
Ainda é difícil para a professora de inglês Mariana Linck Wasum, 39 anos, relatar o ataque com facão que quase resultou na morte do marido, Fabrício Antônio da Silva, 40 anos, na segunda-feira (8).
O casal se preparava para jantar quando teve a casa de campo invadida por um vizinho, que golpeou Silva com a arma branca. O professor universitário ficou ferido, foi hospitalizado e teve alta no dia seguinte ao crime. Já o suspeito está preso preventivamente.
O caso aconteceu em um condomínio de propriedades rurais no bairro Lomba Grande, em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos. A invasão que redundou na tentativa de homicídio foi presenciada pelo filho do casal, Gabriel, 10 anos.
O ataque durou cerca de 20 minutos e gerou, além de ferimentos físicos em Silva, um trauma psicológico na família, que teme em voltar no local do crime. O professor universitário de Direito ficou com cortes de facão no rosto e nas costas, assim como fraturas no nariz, joelho e pulso.
— Foi um desespero. Foi um verdadeiro filme de terror. É horrível a sensação de que nós três poderíamos estar mortos. Nesse momento, nem conseguimos cogitar em voltar lá — relata Mariana, que conseguiu fugir do ataque, assim como o filho.
Vítima e suspeito ficaram feridos, foram encaminhados ao Hospital Municipal de Novo Hamburgo e já tiveram alta. O homem apontado como agressor atuava como síndico no condomínio. Ele foi preso em flagrante por tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil. Na quarta-feira (10), a Justiça decretou a prisão preventiva dele.
Polícia investiga motivação
O caso é investigado pela Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Novo Hamburgo.
Embora a motivação inicialmente tratada pela polícia estivesse ligada a um impasse sobre a divisão, metragem e instalação de uma cerca divisória entre terrenos, para a professora de inglês, o caso vai muito além disso: envolve também ameaças e ofensas que se iniciaram há aproximadamente um ano, quando a família — que mora em São Leopoldo — começou a construir uma casa de campo no local.
— Ele se portava como se fosse o proprietário do nosso lote, reclamando da instalação de câmeras, da instalação da cerca. A sensação que a gente tinha era que ele se sentia no direito de querer se adonar do nosso sítio. Tudo, qualquer coisa que a gente fosse fazer era motivo para reclamações. Era como se eles achassem que a gente não tivesse direito sobre a nossa própria casa — lamenta a professora.
A esposa da vítima também acredita se tratar de um crime de ódio e racismo, visto que o suposto agressor e a companheira vinham ofendendo Silva, que é negro, há cerca de um ano.
— Eles diziam que o meu marido era um favelado, que por causa dele o condomínio estava se transformando em uma favela. Falaram que a gente não ia conseguir continuar a construção da casa porque a gente não tinha condições pra isso. Quando chegava visita para eles, falavam que o meu marido era o chacreiro deles. Se isso não é racismo eu não sei o que é — afirma a professora.
Entre outras intimidações, Mariana relembra que o homem suspeito de realizar o ataque, por vezes, encarava a família mostrando uma faca na cintura. Além disso, recentemente havia colocado dois esqueletos de cabeça de boi na divisória dos terrenos, virados para a casa das vítimas, o que gerou sentimentos negativos na família.
— Meu filho, que tem 10 anos, se assustou e começou a ter pesadelo com aquilo — relata.
Foi a tensão na convivência entre os vizinhos que levou a família a instalar câmeras pela residência.
Possível premeditação
De acordo com o delegado Anderson Hermel, titular da DHPP da cidade, existe a possibilidade de que o crime tenha sido premeditado.
Imagens de câmeras de videomonitoramento captaram o momento do crime. Durante o ataque, o suspeito usava luvas para segurar o facão, indicando uma tentativa de mascarar a autoria do ataque.
Para a família, o sentimento é de que o homem tenha planejado o crime.
— Ele veio disposto a um triplo homicídio. Ele premeditou, estava com luvas, veio por onde as câmeras ao redor da casa não o captavam. E essa câmera que pegou ele, ele não sabia que existia. Então, ele estudou os pontos cegos — afirma Mariana.
Apesar dessa linha de investigação, outras possibilidades são analisadas pela polícia, inclusive de possível crime racial. O inquérito policial deve ser finalizado dentro de 10 dias.



