Uma série de ameaças entre dois grupos criminosos culminou num desfecho violento no bairro Restinga, no extremo sul de Porto Alegre. Durante uma comemoração pelo Dia das Crianças, no início da madrugada de 13 de outubro, bandidos armados chegaram ao local num veículo e efetuaram dezenas de disparos contra pessoas da comunidade que participavam da confraternização. Um morador ficou ferido.
O atentado aconteceu numa praça próxima ao Condomínio Belize — uma semana antes, dois homens tinham sido executados no mesmo bairro, entre eles o motoboy Allan dos Santos, 21 anos. O jovem, sem histórico de envolvimento com o crime, foi executado durante um tiroteio promovido pelos mesmos grupos criminosos, que estão no centro desse ataque durante a festa comunitária.
Na manhã desta quarta-feira (3), o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) realizou em Porto Alegre a Operação Fim de Jogo, contra a facção responsável pelo ataque a tiros. A ofensiva contou com apoio da Brigada Militar no cumprimento de três mandados de prisão preventiva e 18 de busca e apreensão. Dos três presos, dois são suspeitos de serem os autores do atentado e o terceiro, de ser o motorista deles na ação.
— Na ocasião, como estava havendo uma festa, havia muitas crianças, moradores e também indivíduos que são envolvidos com a criminalidade e pertenciam a um grupo criminoso rival. Segundo apurado, os alvos eram esses indivíduos — detalha o delegado André Freitas, da 4ª Delegacia de Homicídios, que coordena a operação.
O carro usado no ataque, um HB20 cinza, foi abandonado logo após o crime e apreendido. O automóvel pertencia a uma locadora e estava alugado na noite do ataque.
Vídeos obtidos pela investigação mostram os moradores correndo assustados durante a troca de tiros. Apesar do pânico causado na comunidade, ninguém se feriu com gravidade. Um homem foi baleado de raspão na perna, recebeu atendimento e foi liberado.
Disputas e ameaças

Os autores do atentado, segundo a investigação, seriam moradores da Vila Pedreira, localizada na Cruzeiro, na zona sul da Capital.
— Esse grupo da Pedreira é ligado a uma facção e esses indivíduos (da Restinga) são de um grupo criminoso ligado a uma facção rival. Naquele momento, estavam tendo alguns desentendimentos por disputa do território de tráfico e é o que teria motivado o ataque — explica o delegado Freitas.
Durante a investigação, a polícia obteve outros vídeos, que mostram os criminosos trocando ameaças pelas redes sociais. Numa das gravações, traficantes da Pedreira empunham armas, como pistolas e uma submetralhadora, durante um outro evento que ocorria na comunidade.
— Esse tipo de ataque para tentar impor terror tem sido menos frequente nos últimos anos. Neste caso, eles tinham um alvo definido, mas atiraram durante um evento onde havia outras pessoas, sendo que inclusive uma delas ficou ferida na ação. É um caso grave e, por isso, os envolvidos nesse crime estão sendo responsabilizados — afirma o diretor do DHPP, delegado Mario Souza.
Morte de motoboy

O ataque a tiros que resultou na morte de Santos segue sob investigação da 4ª Delegacia de Homicídios. Segundo o delegado Freitas, o crime também se deu em meio aos conflitos entre os grupos criminosos. O jovem trabalhava como motoboy para uma lancheria e uma pizzaria da região havia cinco anos.
Ele morava em um imóvel em frente à casa da mãe, com a esposa, com quem estava havia quatro anos, e não tinha filhos. Quando foi atingido, o motoboy voltava para casa após visitar o pai, também morador da região. Baleado, ele foi levado ao Hospital Restinga, mas não resistiu aos ferimentos.
— É um vazio. Tiraram a minha felicidade, a coisa mais preciosa da vida, minha alegria. Preciso viver porque tenho minhas duas filhas. Não tem como aceitar o que fizeram com o meu filho — disse a mãe do jovem, Shirlei Fontoura dos Santos, 40 anos.



