
A alcunha é "golpe do amor" e tem desfechos traumáticos para quem acredita estar vivendo uma história amorosa, mas se vê diante de um crime. Não somente pelo prejuízo financeiro, que é muito recorrente, mas pelas consequências que revitimizam as pessoas alvo dos estelionatos — a maioria idosas. Isolamento, vergonha e adoecimento são efeitos colaterais frequentes apontados por quem investiga, analisa e, até mesmo, vive episódios como esses.
Há um ano, a filha de uma aposentada de 78 anos tenta evitar que a mãe caia em mais um golpe. Foram vários no período. Os valores perdidos variam entre R$ 100 e R$ 3 mil. Números de telefone já foram bloqueados e orientações, dadas. Mas os criminosos mudam os métodos e voltam a aplicar golpes.
— Registrei ocorrência pelos valores que vi, mas pode ter sido bem mais. Os golpistas usam um codinome de príncipe, fazem declarações amorosas. Mas dá para perceber que passaram por tradutores de idioma, pois são muitos erros na escrita. Mesmo assim, minha mãe não acredita — conta, desesperada, a filha, que prefere não ser identificada.
Os impactos não se limitam à vítima ou aos familiares e podem ganhar proporções preocupantes, como o caso da mulher que disse ser noiva do ator Brad Pitt. Logo depois, a mulher disse que fazia tratamento para depressão e que tudo não se passava de uma brincadeira.
— Até quando vamos tolerar que violações de direitos virem meme? O caso da "noiva de Brad Pitt" retrata como naturalizamos violências, sem refletirmos sobre o que está acontecendo realmente — diz a psicóloga especialista em idosos Michele Klotz da Rosa.
Nas duas delegacias especializadas no atendimento de idosos no Estado, a recorrência do "golpe do amor" chama a atenção em vários aspectos. Em Porto Alegre, principalmente pela escalada. No Interior, pela desistência em registrar a ocorrência.
— Sempre existiu esse tipo de golpe, mas tínhamos um caso por mês. A partir do uso da inteligência artificial, ultimamente, são mais de 20 — informa a titular da Delegacia do Idoso, Ana Luiza Caruso.
Somente neste ano, entre 1º e 14 de janeiro, foram 12 registros na Capital. Nos últimos meses do ano passado, foram 18 casos em outubro, 22 em novembro e 25 em dezembro.
Na Região Central, é frequente homens e mulheres com mais de 60 anos chegarem acompanhados dos filhos. Conforme Débora Dias, à frente da Delegacia do Idoso de Santa Maria, muitos procuram informação, dialogam com policiais, mas desistem de fazer o registro.
— Às vezes, a desilusão com o sonho que se acabou é maior do que a perda do patrimônio. Muitos idosos não querem acreditar que caíram em um golpe. O prejuízo emocional é maior. As vítimas aparecem na delegacia completamente arrasadas — relata a delegada Débora.
Perfil das vítimas
As vítimas são abordadas principalmente em redes sociais, sobretudo no Facebook e no Instagram. Há também as que se conhecem por meio de aplicativos de relacionamento.
Após o primeiro contato, trocam contato telefônico e começam as conversas. Os diálogos são repletos de elogios, promessas de encontro presencial. Mais tarde, chega a solicitação de valores em dinheiro para os mais variados fins.
Trocas de fotos, áudios e, recentemente, uso de deepfakes (síntese de imagens e sons humanos, baseadas em inteligência artificial) são os recursos utilizados. Há tanto pessoas comuns quanto aquelas que se apresentam usando o nome de famosos.
Idosas são persuadidas, mais frequentemente, pela possibilidade de um namoro com celebridades. Já os homens com mais de 60 anos são alvo de golpistas que usam fotos de mulheres mais novas que enviam "nudes". Após, é comum serem extorquidos e ameaçados para que não façam denúncias à polícia.
Um dos casos atendidos no Estado envolveu um idoso. Ele chegou a transferir R$ 400 mil à "namorada" que nunca conheceu.
— Era foto de uma moça jovem e bonita. Ele já tinha feito transferências. Em um determinado momento, ela disse que precisa quitar um apartamento com urgência e que o pai estava na Europa. O idoso caiu no golpe e fez duas TEDs de R$ 200 mil cada. Ficou muito abalado, muito envergonhado quando soube do crime — relata a delegada Ana Luiza.

Depois de um eventual golpe, colocar a vítima no centro de uma piada é um comportamento cruel, que subverte valores, aponta Michele Klotz da Rosa:
— É uma sociedade educada ao contrário. Vimos isso desde a infância e a adolescência, quando se faz bullying. Ao invés de condenar o abuso e acolher, contribuem para a revitimização, empurrando essa pessoa ao retraimento e ao isolamento, o que, bem sabemos, são a porta de entrada para quadros depressivos.
Como ajudar idosos vítimas de golpes
Os motivos pelos quais as vítimas confiam e até dão dinheiro a um desconhecido podem estar relacionados à solidão, segundo a psicóloga Michele Klotz da Rosa. É importante que a família esteja atenta e inclua essa pessoa em atividades cotidianas, compartilhe vivências e ofereça letramento digital. Cursos ou mesmo trocas entre gerações — filhos, avós e netos — são benéficos a todos os envolvidos, avalia a especialista.
Crimes cibernéticos abalam a autoestima e a autoconfiança. Segundo a psicóloga, podem provocar sensação de invalidez, o que, na maioria dos casos, não é uma realidade.
— Temos, hoje, um culto à adultocentralização, que vê o adulto como único ser produtivo e esteticamente aceito. Não devemos infantilizar ou tirar a autonomia dos idosos, mas incluir e informar. E, enquanto sociedade, precisamos reagir, rechaçar piadas, porque, com alguma sorte, um dia a velhice também chegará para todos nós — pontua.
Docente do curso Técnico em Informática e Desenvolvimento de Sistemas do Senac Gravataí, Silvio Teixeira ministra cursos e oficinas de inclusão digital para idosos. Se, por um lado o cenário de golpes assusta e faz idosos vítimas, de outro, há um alento: a curiosidade de quem tem mais de 60 anos. Embora alguns cheguem inseguros, a autonomia e o interesse em aprender são evidentes, segundo o professor.
As aulas também são uma oportunidade de fazer amigos e criar vínculos:
— Idosos querem usar corretamente o celular, não querem ficar para trás. Alguns chegam com síndrome de vira-lata, achando que são velhos e, por isso, não vão aprender. Mas descobrem como criar um grupo no WhatsApp, algo simples para nós, mas desafiador para eles, pois tornam-se amigos entre os colegas de classe, com a afinidade da idade e da experiência.
O maior interesse é o uso correto do celular e das redes sociais. Procuram formas de se comunicar com outras pessoas, de encontrar amigos distantes e que não encontram há tempos.
Para se proteger de golpes a dica é desconfiar de tudo e não clicar em nada. A tecnologia está sempre mudando. Teixeira exemplifica que antes só dava para acreditar no que se via. Hoje, com inteligência artificial, "nem vendo dá para acreditar".
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