
Um documento fraudado, com assinatura de um delegado da Polícia Civil gaúcha, está no centro de uma investigação que resultou numa ação contra um suspeito de praticar golpes. O Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos realiza na manhã desta terça-feira (9) a Operação Ex Officio, em Goiânia (GO).
O caso se iniciou em novembro do ano passado, quando uma intermediadora de pagamentos do Paraná recebeu um ofício em nome de um delegado do Rio Grande do Sul. O documento falso utilizava o brasão, a identidade visual e a assinatura do delegado titular da então Delegacia de Repressão aos Crimes Informáticos e Defraudações.
Era uma solicitação para bloqueio e fornecimento de dados cadastrais e do histórico de transações de outra empresa, de São Paulo (SP). No texto, havia uma ênfase para que as informações fossem encaminhadas no prazo de 24 horas.
O escritório de advocacia que representa a empresa paulista procurou a Polícia Civil gaúcha para compreender o motivo da solicitação de bloqueio. No entanto, esse pedido nunca havia sido feito pelo delegado citado no documento.
— Fomos verificar e não tinha nenhuma investigação em curso contra aquela empresa. A gente percebeu que o modelo de ofício que ele usou a gente utilizava na época das enchentes. Não era mais usado — explica o delegado Marcos de David.
A polícia conseguiu identificar um morador de Goiânia de 26 anos como o responsável pela falsificação. Ele é proprietário e sócio de empresas de tecnologia especializadas em gateways de pagamento.
Com a operação desta terça-feira, a polícia pretende compreender o que motivou o uso do documento falsificado. A suspeita é de que ele buscasse alguma vantagem financeira. São apurados os crimes de falsificação de documento público, falsidade ideológica e o uso indevido da identidade funcional de autoridade policial.
Golpes durante enchente
A polícia descobriu ainda que o mesmo investigado já havia aparecido em apurações anteriores sobre golpes praticados durante a enchente que assolou o Estado em 2024.
— A falsificação e uso de documentos falsos, em regra, são crimes habituais praticados por estelionatários. O indivíduo alvo dessa operação fez uso de um documento falso, em nome de um delegado de polícia que atuou na Força-Tarefa Cyber, o que demonstra um alto grau de desrespeito às normas e instituições públicas, merecendo uma atuação repressiva por parte do Estado — afirma o diretor do Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos, delegado Eibert Moreira Neto.
A Força-Tarefa Cyber foi criada no ano passado para combater os golpes aplicados durante a enchente. Em maio de 2024, a polícia atacou um grupo suspeito de aplicar golpe do Pix falso, que simulava doações para as vítimas da enchente no Rio Grande do Sul. O grupo criou perfis falsos nas redes sociais que imitavam publicações com a chave Pix oficial do governo do Estado remetendo as doações para as contas dos bandidos.
Numa primeira fase, foram presos suspeitos em São Paulo. Quem gerenciava o golpe era um adolescente de 17 anos. Na segunda etapa, a polícia chegou até uma cobertura de alto padrão na beira-mar de Balneário Camboriú (SC), com aluguel de R$ 30 mil, que funcionava como QG para aplicar golpes pela internet. Entre as trapaças, está a que simulava campanhas de doações para as vítimas da cheia. No imóvel, a polícia localizou um adolescente de 16 anos, que já era alvo de investigação.
— Esse grupo criminoso fazia com que pessoas doassem valores, acreditando que seriam revertidos em prol das vítimas das enchentes, porém, esses valores estavam sendo direcionados para os golpistas. Nessa investigação, identificamos todo fluxo financeiro utilizado pelo grupo criminoso. Já naquela época, verificou-se que as instituições de pagamento, que são alvos da operação deflagrada hoje, tinham conhecimento de que operavam o recebimento de valores dentro do esquema de golpe atacado pela Operação Dilúvio Moral — detalha Moreira Neto.
Foi neste contexto que apareceu o nome do investigado, alvo desta operação em Goiânia. Ele tinha vínculos com o adolescente de Balneário Camboriú. Foram encontradas pela polícia conversas entre o investigado alvo nesta terça-feira e autores daqueles golpes —indicando que o gateway de pagamentos por ele administrado teria sido utilizado para intermediar recursos obtidos com as falsas campanhas de arrecadação.
Ainda segundo a polícia, o investigado teve acesso, naquela ocasião, a um documento autêntico expedido pela Força-Tarefa Cyber da Polícia Civil, o que pode ter servido de modelo para a elaboração do documento falsificado. Na ofensiva desta terça-feira, não há mandados de prisão expedidos.
Alerta
A Polícia Civil afirma que comunicações oficiais são enviadas exclusivamente por e-mails funcionais (@pc.rs.gov.br). Empresas e cidadãos devem sempre verificar a autenticidade de ofícios e determinações, contatando diretamente a unidade policial correspondente em caso de dúvida.
Documentos suspeitos ou tentativas de fraude envolvendo o nome da Polícia Civil devem ser imediatamente comunicados às autoridades competentes.




