. Sempre foi muito ciumento — lembra.
"Ele veio direto no meu pescoço"
Em 14 de janeiro de 2025, houve um episódio ainda mais grave. A mulher relata que ele tentou asfixiá-la.
— Ele chegou bêbado numa sexta-feira, depois do jogo, e aí ele começou a brigar, e eu disse pra ele ir dormir. Briguei com ele, joguei um monte de coisa. Foi quando ele tentou me matar a primeira vez. Ele veio direto no meu pescoço. Eu achei que eu ia morrer, já não conseguia mais respirar. Acho que foi Deus que me deu força, e eu consegui empurrar ele — descreve.
A diarista relata que foi convencida pelo marido a não contar para ninguém sobre a violência. No outro dia, ele alegou não recordar o que havia feito, embora ela ainda tivesse as marcas no pescoço. Depois disso, Cleoni disse que permitiu que o ex permanecesse na casa, mas que o relacionamento terminou.
Casa incendiada
Em janeiro deste ano, ela cobrou que ele deixasse a residência. No dia 16 de janeiro, ela despertou após sentir algo molhado em seus pés e o cheiro de gasolina.
— Pulei da cama ligeiro e aí eu gritei para o meu filho. Ele me mandou calar a boca, ficar quieta e me jogou a gasolina na cara. Quando eu vi o isqueiro na mão dele, eu gritei pelo meu filho de novo — lembra.
O filho, de 20 anos, conseguiu intervir e retirar o isqueiro do pai. Cleoni foi auxiliada pelos filhos a ir até a Polícia Civil e, pela primeira vez, relatar as violências sofridas. Antes que ela pudesse retornar para casa, no entanto, descobriu que a moradia onde viveu quase a vida inteira havia sido incendiada:
— Ele voltou, pegou uma mala de roupas e colocou fogo. Não sobrou nada. Fiquei só com a roupa do corpo.
Prisão preventiva
A equipe da Delegacia de Proteção à Mulher (Deam) de São Leopoldo solicitou medidas protetivas para Cleoni, que foram concedidas pelo Judiciário. Em 27 de janeiro, o ex-marido foi preso de forma preventiva. O caso do incêndio é investigado.
— Eu estou aqui por sorte, porque meu filho estava em casa, mas quantas não tiveram essa sorte? Espero que ele fique muito tempo lá, não por vingança, por raiva. Mas porque eu só me sinto tranquila, segura, enquanto ele estiver preso. Peço a Deus que Deus toque o coração dele. Se eu sobrevivi é porque existe um propósito. Espero que isso encoraje outras mulheres a denunciarem, a buscarem ajuda. Que não se calem.
Como pedir ajuda
Brigada Militar – 190
- Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado
Polícia Civil
- Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir preferencialmente à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas
- Em Porto Alegre, a Delegacia da Mulher fica na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências)
- As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link
Delegacia Online
- É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência
Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180
- Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil
Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556
- Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a)
Centros de Referência de Atendimento à Mulher
- Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência
Ministério Público do Rio Grande do Sul
- O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende o cidadão em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição
- Neste espaço é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Para mais informações clique neste link





