
Três técnicos de enfermagem do Hospital Anchieta, no Distrito Federal, foram presos em 11 de janeiro por suspeita de terem assassinado três pacientes. Eles teriam cometido os crimes injetando altas doses de um medicamento nos pacientes, causando paradas cardíacas, além de aplicações de desinfetante.
Segundo o g1, em todos os casos, a piora súbita dos pacientes chamou atenção do hospital e dos investigadores, pois, de acordo com o Instituto Médico Legal (IML), os pacientes tinham gravidades diferentes.
As mortes dos pacientes ocorreram entre novembro e dezembro de 2025.
Veja o que se sabe sobre o caso
Aplicação de medicamentos e desinfetante
Os crimes seriam operados por um homem e duas mulheres. O técnico era responsável por aplicar a medicação, enquanto elas observavam a porta para que ninguém entrasse.
Em certa ocasião, o homem de 24 anos usou uma seringa para fazer 13 aplicações de desinfetante em uma das vítimas, de 75 anos.
O mesmo técnico, já havia usado as credenciais de um médico da mesma instituição para burlar uma receita de medicamento. Ele então aplicou o remédio nas três vítimas, sem consultar a equipe médica.
Para disfarçar as aplicações, o técnico de enfermagem fazia massagem cardíaca nos pacientes na tentativa de reanimá-los.
Segundo o Jornal Nacional, a Polícia Civil descobriu que o profissional teve ajuda de outras duas técnicas de enfermagem. A investigação está sob sigilo, logo os nomes dos envolvidos não foram divulgados.
As vítimas
Os pacientes estavam internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital Anchieta, com gravidades diferentes. Duas mortes ocorreram no dia 19 de novembro, e a terceira no dia 1° de dezembro de 2025.
Pelas imagens das câmeras de segurança da UTI foi possível observar piora no estado de saúde das vítimas nos momentos em que os medicamentos eram aplicados.
Os nomes das vítimas são:
- Miranilde Pereira da Silva, 75 anos: professora aposentada
- João Clemente Pereira, 63 anos: servidor público de Riacho Fundo
- Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33 anos: servidor público de Brazlândia
A família de João Clemente informou através de uma nota que acreditava que a morte tinha ocorrido por "causas naturais" e que ficaram conscientes sobre a suspeita de um crime apenas na sexta-feira (16).
Hospital demite suspeitos
O Hospital Anchieta disse, em nota, que, "ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos na Unidade de Terapia Intensiva", instaurou um comitê para investigar os casos e pediu a abertura de um inquérito policial.
Os suspeitos foram demitidos, e as famílias das vítimas foram informadas sobre os crimes.
Investigação
Segundo o Jornal Nacional, durante os interrogatórios os investigados negaram o crime. Mas quando foram confrontados com as imagens do circuito interno de segurança do hospital, dois deles confessaram.
Durante a "Operação Anúbis", que levou às prisões em 11 de janeiro, os agentes cumpriram três mandados de busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás.
A segunda fase da mesma operação foi deflagrada na última quinta-feira (15), quando foram apreendidos dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.
A Polícia Civil ainda investiga possíveis outros casos no Hospital Anchieta e em outras unidades de saúde onde o técnico trabalhou.
Veja os pronunciamentos
O que diz o Hospital Anchieta
"O Hospital Anchieta S.A., referência em cuidados de saúde em Brasília/DF há 30 anos, vem a público esclarecer as providências adotadas diante de fatos graves envolvendo ex-funcionários da instituição.
Ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, o Hospital instaurou, por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência, comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa, que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes.
Com base nessas evidências, fruto da investigação interna realizada pela instituição, o próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026.
Pautado pela transparência de seus processos e pela confiança nos protocolos internos que norteiam sua atuação, o Hospital entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. Reitera, ainda, que o caso tramita em segredo de justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais bem como a identificação das partes envolvidas.
O hospital entende que o segredo de justiça é imprescindível à preservação da apuração, à proteção das partes envolvidas e ao regular exercício das atribuições das autoridades competentes, o qual deve ser estritamente observado de acordo com os limites impostos pela decisão judicial.
O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a justiça."
O que diz o CRM
"O Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) informa que tomou conhecimento dos fatos noticiados e adotará as providências cabíveis para a apuração, com o objetivo de verificar eventual responsabilidade médica.
O CRM-DF esclarece que todas as notícias de fato e denúncias recebidas são analisadas por meio da instauração de sindicância, com o objetivo de apurar a existência ou não de infração ética. Durante todo o procedimento, são assegurados o contraditório e a ampla defesa, em conformidade com o ordenamento jurídico aplicável.
Os trâmites seguem rigorosamente as normas estabelecidas, especialmente no que se refere ao sigilo previsto no Código de Ética Médica. Tal sigilo abrange todas as informações relativas às sindicâncias e aos processos ético-profissionais, incluindo documentos, depoimentos e demais elementos de prova, permanecendo resguardado inclusive após o encerramento do feito.
O sigilo tem por finalidade preservar a intimidade das partes envolvidas e garantir a lisura, a imparcialidade e a integridade do devido processo legal. O CRM-DF ressalta, ainda, que as esferas criminal, civil e administrativa são independentes entre si, de modo que as decisões proferidas em uma delas não necessariamente coincidem com as adotadas nas demais."
O que diz a família do servidor de 63 anos
"A família da vítima, por intermédio de seus advogados, manifesta profundo pesar e indignação pelos fatos graves ocorridos no interior da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta de Taguatinga, ambiente que deveria garantir cuidado máximo e proteção à vida.
Até então, a família acreditava que o falecimento havia ocorrido por causas naturais, em razão do quadro clínico apresentado. Contudo, no dia 16 de janeiro, tomou conhecimento de informações que indicam circunstâncias graves e incompatíveis com uma morte natural, bem como da existência de outras duas possíveis vítimas, passando a compartilhar a dor e o sofrimento de suas famílias.
O crime, supostamente praticado por técnico de enfermagem atualmente investigado, bem como por outros possíveis envolvidos, reveste-se de extrema gravidade. As apurações encontram-se em trâmite sob sigilo, e a família ainda não teve acesso aos autos do inquérito policial, razão pela qual se abstém de comentar detalhes do caso neste momento.
A família confia na atuação da Polícia Civil do Distrito Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário, e adotará todas as medidas legais cabíveis para a responsabilização criminal dos envolvidos, bem como para a responsabilização civil do hospital, diante de eventuais falhas no dever de cuidado, vigilância e segurança, visando à apuração integral dos fatos e à devida reparação."




