
Na madrugada de 4 de maio de 2024, uma idosa deixou a casa onde vivia, no bairro Mathias Velho, em Canoas, com a água na altura do pescoço. Era preciso espichar o corpo ao máximo para não submergir. Na maior tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul, móveis, eletrodomésticos, roupas e o carro da família ficaram para trás.
Os traumas deixados pela enchente, no entanto, não são os que mais perturbam a aposentada. Quatro meses depois de perder a casa, ela foi vítima do golpe da falsa central bancária. Criminosos limparam a conta na qual ela havia reunido economias, com as quais planejava recomeçar a vida.
— É um sentimento de culpa que não tem explicação. É uma coisa que dói bastante, mesmo — descreve a vítima, de 61 anos, que, assim como as demais ouvidas nesta reportagem, preferiu não se identificar.
O golpe, que devastou a vida da idosa, teve início em uma ligação na qual um falso gerente de banco alegou que alguém tentava retirar R$ 30 mil da conta dela. Assustada, a vítima concordou que a operação fosse bloqueada. Foi convencida a fazer duas transferências de R$ 30 mil, uma de R$ 10 mil e outro pagamento de boleto no valor de mais R$ 10 mil — num total de R$ 80 mil. Somente após desligar o telefone, conversou com a nora, que lhe alertou sobre o golpe.
Eu não consigo até hoje lidar com o aplicativo do banco. Tenho medo. Procuro não falar, não consigo. Nem contei para minha família, meus irmãos. São mais uns que vão sofrer. Até hoje, tenho dificuldade para dormir, tenho problema de depressão. Estou tomando remédios.
VÍTIMA
Canoas
A delegada Luciane Bertoletti, da 3ª Delegacia de Polícia de Canoas, que investigou o caso da aposentada, destaca o salto de casos de estelionato registrados nos últimos anos:
— Hoje o estelionato tomou uma proporção astronômica. O último Anuário Brasileiro da Segurança Pública mostra aumento de mais de 400% desde 2018 (408% no Brasil). Criminosos estão lucrando bilhões com o estelionato.
Do outro lado tem a vítima, que muitas vezes perde a economia de uma vida inteira. E isso causa sérios problemas psicológicos. As vítimas chegam completamente sensíveis, atordoadas, desesperadas. Muitas inclusive nem contam para seus familiares, por vergonha.
LUCIANE BERTOLETTI
Delegada da 3ª Delegacia de Polícia de Canoas
Em outubro do ano passado, a Polícia Civil desencadeou operação em São Paulo contra suspeitos de integrarem uma quadrilha especializada nesse tipo de golpe. Foram cumpridos 11 mandados de prisão. Para enganar as vítimas, os criminosos usavam robôs digitais, que permitiam, inclusive, alterar a voz para forjar ser de um gerente de banco. Além disso, os golpistas usavam o spoofing, técnica empregada por cibercriminosos para falsificar o número de telefone de uma ligação.
— Quando a gente fala em estelionato, nesse aumento, a gente tem ainda uma grande subnotificação. Muitas vítimas, por vergonha, por temerem, inclusive, esses criminosos, não vêm até a delegacia registrar ocorrência — enfatiza a delegada.
“Sentimento de impunidade”

Morador da Região Metropolitana, um engenheiro reunia numa conta bancária as economias com as quais planejava garantir a aposentadoria. A tentativa de ter um futuro mais tranquilo se transformou em pesadelo. Ao longo de cinco dias, golpistas que alegavam ser da equipe de segurança do banco acessaram o computador dele de forma remota, com o pretexto de realizar operações para impedir invasões de criminosos.
— Ficaram me enrolando uma semana, dizendo que estavam fazendo testes. Tinha nome da minha gerente de conta, tinha tudo. Enquanto não terminassem, nem deveria acessar o aplicativo porque poderia estragar a monitoria. Até que, quando eles não tinham mais nada para tirar da minha conta, ele disse “o senhor vai lá na agência, leva seu notebook, que eles vão restituir". Aí caiu a ficha. Liguei pra minha gerente de conta, e ela disse: "Acho que o senhor caiu num golpe". Aí minha casa caiu — recorda.
Os golpistas realizaram uma série de movimentações, que retiraram R$ 1,4 milhão da conta do engenheiro. Desse valor, ele só conseguiu reaver até o momento cerca de R$ 50 mil.
É um sentimento de impunidade. Não sabia o que fazer, fiquei perdido. No início foi chocante, toda minha vida financeira, meu rendimento que estava guardando para minha aposentadoria tranquila, estava tudo nessa conta.
VÍTIMA
Região Metropolitana
O caso que vitimou o engenheiro aconteceu no início de 2022. Para se recuperar do trauma, contou com a ajuda de familiares, e permanece trabalhando, na tentativa de recuperar o que foi perdido. A investigação da Polícia Civil descobriu que o grupo responsável por esse golpe pulverizou os valores em quatro Estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. Antes que a polícia conseguisse chegar aos criminosos, no entanto, um vazamento de informações sigilosas do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) frustrou a operação.
Em agosto de 2025, três anos após o golpe, a polícia retorna ao caso após identificar o hacker que invadiu o computador da vítima. Um dos núcleos envolvidos neste golpe, em São Paulo, foi alvo de uma ofensiva da polícia gaúcha.
“Tenho raiva e vergonha”

Na zona norte de Porto Alegre, em agosto deste ano, uma jovem de 26 anos, recém-formada em Jornalismo, acreditou estar prestes a conseguir um emprego na empresa que almejava. Ludibriada por um golpe, decidiu se demitir do trabalho onde estava. Quando já estava desempregada, descobriu que tudo era uma trapaça.
Tenho raiva e vergonha. Acho que mais a vergonha até do que a raiva. Ainda não consegui falar com meus amigos, a família está sabendo, mas tento não tocar no assunto.
VÍTIMA
Porto Alegre
Tudo se iniciou quando uma mulher, cliente da mãe dela num salão de beleza, apresentou-se como funcionária da empresa. Durante os atendimentos, a mãe confidenciou que a filha tinha o sonho de trabalhar ali.
— Falou que eu era uma boa candidata, que mostrou meu currículo para pessoas dentro da empresa, foi super prestativa. “Ela vai ser contratada, só que precisa de um curso de espanhol. Tu paga o curso antecipadamente e a gente faz a matrícula.” E a gente mandou o dinheiro. Ia vir um salário melhor — recorda a jovem, que faz acompanhamento psicológico.
Após o pagamento, a mulher seguiu trocando mensagens, pegou roupas da mãe da jovem para serem pagas posteriormente, fingiu realizar uma entrevista e dinâmicas de contratação. Convicta de que estava tudo acertado, a jornalista se demitiu do emprego onde estava.
— Não desconfiamos de nada, até ela falar que o diretor do setor tinha morrido e teria que adiar minha contratação. Ela não desapareceu, continuava dizendo que estava tudo certo. Dá mais raiva. Faz a gente se sentir ainda pior. Ela recebeu o que tinha para receber e ainda assim me fez pedir demissão do emprego que estava pagando as minhas contas e que eu precisaria ainda mais agora depois do golpe — diz.
Foi a mãe da jovem quem descobriu o estelionato. Enquanto conversava com outra cliente no salão, descobriu que a mesma mulher havia lhe aplicado um golpe. Ao pesquisar o nome dela na internet, encontrou dezenas de processos por estelionato. O caso foi registrado na 14ª Delegacia de Polícia e segue sob investigação.
— Ele era manicure num salão perto de onde minha mãe trabalha. Ela nunca trabalhou na empresa que dizia. Era tudo uma mentira. Uma estelionatária, que já tinha enganado muita gente — recorda a jovem, que teve prejuízo de cerca de R$ 4,5 mil.
Culpa e abalos emocionais
O sentimento de culpa, que atormenta a jovem e as outras vítimas ouvidas na reportagem, é um dos fatores mais percebidos por quem atende as pessoas que buscam a polícia, após serem alvo dos estelionatários.
A vítima se sente extremamente culpada e constrangida por ter sido enganada. Ela não consegue compreender como ela caiu na conversa e nas artimanhas do golpista. Há casos, inclusive de problemas psicológicos, decorrentes desse golpes. Isso acaba desestruturando toda a família.
THIAGO ALBECHE
Diretor de inteligência do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos
— A gente precisa ter muita atenção justamente para não revitimizar a vítima, que já está fragilizada. Ela já superou inclusive uma parte dessa vergonha, em procurar as autoridades, em fazer a notícia do fato. E esse trabalho policial precisa ser realizado para que a gente, descobrindo a autoria e efetuando as prisões, evite que existam outras vítimas — alerta o delegado Thiago Albeche, diretor de inteligência do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos.
A rede por trás dos golpistas
O salto no número de estelionatos nos últimos anos no Estado, especialmente no ambiente virtual, foi um dos motivos que levou à criação do Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos. Entre 2019 e 2022 os números praticamente triplicaram no Estado (veja os dados no infográfico mais acima). Em muitos casos, as investigações levam à identificação de criminosos de fora do RS, que se articulam para aplicar os golpes em todo Brasil.
— Existe uma rede por trás do próprio golpista. No começo, nossas investigações atingiam especialmente indivíduos que operavam os golpes, que estão na linha de frente do crime. Com o passar do tempo, e amadurecimento das investigações, temos conseguido atingir outros escalões, que são pessoas que não aparecem na prática do estelionato. Elas servem como base logística para que esse crime aconteça. Como, por exemplo, o indivíduo que fornece as informações ao golpista — detalha o diretor do departamento, delegado Eibert Moreira Neto.
São essas informações privilegiadas, muitas vezes obtidas por meio da invasão de sistemas e bancos de dados, que permitem ao estelionatário ludibriar as vítimas, dando maior veracidade à trama do golpe.
— Nos últimos meses, temos observado golpes cada vez mais elaborados, que têm atingido pessoas altamente esclarecidas, empresários, economistas. Saímos de uma realidade em que as vítimas eram pessoas que não tinham uma maior intimidade com o ambiente virtual, para uma nova realidade, que também atinge pessoas mais esclarecidas. Esse perfil da vítima aos poucos vem sendo modificado — afirma o delegado.
Estelionato virou máquina de dinheiro, diz polícia
Em junho do ano passado, uma operação realizada pela Polícia Civil evidenciou um caso que teve um desfecho ainda mais grave. Um morador de Gravataí, vítima do golpe dos nudes, tirou a própria vida, após receber uma série de ameaças enviadas por um golpista de dentro do sistema prisional.
— Hoje o estelionato é usado de uma forma gravíssima, com exposição da pessoa em rede social, acabando com a reputação, com a família, por uma situação em que eles buscam dinheiro. — afirma o diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), delegado Mario Souza.
O contato entre a vítima e os bandidos começou pela internet, com a troca de mensagens e fotos. Inicialmente o homem acreditava falar com uma jovem, mas posteriormente um golpista entrou em contato informando que ele havia trocado mensagens íntimas com uma adolescente e que os pais tinham registrado uma ocorrência, por suspeita de pedofilia. O criminoso se passou por um delegado e exigiu pagamento para não levar o caso adiante.
Após os primeiros pagamentos, as extorsões seguiram, alterando a narrativa do golpe. O criminoso alegou que o caso havia se agravado e que eram necessários novos valores. Ao todo, o homem repassou aos criminosos cerca de R$ 10 mil por meio de transferências bancárias.
— O estelionato virou para o crime uma máquina de dinheiro. Ele tem uma pena menor, que em tese tem olhar diferente por não ter violência direta. Mas não é mais o estelionato de antigamente. Hoje está sendo usado de forma muito mais agressiva contra as pessoas — diz o delegado Souza.
O golpista chegou a informar que a adolescente – que não existia – havia cometido suicídio, e que o homem responderia também por isso. Sem recursos para pagar as extorsões, o homem tirou a própria vida.
O estelionato não é um crime menor, médio, por não ter questão da violência. Pelo contrário, é usado como um torniquete na cabeça da pessoa e resulta em casos como esse, em que a vítima tirou a própria vida.
MARIO SOUZA
Diretor do DHPP





