
A Polícia Civil gaúcha está investigando a origem de medicamentos de uso restrito que estariam sendo desviados de hospitais para abastecer uma rede de aborto clandestino que atuava em diversos Estados brasileiros. A suspeita surgiu após a identificação de um grupo responsável por fornecer remédios de venda proibida e orientar jovens em situação de vulnerabilidade a realizar o procedimento.
Uma operação foi realizada nesta segunda-feira (8) para cumprir 23 mandados de prisão em nove cidades de em seis estados brasileiros e mais o Distrito Federal: Paraíba, Goiás, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais. A ação é coordenada pela polícia de Guaíba, onde a primeira vítima foi identificada.
Segundo a investigação, os criminosos vendiam os medicamentos como o Cytotec, conhecido como Misoprostol, e utilizada ilegalmente para métodos abortivos. Ele tem a venda proibida no Brasil e só pode ser administrado em ambiente hospitalar. Por conta disso, a suspeita é que os fármacos chegavam aos criminosos a partir de hospitais ou laboratórios.
— Esse medicamento, por ser de uso restrito hospitalar, deve ser desviado de hospitais, então a participação de eventual médico será apurada nas próximas etapas — afirma a delegada Karoline Calegari, titular da Delegacia de Guaíba e responsável pela investigação.
Os membros dessa organização, que ofereciam instruções sobre o uso do remédio por meio de uma pessoa apresentada como “doutora”. Os valores cobrados variam de R$ 830 a R$ 2,3 mil, dependendo do caso. As vítimas eram em sua maioria jovens que, ao buscar ajuda, acabavam entrando em contato com o grupo. As caixas eram enviadas por correio.
Os policiais identificaram um grupo de mensagens no WhatsApp utilizado para orientar e incentivar a prática do aborto, além de estreitar o contato entre as vítimas e os suspeitos. 250 mulheres participam do grupo.
— Nesse grupo de WhatsApp não havia nenhuma médica, havia estudante de veterinária, havia técnica de enfermagem, havia pessoa com cursos administrativos, mas nós acreditamos que a rede é muito maior — complementa Calegari.
Até o momento, nove pessoas foram reconhecidas como integrantes do esquema. Elas residem em cidades e Estados diferentes.
Durante o cumprimento de mandados de busca nesta manhã, a apreensão de celulares revelou um novo esquema, voltado à contratação de pessoas que buscavam novas vítimas para o grupo e incentivam o método abortivo. Três pessoas foram presas em flagrante na ação por porte de arma e drogas.
"Cada pessoa no grupo tinha uma suposta doutora"

A investigação teve início com o caso de uma jovem que acabou sendo hospitalizada após ingerir os medicamentos. Ela falou com exclusividade à Zero Hora, e não será identificada.
A vítima diz estar grávida de três meses. Ao fazer pesquisas na rede social TikTok sobre gravidez indesejada, encontrou um vídeo de uma mulher que se interessou pelo conteúdo, e foi encaminhada ao grupo no WhatsApp. Nesse espaço ela passava a entrar em contato com quem faria a orientação do procedimento.
— Cada pessoa no grupo tinha uma suposta doutora, e essa doutora acompanhava como acontecia, quanto tu devia tomar, o que que tu devia fazer, o processo do dia. Uma semana antes de tomar o remédio tinha que ficar de jejum, tinha que tomar água inglesa (usado para estimular o apetite), entre outras coisas. E nisso a gente a gente era orientada a fazer essas coisas por essa doutora — conta.
A vítima gastou R$ 1,8 mil para ter acesso ao medicamento, enviado por correio. Ao iniciar o uso do remédio, passou a sentir dores cada vez mais fortes. Nesse momento, ela diz não ter recebido mais apoio.
— Eu não tinha mais contato com ela, ela não respondia mais nada e no momento que eu tava sentindo dor e tava pedindo para ela uma orientação, tratava com muita negligência. Quando eu estava de jejum durante a semana respondia muito rápido, me orientava muito rápido, mas quando começou a acontecer as dores, ela sumiu. Me prometeram que ela ia ficar todo tempo comigo, todo tempo me respondendo, mas ela sumiu e eu não tinha mais para onde correr, por isso que eu decidi ir para o hospital — relata.
Durante a internação no hospital, ela expeliu dois fetos, por estar grávida de gêmeos. A mulher afirma não ter recebido nenhum aviso sobre as consequências do procedimento e diz estar arrependida do que passou.




