
A Polícia Civil de Santa Catarina realizou, na manhã desta segunda-feira (26), uma operação para cumprir mandados de busca e apreensão no caso que apura maus-tratos contra o cão comunitário conhecido como Orelha, de cerca de 10 anos, na região da Praia Brava, em Florianópolis.
A ação, conduzida pela Delegacia de Proteção Animal (DPA) e pela Delegacia de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei (Deacle), contou com apoio da Coordenadoria de Operações com Cães (COPC) e ocorreu na capital catarinense.
Segundo nota divulgada pela corporação, os mandados foram expedidos no âmbito das investigações que apuram atos infracionais de maus-tratos a animais e outros ilícitos supostamente praticados por adolescentes, além do crime de coação no curso do processo.
Ainda conforme a Polícia Civil, foram cumpridos mandados em residências de adolescentes suspeitos e também nas casas de seus responsáveis legais. Além disso, houve buscas em endereços ligados a adultos investigados por suposta coação relacionada ao andamento do processo. A seguir, veja o que se sabe sobre o caso.
Cão mobilizou moradores
O caso envolve a morte de Orelha, que passou a mobilizar moradores, organizações de proteção animal, celebridades e autoridades públicas em Santa Catarina.
Mascote da Praia Brava, o animal foi encontrado dias após desaparecer, com ferimentos graves, caído e agonizando, segundo relatos de pessoas que acompanhavam sua rotina, afirmou o g1.
A morte provocou protestos na região e repercussão nas redes sociais, onde a conta @floripa_estacomvcorelha reúne mais de 40 mil seguidores e concentra manifestações e pedidos de justiça.
A investigação aponta ao menos quatro adolescentes suspeitos de envolvimento nas agressões que acabaram matando o cachorro. A apuração também avalia a hipótese de que um policial civil, pai de um dos investigados, teria coagido uma testemunha.
Por sua vez, a delegada responsável, Mardjoli Valcareggi, afirmou ao g1 que essa informação está sendo analisada, mas negou qualquer participação de policial no crime em si.
O que aconteceu com o cachorro Orelha
De acordo com relatos de moradores, Orelha estava desaparecido. Dias depois, uma das pessoas que cuidavam do animal o encontrou durante uma caminhada, caído e em sofrimento.
Ela recolheu o cachorro e o levou a uma clínica veterinária. Diante da gravidade dos ferimentos, porém, não houve alternativa além da eutanásia.
Em entrevista à NSC TV, o empresário e morador da região Silvio Gasperin relatou que Orelha foi encontrado "jogado e agonizando" e cobrou justiça.
Quem era Orelha
Orelha era um cão comunitário que fazia parte do cotidiano do bairro e recebia cuidado espontâneo de moradores.
Na Praia Brava, há três casinhas destinadas a cães que se tornaram mascotes da região. Orelha era um deles. Além da convivência com moradores, ele circulava pela área e interagia com outros cães do bairro.
Em nota divulgada na sexta-feira (17), a Associação de Moradores da Praia Brava destacou o peso simbólico do cachorro para a comunidade.
"Orelha fazia parte do cotidiano do bairro há muitos anos e era cuidado espontaneamente pela comunidade, tornando-se um símbolo simples, porém muito querido, da convivência e da relação de cuidado que muitos mantêm com o espaço e com os animais que aqui vivem".
Quem são os suspeitos
A Polícia Civil identificou ao menos quatro adolescentes suspeitos de envolvimento nas agressões que acabaram matando o cachorro. Eles foram localizados após análise de câmeras de segurança e depoimentos de moradores.
Segundo a delegada Mardjoli Valcareggi, todos os possíveis envolvidos já foram identificados e a investigação segue em andamento. Os nomes dos investigados não foram divulgados.
Além da apuração sobre a agressão ao animal, a polícia investiga a denúncia de que um policial civil, pai de um dos suspeitos, teria coagido uma testemunha. A delegada afirmou que o caso está sob análise, mas negou participação de policial na agressão.
Protestos após a morte
A morte do cão comunitário gerou uma sequência de manifestações públicas e mobilização nas redes sociais. Moradores, protetores independentes, ONGs e institutos ligados à causa animal têm pedido justiça.
No sábado (17), moradores da Praia Brava realizaram uma primeira mobilização pública. Já no sábado (24), um novo protesto reuniu dezenas de pessoas na região.
Vestindo camisetas personalizadas e segurando cartazes com frases como "Justiça por Orelha", os participantes caminharam acompanhados de seus próprios cães e fizeram uma oração em homenagem ao animal.
A repercussão também se espalhou pelas redes sociais, com publicações que exibiam a hashtag #JustiçaPorOrelha e imagens de moradores e protetores com placas diante de seus animais.
No domingo (25), as atrizes Heloísa Périssé e Paula Burlamaqui, além do comediante Rafael Portugal, também se manifestaram. Em vídeos publicados nas redes, eles lamentaram a morte do cachorro e cobraram providências.
Acompanhamento do Ministério Público
No domingo (25), o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) informou que acompanha a investigação por meio da 10ª Promotoria de Justiça da Capital (Infância e Juventude) e da 32ª Promotoria de Justiça da Capital (Meio Ambiente).
Também no domingo (25), o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), comentou o caso nas redes sociais. Em publicação no X, ele afirmou que a investigação foi redistribuída após a juíza, inicialmente responsável, se declarar impedida. O governador também disse que as provas reunidas o impactaram.
"A nossa Polícia Civil fez diligências, colheu provas e solicitou à Justiça mandados alguns dias após o início da investigação. As provas já estão no processo e me embrulharam o estômago", escreveu.
Com a conclusão do inquérito, o procedimento será encaminhado ao Ministério Público, que analisará os elementos reunidos e decidirá sobre os encaminhamentos cabíveis.
Quando há possível participação de adolescentes, o caso segue as regras do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com garantias e procedimentos próprios.
Operação cumpre mandados e busca novas provas
Na manhã desta segunda-feira (26), a Polícia Civil cumpriu três mandados de busca e apreensão em endereços de investigados por maus-tratos e coação no processo que apura a morte de Orelha.
As diligências, segundo a polícia, têm o objetivo de reunir mais elementos de prova. Até aqui, ao menos quatro adolescentes são apontados como suspeitos de envolvimento nas agressões.
Além do caso de Orelha, outro cachorro, chamado Caramelo, também teria sido vítima de agressões atribuídas ao mesmo grupo de adolescentes, afirmou o ND Mais.
Segundo a investigação, ele teria sofrido uma tentativa de afogamento. O delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, adotou o animal.
Veja a nota completa da Polícia Civil
"A Polícia Civil de Santa Catarina, por meio da Delegacia de Proteção Animal (DPA) e da Delegacia de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei (DEACLE) da Capital, deflagrou na manhã desta segunda-feira (26) uma operação para o cumprimento de mandados de busca e apreensão relacionados ao caso de maus-tratos contra o cão Orelha. A ação contou com o apoio da Coordenadoria de Operações com Cães - COPC e ocorreu em Florianópolis.
Os mandados foram expedidos no âmbito das investigações que apuram atos infracionais de maus-tratos a animais e outros ilícitos supostamente praticados por adolescentes, e o crime de coação no curso do processo, envolvendo fatos registrados na região da Praia Brava. As diligências tiveram como objetivo a preservação de elementos de prova para os procedimentos policiais.
Durante a operação, foram cumpridos mandados em residências de adolescentes suspeitos e também nas casas de seus responsáveis legais. Além disso, foram realizadas buscas em endereços ligados a adultos investigados por suposta coação relacionada ao andamento do processo. Aparelhos celulares e outros dispositivos eletrônicos foram apreendidos e passarão por análise. Na data de hoje, diversas pessoas estão sendo ouvidas a respeito.
De acordo com a investigação conduzida pela DPA e pela DEACLE, quatro jovens foram identificados como suspeitos da prática dos atos infracionais de maus-tratos. Paralelamente, a Polícia Civil também identificou três adultos suspeitos de envolvimento em ações de coação e que são familiares dos adolescentes suspeitos.
Os investigados estão sendo ouvidos nesta segunda-feira para prestar esclarecimentos sobre os fatos. Finalizados os procedimentos na Polícia Civil, serão remetidos ao Poder Judiciário, inclusive para apreciação do Ministério Público".
