
Faltando 11 dias para o encerramento de janeiro, o Rio Grande do Sul já superou o número de feminicídios registrados em todo o mês de dezembro. Levantamento feito por Zero Hora indica que sete mulheres foram assassinadas por razões de gênero no Estado desde o início de 2026. Em dezembro de 2025, foram contabilizados seis casos pela Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP).
Em média, isso significa que uma mulher foi morta por violência de gênero a cada 2,85 dias — ou 68 horas — no RS de 1º de janeiro até esta terça-feira (20).
Dos sete casos, dois aconteceram na zona sul de Porto Alegre. Em ambas as ocorrências, as vítimas foram mortas com golpes de faca. Um dos ataques aconteceu à luz do dia, em via pública, enquanto a mulher aguardava um ônibus.
Outros feminicídios do ano foram registrados em Guaíba, Canguçu, Santa Rosa e Sapucaia do Sul (veja abaixo). Além desses episódios, Zero Hora apurou que um feminicídio ocorreu na tarde desta terça na cidade de Muitos Capões, na Serra.
Dados apurados pela reportagem demonstram que os casos de feminicídios registrados em 2026 tiveram como principais suspeitos companheiros ou ex-companheiros das vítimas. As motivações destes assassinatos são apontadas como impasses de relacionamento ou não aceitação do fim da relação.
Violência estrutural e ausência de denúncias
Para a advogada especializada em Gênero e Sexualidade Rafaela Caporal, o feminicídio representa o estágio mais extremo da violência de gênero. Essa mazela social é ancorada em diversos fatores, como o machismo estrutural e a naturalização de atitudes nocivas, como ciúmes e sentimento de posse, comenta a especialista.
— Existe essa ideia enraizada de posse sobre o corpo e a vida das mulheres, como se elas pertencessem aos seus companheiros. O homem não tem a posse dessa mulher, ele não pode decidir sobre a vida dela. Quando isso é rompido, alguns pensam que ela não deve seguir livre, nem seguir com a própria vida, o que acaba se expressando na forma de violência. Precisamos tirar essa ideia de que são casos isolados. É um problema estrutural, que precisa ser enfrentado coletivamente — ressaltou a especialista, que atua como coordenadora da área de enfrentamento às violências da ONG Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos.
Violência contra a mulher
Conforme a advogada, para além dessas questões, muitas mulheres acabam mortas antes que consigam acessar a rede de proteção e acolhimento, seja por medo do agressor, relativização da situação ou falta de conhecimento de como acessar os serviços.
A secretária-adjunta da Segurança Pública, Adriana Regina da Costa, ressalta que esse crime é de difícil detecção, pois muitos casos ocorrem sem qualquer tipo de denúncia, impossibilitando a ação do Estado.
— Muitos feminicídios, principalmente do ano passado, ocorreram com mulheres que não tinham nem mesmo uma ocorrência policial. Então, é importante que a sociedade se una para que as mulheres identifiquem que estão sendo vítimas de violência e que procurem os órgãos policiais. Esse é o primeiro passo — afirma.
Ainda segundo a secretária, o governo estadual vem enfrentando os índices de feminicídio a partir de duas principais frentes: prevenção e ampliação das portas de entrada para denúncias.
Além dessas frentes, ela ressalta que a SSP tem investido na qualificação contínua de policiais e agentes da segurança pública, assim como no fortalecimento da Patrulha Maria da Penha, na ampliação da Delegacia Online da Mulher — que agora permite o pedido de medida protetiva pela internet — e em campanhas de conscientização em parceria com a Secretaria da Mulher.
— Nós temos os números de denúncias anônimas, então é importante que as pessoas se envolvam, que a família se envolva, que os vizinhos se envolvam, que toda a comunidade se envolva. Caso a mulher não tenha estrutura emocional para fazer essa denúncia, as pessoas que cercam essa mulher que tomem as medidas para evitar casos como esses. A medida protetiva salva vidas — afirmou.
Atualmente, o Estado conta com:
- 23 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams)
- 93 Salas das Margaridas em plantões policiais
- Patrulhas Maria da Penha sediadas em 114 municípios, que atendem também cidades vizinhas
- Sala Lilás no Instituto-Geral de Perícias (IGP), um espaço reservado para atendimento humanizado de mulheres vítimas de violência
Para a Secretária da Mulher do RS, Fábia Richter, é crucial que as vítimas sejam apoiadas, não apenas pelo Estado, mas por familiares e amigos, constituindo uma rede de apoio.
— Às vezes, nem a própria família fica do lado dela (da vítima). Então, a sociedade precisa participar disso. Os homens precisam fazer a sua parte, eles precisam dialogar com os homens. Tem outros jeitos do homem externar a sua dor sem ser machucando a sua companheira. É isso que estamos falando: de homens que não sabem lidar com a sua emoção, não sabe lidar com o não. A gente precisa curar essa condição, que é uma condição social — afirmou a secretária.
Ela explica que diversas ações vem sendo realizadas pela secretaria para tratar do tema, desde atividades de conscientização até a disponibilização de um plantão telefônico 24 horas, que encaminha casos de violência doméstica para acolhimento.
— É uma rede em favor da mulher. A mulher nos aciona, o 0800 é atendido e a ligação é encaminhada para uma psicóloga ou uma assistente social que faz o primeiro atendimento. Depois, a gente encaminha o caso para a rede municipal — resume, citando também parcerias com a segurança pública, como as guaritas de guarda-vidas do Litoral Norte que estão acolhendo mulheres neste verão.
Os casos de janeiro
3 de janeiro — Guaíba, Região Metropolitana

A vida de uma bombeira civil e técnica em Segurança do Trabalho foi interrompida em 3 de janeiro. Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte, 31 anos, foi morta com sete facadas em Guaíba, na Região Metropolitana. O suspeito, um homem paulista de 44 anos, era namorado dela, foi preso em flagrante e teve prisão preventiva decretada. Zero Hora apurou que se trata de Alex Sousa de Queiroz.
A Polícia Civil confirmou que esse foi o primeiro feminicídio registrado no RS em 2026. Natural de São Gabriel, na Fronteira Oeste, Gislaine deixou um filho de 10 anos.
Conforme familiares, Gislaine contou que queria encerrar o relacionamento, mas que o parceiro não aceitava o término.
Segundo o delegado Fabiano Berdichevski, da 17ª Delegacia de Polícia Regional do Interior, o suspeito simulou a cena do crime para parecer que a vítima teria tirado a própria vida na sequência. A investigação descartou essa versão após notar contradições.
Ainda segundo o delegado, o suspeito não tinha antecedentes criminais nem havia pedido de medida protetiva feito pela vítima.
13 de janeiro — Canguçu, no sul do Estado

Descrita pela irmã como "alegre, sorridente e de bem com a vida", Letícia Foster Rodrigues, 37 anos, foi encontrada morta na noite de 13 de janeiro em Canguçu, no sul do Estado, após ser dada como desaparecida. A causa da morte foi identificada preliminarmente como um ferimento profundo no pescoço.
O corpo foi localizado na área rural do município. A tese de um crime ganhou força após relatos de terceiros, que teriam afirmado à polícia ter ouvido do companheiro dela uma confissão de que teria matado Leticia.
Zero Hora apurou que o suspeito do feminicídio é William Bizarro Porto, 36 anos. O crime foi o desfecho de um ciclo de violência que Letícia já havia tentado interromper judicialmente. Em 2025, ela registrou ocorrência contra Porto por lesão corporal, relatando um ataque com faca que a atingiu no braço.
Embora Letícia tivesse medidas protetivas de urgência, o investigado descumpriu as restrições repetidamente. William chegou a ser preso em março do ano passado, mas foi colocado em liberdade em agosto.
Letícia deixou dois filhos. O mais novo, de quatro anos, é filho do suspeito e, de acordo com a irmã, testemunhava as agressões.
18 de janeiro — Santa Rosa, na Região Noroeste

Marinês Teresinha Schneider, 54 anos, tinha uma medida protetiva contra o ex-companheiro, que determinava que ele deveria manter uma distância mínima de 100 metros dela e proibia qualquer contato por meios virtuais com a vítima. Mesmo assim, em 18 de janeiro, João Luís Pinto Quintana teria invadido a residência de Marinês e disparado várias vezes contra ela, que morreu na hora.
O homem fugiu do local e se apresentou na Delegacia da Mulher de Santa Rosa no dia seguinte, quando seu mandado de prisão foi cumprido.
Ele não utilizava tornozeleira eletrônica. O equipamento, essencial para fiscalizar a medida protetiva que a vítima possuía, não foi solicitado à Justiça, conforme informou o Tribunal de Justiça do RS.
O caso segue sendo investigado.
18 de janeiro — Porto Alegre
Josiane Natel Alves, 32 anos, foi morta a facadas em 18 de janeiro, após o ex-companheiro invadir a residência e golpeá-la na região do tórax, do peito e do abdômen. O crime ocorreu por volta de 21h30min, na Rua das Rosas, no bairro Campo Novo, na zona sul da Capital. O suspeito foi identificado como Fábio Luan Santos da Silva, 29 anos.
Josiane chegou a pedir socorro e correu até a casa de uma vizinha, mas não resistiu aos ferimentos. Um dos filhos da vítima, uma criança de 10 anos, estava na casa e presenciou o crime.
De acordo com a Polícia Civil, Fábio e Josiane tiveram um relacionamento de um mês e haviam terminado havia uma semana. O homem chegou a fugir, mas foi identificado por câmeras de segurança e preso em flagrante após perseguição policial. Ele já tinha antecedentes por violência doméstica, estupro de vulnerável e ameaça.
Segundo os registros, a vítima não tinha nenhuma ocorrência policial ou medida protetiva contra o ex-companheiro. Ela tinha dois filhos, de 10 e 14 anos, de um relacionamento anterior.
19 de janeiro — Porto Alegre

Paula Gabriela Torres Pereira, 39 anos, foi morta em uma parada de ônibus na Avenida Juca Batista, no bairro Chapéu do Sol, na zona sul de Porto Alegre, na segunda-feira (19).
O ex-companheiro dela, identificado como Demerson Barbosa, 50 anos, foi preso em flagrante pelo crime. Os dois mantiveram um relacionamento de 12 anos e estavam separados havia cinco anos.
Conforme a investigação da Polícia Civil, a vítima voltava do trabalho e aguardava o ônibus quando teria sido surpreendida pelo ex e atacada com golpes de faca.
O homem chegou a fugir de carro do local, mas foi localizado momentos depois em uma residência no bairro Ponta Grossa, também na zona sul da Capital. A faca usada no crime foi apreendida.
Neste caso, a vítima não tinha medida protetiva de urgência contra o ex. O homem possuía antecedentes por outros crimes, como lesão e ameaça.
20 de janeiro — Sapucaia do Sul, Região Metropolitana

Uma adolescente de 15 anos foi morta em Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana. O corpo da garota foi encontrado na manhã desta terça-feira (20). A vítima foi identificada como Mirella dos Santos da Silva.
O principal suspeito é o namorado da adolescente. O homem, identificado pela polícia como Eduardo Albernaz da Silva, 25 anos, foi preso em flagrante por feminicídio.
Segundo a Brigada Militar, o suspeito teria enviado uma mensagem à irmã informando que havia agredido a vítima após uma discussão. A irmã se dirigiu até a casa dele, no Beco José Joaquim, bairro Cohab. No local, encontrou o corpo da adolescente e avisou a polícia.
Após o crime, o homem foi trabalhar, segundo a Polícia Civil. Ele foi localizado em um canteiro de obras próximo ao local do crime e acabou preso pela Brigada Militar e pela Polícia Civil de Sapucaia do Sul.
Segundo o delegado Marco Guns, o casal mantinha um relacionamento havia cerca de oito meses. Em dezembro, a vítima solicitou medida protetiva contra o indivíduo. Conforme a comandante do 33º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Noélia Raggio, a adolescente vinha sendo acompanhada pela patrulha Maria da Penha, mas, no dia 6 de janeiro, teria manifestado interesse em não prosseguir mais com o acompanhamento.
20 de janeiro — Muitos Capões, na Serra
Uma mulher, identificada como Uliana Teresinha Fagundes, 59 anos, foi morta a tiros pelo companheiro. O crime aconteceu nesta terça-feira (20), na cidade de Muitos Capões.
Segundo o delegado Vitor Boff, após cometer o feminicídio, o suspeito fugiu do local.
Onde pedir ajuda em casos de violência contra a mulher
Brigada Militar – Ligue 190
Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.
Polícia Civil
Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente, à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
Em Porto Alegre, há duas Delegacias da Mulher:
- Uma fica na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências);
- A outra fica entre as zonas Leste e Norte, na Rua Tenente Ary Tarrago, 685, no Morro Santana. A repartição conta com uma equipe de sete policiais e funciona de segunda a sexta, das 8h30min ao meio-dia e das 13h30min às 18h.
- As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Veja a que fica mais próxima.
Delegacia Online
É possível registrar o crime pela Delegacia Online da Mulher, sem ter que ir até a delegacia, e também solicitar medida protetivas de urgência.
Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180
Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.
Ministério Público
O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior.
Neste espaço é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Acesse o site.
Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556
Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).
Centros de Referência de Atendimento à Mulher
Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência.
Escuta Lilás — Disque 0800 541-0803
Canal de escuta às mulheres prestando orientação jurídica, psicológica e social. Segunda à sexta, das 8h30min às 18 horas.
Como solicitar a medida protetiva online
- A vítima deve acessar o site da Delegacia de Polícia Online da Mulher, registrar a ocorrência pela internet e preencher um formulário de avaliação de risco;
- A mulher pode solicitar medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha – como afastamento do agressor da residência, proibição de aproximação, restrição de porte de arma, entre outras;
- Um filtro de urgência será aplicado ao caso, que será direcionado aos plantões policiais do Estado;
- A ocorrência e o pedido de medidas protetivas são encaminhados em até 48 horas ao Poder Judiciário, que deve decidir em até outras 48 horas;
- A vítima receberá confirmação do protocolo, explicação do fluxo e orientação para procurar um local seguro enquanto aguarda a decisão;
- No caso de concessão da medida, um oficial de Justiça intima o agressor;
- A Polícia Civil e a Brigada Militar são informadas e passam a fazer monitoramento a distância, aguardando informações do Poder Judiciário ou da própria vítima e familiares em relação ao descumprimento da medida. Também há o monitoramento eletrônico com tornozeleiras – hoje há cerca de 300 agressores monitorados no RS;
- Se o agressor desobedecer a medida (por exemplo, se aproximar da vítima), pode vir a ser preso em flagrante.







