
O mistério sobre o paradeiro de três pessoas da mesma família em Cachoeirinha, na Região Metropolitana, angustia moradores da Vila Anair. É ali que reside há ao menos três décadas o casal de idosos Isail Vieira de Aguiar, 69, e Dalmira Germann de Aguiar, 70. A filha deles, Silvana Germann de Aguiar, 48, também está desaparecida.
Dalmira e Isail são proprietários de um minimercado, onde costumavam atender de domingo a domingo, até o dia do sumiço. Trabalhadores, mantinham o hábito de permanecer com as portas do mercado aberta do início da manhã até a noite. A única filha, Silvana, auxiliava os pais no atendimento no estabelecimento, onde também vendia cosméticos.
A moradia do casal, uma casa de dois andares, fica no mesmo lugar, ao lado do minimercado. Silvana não residia com os pais, mas morava perto. A casa onde ela vivia com o filho, de nove anos, está localizada a cerca de um quilômetro, na Rua Fidel Zanchetta, no bairro Parque Granja Esperança.
"A gente quer saber o que aconteceu", diz vizinha

Gislaine Aparecida Silva Rodrigues de Anchieta, 43 anos, reside em frente à casa dos idosos. Diariamente, convivia com os vizinhos e com a filha deles. A moradora, assim como os demais, está abalada e angustiada, em busca de respostas sobre o caso.
— A gente quer saber o que aconteceu. A gente tem, sim, a esperança, de que eles apareçam com vida. Mas, no fundo, no fundo, a gente sabe que não. É muito tempo. Ninguém fica tanto tempo com uma pessoa sem pedir resgate, sem pedir dinheiro. Vai pedir pra quem, se eles levaram os três? Não tem para quem pedir resgate. Então, a gente sabe, no fundo, que com vida eles não vão mais aparecer. A gente só espera que termine isso de uma vez — desabafa.
Projétil encontrado no pátio
Gislaine, assim como outros vizinhos, relata que o casal não possuía desavenças. A rotina deles envolvia o trabalho no comércio e a convivência com o neto.
— Não dá pra acreditar. Não dá mesmo. Nunca fizeram mal pra ninguém, nunca mesmo. A gente não entende. Se dão bem com todo mundo — diz.
Foi no pátio da casa de Isail e Dilmara que a polícia localizou um projétil de arma de fogo. O artefato foi encaminhado para análise da perícia. A polícia investiga se o projétil tem alguma relação com o desaparecimento do casal.
— Ninguém sabe quando eles realmente saíram de casa — diz Gislaine.

"Sonho com eles toda noite"
Outra moradora, de 58 anos, que preferiu não ser identificada na reportagem, também conta estar amedrontada e angustiada com o desaparecimento.
— É muito triste. A gente fica numa tristeza. Sonho com eles toda noite. Fico preocupada, pesando que possam estar passando por algo, sofrendo. De manhã, acordo e penso como queria ver eles aqui na frente — diz.
Assim como a polícia, a vizinha não acredita que Silvana tenha viajado para a Serra. A mulher costuma ter uma rotina que envolve o trabalho no comércio dos pais, os cuidados com o filho e idas regulares à igreja.
— Essa viagem não aconteceu. Ela nunca ia sair assim. Estava sempre com os pais dela — opina.
O filho de Silvana estava com o pai, de quem ela é separada, no fim de semana do desaparecimento.
Entenda o caso
O caso se iniciou após uma publicação de Silvana em uma rede social, na qual afirmava ter sofrido um acidente de trânsito, no retorno de uma viagem a Gramado, na Serra. Foram publicadas três mensagens. Na primeira, estava escrito: "Tivemos um acidente essa noite".
Depois, foi publicada outra informando que Silvana ficaria sem sinal por algumas horas. No dia seguinte, em nova mensagem, agradeceu as orações. "Agora é só recuperação e logo estaremos de volta." A polícia, no entanto, já confirmou que o acidente não aconteceu.
O casal foi alertado por vizinhos sobre o post na rede social de Silvana. Os idosos não tinham acesso a celular, por decisão da filha. Há cerca de um ano e meio, eles foram ludibriados no golpe do falso sequestro, após atenderem uma ligação. Depois disso, Silvana teria orientado os pais a não manter mais aparelho celular.

Polícia aguarda perícia
O delegado regional Anderson Spier reforçou que a investigação se concentra em desvendar um crime. A principal linha de investigação neste momento aponta para homicídio ou mesmo cárcere privado.
— Já solicitamos a perícia. Estamos aguardando o agendamento para fazer a perícia nos locais para procurar maiores elementos de vestígios, de sangue e outros materiais que porventura possam nos levar a alguma definição sobre o crime — afirma.
A polícia aguarda a realização da perícia na casa de Silvana e no mercado dos pais. Os investigadores também analisam outras imagens de câmeras de segurança para identificar os veículos e as pessoas envolvidas na movimentação da noite do dia 24.
Ao menos seis pessoas já foram ouvidas e a polícia continua a colher depoimentos de familiares e vizinhos para obter mais informações que ajudem a solucionar o caso.
Movimentação suspeita
Foi na casa de Silvana que câmeras de segurança captaram uma movimentação suspeita na noite do sábado, dia 24 de janeiro. Um carro vermelho entrou na residência às 20h34min e saiu oito minutos depois.
Às 21h28min, o veículo de Silvana entrou na garagem. Mais tarde, às 23h30min, outro carro chegou, permaneceu por 12 minutos e foi embora. A polícia investiga se era Silvana quem dirigia seu próprio carro e busca identificar os outros veículos.
O carro dela foi localizado na garagem da moradia, com a chave. Isso reforça a hipótese de que Silvana não realizou a viagem relatada nas redes sociais. A suspeita é de que essa possa ter sido uma pista falsa sobre o paradeiro da mulher.

