
Ao longo de três meses, um morador do Rio Grande do Sul acreditou fazer parte de um grupo de investidores orientado por um norte-americano, que é uma espécie de guru do mercado financeiro. O contato, que se iniciou pela internet, terminou com a vítima procurando a Polícia Civil após perder todo o valor que pensava ter sido investido. Tudo não passava de um golpe, segundo a investigação.
— Eles criavam perfis, tanto no Instagram quanto no Facebook, usavam IA (inteligência artificial) para simular uma pessoa conhecida do mercado financeiro e ofereciam uma consultoria em investimentos de ações. Sem custo. Sem compromisso. A partir do momento que você clica no link, ele te joga para dentro de um grupo de WhatsApp. Quando entra, vê que tem umas cem pessoas. Ficavam enaltecendo as dicas e, com certeza, muitas delas eram parte do próprio golpe — afirma a vítima, que não quis ser identificada na reportagem.
Nesse primeiro momento, não há repasse de dinheiro para os golpistas. Essa fase, que neste caso durou cerca de um mês, é usada para dar credibilidade para a trapaça, já que algumas das dicas repassadas no grupo realmente apresentam resultados positivos.
Em determinado momento, as mensagens enviadas passavam a indicar que o momento era favorável para o investimento em criptomoedas. É quando as vítimas são colocadas em contato com uma suposta assistente, que indica o uso da plataforma BitSaci.
— Na hora que você começa a mandar dinheiro pra eles, te dão dicas. Boa parte delas dava lucro, 15%, 20%. E de fato o dinheiro ia. Em determinado momento, você perdia tudo e eles vinham com desculpas: "Houve um investidor muito grande que operou no sentido contrário e quebrou a nossa recomendação" ou porque você fez alguma coisa errada. Nesse momento, você perde tudo, mas vai se convencendo de que tem como recuperar aquilo — descreve o investidor, que não quis detalhar o valor perdido no golpe.

Nesta terceira etapa, as vítimas são convencidas a aumentar o aporte do investimento como forma de ingressar num grupo vip, ter mais vantagens nas transações e uma garantia de que não haveria perdas financeiras.
— Quando isso acontece, você fica confiante. "Não tenho muito a perder". Mesmo já tendo perdido, consigo recuperar uma parte. Você entra no grupo, manda mais recursos. E, na hora que você manda e vai fazendo as operações, num determinado momento, você perde tudo e eles falam: "Você operou da maneira errada. Eu te mandei comprar e você vendeu". Mas não é o caso. Eles conseguem manipular a plataforma para o resultado sair como se você tivesse apertado o botão errado — detalha.
Na segunda vez em que viu os valores desaparecerem da plataforma, a vítima desconfiou e decidiu procurar ajuda da polícia. A investigação do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos apontou que se tratava de uma fraude, com um esquema articulado. A plataforma, segundo a polícia, era totalmente manipulada pelos golpistas.
— Durante algum tempo, passou, de fato, a impressão de ser uma plataforma real. Quando você mandava o dinheiro, ele aparecia lá. quando ganhava, subia o seu saldo, quando caía, ele baixava — relata a vítima.
Operação Mirage
Nesta terça-feira (13), os suspeitos de integrarem o grupo criminoso foram alvo da Operação Mirage, em Goiás e São Paulo. A polícia afirma, no entanto, que o esquema é ainda mais amplo e tem tentáculos no sudeste asiático. Os investigadores acreditam que ao menos 40 pessoas, de diferentes partes do Brasil, tenham sido enganadas pelos criminosos. Somente uma das vítimas, ouvida pela investigação, perdeu R$ 4,3 milhões.
São cumpridos cinco mandados de prisão preventiva e 13 mandados de busca e apreensão nos dois Estados. Há ainda ordens judiciais de bloqueio de todas as contas de 85 pessoas físicas e jurídicas, sequestro de veículos e bloqueio de carteiras de criptoativos custodiados por 17 corretoras.
Entre os alvos dos mandados de prisão, estão investigados como responsáveis pela ativação das linhas telefônicas, gestão das empresas de fachada e conversão dos valores em criptomoedas. Com a operação desta terça-feira, a polícia espera conseguir rastrear e recuperar parte dos valores que foram retirados das vítimas.
Um dos intuitos, nesta fase, é identificar todas as vítimas no território nacional, além de chegar a outros envolvidos no esquema. Os crimes investigados são estelionato com fraude eletrônica, associação criminosa, e lavagem de dinheiro.
— Os criminosos se aproveitam da busca por rentabilidade rápida para aplicar golpes cada vez mais sofisticados. Promessas de lucros extraordinários, especialmente em mercados de criptomoedas, devem ser vistas com extrema desconfiança. Antes de investir qualquer valor, é fundamental verificar se a empresa está devidamente registrada nos órgãos reguladores, como a CVM e o Banco Central — alerta a delegada Isadora Galian, uma das responsáveis pela investigação.





