
Em junho do ano passado, um empresário procurou o Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos do Rio Grande do Sul após ter sido vítima de um golpe pela internet. Ao longo de três meses, ele havia utilizado uma plataforma de investimentos que acreditava ser comandada por um guru norte-americano, especializado no mercado financeiro. A investigação da Polícia Civil levaria à descoberta de um articulado esquema milionário.
Nesta terça-feira (13), os suspeitos de integrarem o grupo criminoso são alvos da Operação Mirage, em Goiás e São Paulo. A polícia afirma, no entanto, que o esquema é ainda mais amplo e tem tentáculos no sudeste asiático. Os investigadores acreditam que ao menos 40 pessoas de diferentes partes do Brasil tenham sido enganadas pelos criminosos.
A ação prendeu três pessoas até o momento. Somente uma das vítimas, ouvida pela investigação, perdeu R$ 4,3 milhões. A polícia identificou ainda que, em um único dia, um dos investigados adquiriu R$ 7 milhões em criptoativos.
São cumpridos cinco mandados de prisão preventiva e 13 mandados de busca e apreensão nos dois Estados. Há ainda ordens judiciais de bloqueio de todas as contas de 85 pessoas físicas e jurídicas, sequestro de veículos e bloqueio de carteiras de criptoativos custodiadas por 17 corretoras.
Entre os alvos dos mandados de prisão, estão investigados como responsáveis pela ativação das linhas telefônicas, gestão das empresas de fachada e conversão dos valores em criptomoedas. Um deles é um morador de Goiás, conhecido como Japa, que se apresenta como empresário do ramo digital, ostentando um alto padrão de vida nas redes sociais. Ele é apontado como mentor intelectual do golpe.
— O Japa seria, segundo o que nós provamos, o principal operador disso. Então é aquele que busca conversão do dinheiro das vítimas em criptoativos em benefício desse núcleo dos mentores de esquema — detalha o delegado Filipe Bringhenti, diretor da Divisão de Repressão aos Crimes Cibernéticos.

Em São Paulo, o alvo é um suspeito de ser o "chipeiro" do grupo. Segundo a polícia, trata-se de um chinês, que atua no núcleo de ativação das linhas telefônicas usadas pelos golpistas.
— Ele possui uma loja de telefones celulares, uma loja que vende dispositivos eletrônicos e, muito provavelmente, usa esse argumento para estar comprando milhares e milhares de chips e habilitar milhares de chips por dia. Ele viabiliza a comunicação dos golpistas — explica Bringhenti.
Operadores no Camboja
As linhas habilitadas pelo chinês, segundo a Polícia Civil, eram utilizadas por golpistas no Camboja, país no sudeste asiático. Essas pessoas teriam sido contratadas pelo grupo criminoso brasileiro, numa espécie de terceirização da mão de obra do golpe. Eles seriam os responsáveis pelo contato com as vítimas da trapaça pela internet.

Após acessarem anúncios na internet, as vítimas eram convencidas de que estavam num grupo de WhatsApp liderado por um guru norte-americano, especializado na área de investimentos. Neste grupo, recebiam mensagens escritas em inglês com dicas financeiras, que prometiam alta rentabilidade para os investidores.
— Essas dicas mostravam que quem estava por trás daquele WhatsApp realmente conhecia muito o mercado de ativos. E isso fazia parecer incrível que fosse o tal guru americano, que efetivamente existe, é um grande consultor de investimentos, que naturalmente não está sendo investigado, não participa desses esquemas. Estão se valendo da imagem do guru — explica o delegado.
Em determinado momento, as vítimas eram convencidas a investirem dinheiro numa plataforma chamada BitSaci. Era aí que, segundo a polícia, os criminosos davam efetivamente início ao golpe.
— A plataforma era editada, manipulada. Ela foi programada para isso. Isso viabilizava que, por exemplo, o saldo ficticiamente chegasse a números expressivos e as vítimas sentissem confiança e aportassem mais recursos. Na prática, o que as vítimas faziam era enviar Pix para a conta de empresas fantasmas. Esse dinheiro era movimentado entre contas de empresas e dali era investido (pelos golpistas) em criptoativos, não em benefício dos investidores, mas dos beneficiários finais desse esquema — detalha o delegado.
Até esta terça-feira, a plataforma ainda estava ativa na internet. Segundo a polícia, isso foi necessário para que os suspeitos do golpe não desconfiassem que estavam sendo investigados. Com a operação, a polícia espera conseguir rastrear e recuperar parte dos valores que foram retirados das vítimas.
Um dos intuitos, nesta fase da ação, é identificar todas as vítimas no território nacional, além de identificar outros envolvidos no esquema. Os crimes investigados são estelionato com fraude eletrônica, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
— Os criminosos se aproveitam da busca por rentabilidade rápida para aplicar golpes cada vez mais sofisticados. Promessas de lucros extraordinários, especialmente em mercados de criptomoedas, devem ser vistas com extrema desconfiança. Antes de investir qualquer valor, é fundamental verificar se a empresa está devidamente registrada nos órgãos reguladores, como a CVM e o Banco Central — alerta a delegada Isadora Galian, uma das responsáveis pela investigação.




