
À frente do Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria Pública do Estado, Felipe Kirchner também é psicólogo e acompanha com preocupação o crescente número de estelionatos e os impactos causados nas vítimas.
Ele cita maior especialização por parte dos criminosos, que buscam tornar os golpes cada vez mais elaborados:
— A gente tem agora esse advento das inteligências artificiais com modulação de voz, vídeos, o que leva esse tipo de golpe a uma verossimilhança da realidade numa outra escala. E aí impacta numa maior vulnerabilidade das pessoas. Não é algo que vai afetar só a esfera patrimonial da pessoa. Aquilo vai afetar em uma desorganização psíquica, psicológica.
Em vídeo, veja depoimentos de vítimas de estelionato:
Veja a seguir os principais trechos da entrevista.
Quais os impactos no aspecto mental para a vida dessas vítimas de estelionato?
Vai ter uma questão ligada a uma autoestima da pessoa, aquela ideia de “como é que eu fui enganado por isso?”. Vai afetar, muitas vezes, a rede de relações que ela tem, porque vai afetar terceiros. E, podendo, efetivamente, recai, em psicopatologias graves, como é o caso da depressão, da ideação ao suicídio. E também em outras situações, como o transtorno de estresse pós-traumático. Às vezes, os golpes realmente impactam de maneira decisiva na vida das pessoas e também impactam em entes queridos. E esse, eu acho, que é o quarto aspecto a ser quantificado. Que não é só a pessoa vítima do golpe, mas também o entorno das consequências desse golpe.
Quais gargalos que o senhor vê no enfrentamento a esse tipo de crime?
Primeiro, essa dificuldade que temos de estabelecer prevenção. E também uma dificuldade gigantesca de reparar e compensar os prejuízos após essas fraudes. Muitas vezes, esses golpes são elaborados, contam com fragilidades do sistema. Tem uma fragilidade que acho que é até paradoxal e um tanto quanto perversa, que o menos protegido pelo sistema é quem deveria ser aquele mais protegido. A instituição financeira, quando sofre um golpe, vai estar resguardada pelo seguro dela, pela capacidade que ela tem de transferir esse prejuízo para os consumidores. Agora, o meu assistido não tem condição de ser ressarcido daquele golpe, se não nós buscarmos realmente quem praticou aquele golpe. Então, é um cenário bastante desolador nesse aspecto. Acho que uma das tentativas é a gente investir cada vez mais em educação. Educação em direitos, no sentido de que a gente consiga se precaver disso.
E nesse cenário, o que a Defensoria pode fazer pelos consumidores?
A gente pode atuar no âmbito individual e coletivo. Pode ser por indivíduos, a dona Maria e o seu João, que sofreram um golpe e procuram instituição. E também pode ser, eventualmente, numa área coletiva.
Se a gente perceber, como a gente já atuou em diversas situações, esquemas de pirâmide, aquelas questões envolvendo produtos, que inclusive teve um caso famoso aqui no Rio Grande do Sul de venda de colchões, a prevenção do dano, que tenha alguma fraude acontecendo, já vou adotar medidas para que aquilo não aconteça ou não se estenda. E as vias reparatórias. A partir do momento em que isso aconteceu, nós tentarmos retornar o dano.
O principal aspecto é poder divulgar não só o serviço da instituição, mas essa pauta como forma de educação das pessoas também para esse olhar mais atento a essas relações. Todo santo dia, sou bombardeado com um golpe com relação ao meu banco.
Como não revitimizar essa pessoa que já foi alvo de um golpe?
Muitas vezes, no local onde ela deveria encontrar amparo, que é a rede de proteção dela, ela sofre uma nova traumatização. Tem um doutrinador que tem uma teoria que se chama de “teoria do desmentido”. Ele diz que o problema não é a situação em si, o problema é quando tu busca a rede de apoio e aquela rede de apoio desmente a tua versão.
Quando a rede de apoio desmente aquela tua versão ou te revitimiza com aquilo ali, o problema não é mais a situação, o problema é que tu perde a tua identidade. Tu te perde como sujeito. E desabam todas essas defesas emocionais que a pessoa tem. Aí vai abrir uma grande porta para que ela comece a ir num caminho de estados depressivos, de transtorno de estresse pós-traumático, que são sintomas mais graves.
Todas as pessoas que passam por uma situação como essa sofrem algum tipo de abalo psicológico?
Todo mundo que sofre um golpe como esse vai sofrer um período de luto. Ela vai ter que lidar com uma situação que é uma perda. Não é só uma perda do dinheiro, é uma perda da identidade que ela tem sobre si mesma. Como uma pessoa capaz, como uma pessoa que consegue lidar com o mundo. Quer dizer, ela sofre um golpe do mundo e isso é colocado em xeque. Então, tem um período natural de luto. Tem que se perceber o quanto que esses estados emocionais mobilizados pelo trauma estão dentro de um campo natural, de um período para a pessoa assimilar. E o quanto, na verdade, isso já desborda pra um campo de uma certa patologia.
Qual a recomendação para estes casos? Como agir?
A indicação é para que a pessoa consiga acionar primeiro a rede de apoio. Se nessa rede de apoio a pessoa não tiver eco, não tiver amparo, que ela consiga buscar outras redes de apoio, um tratamento psicológico, psiquiátrico. Principalmente, quando se percebe sofrimento a partir desse estado de luto. Ele é esperado, é natural, e a gente diria até que é bom, porque a pessoa tem que lidar com aquilo. Agora, quando o luto se transforma em depressão, em trauma, aí é importante que a pessoa busque ajuda profissional. A perda não é só do dinheiro, a perda é dessa questão simbólica da identidade dela como alguém capaz. O que é furtado da pessoa ali não é só o bem material. É uma questão de afeto sobre si mesma. E também uma questão de confiança com relação ao mundo. A pessoa pode também começar a ter uma visão mais depressiva não só sobre si, mas sobre o mundo. E isso também vai, de alguma forma, reverberar no empobrecimento das relações que ela vai ter.
Quais são os sinais de alerta?
Ela vai se fechar. Tende a ter um comportamento mais evitativo, a se enclausurar em casa, a ter comportamentos mais nessa linha da patologia. Esses sintomas são os sinais mais claros. De um luto que não passa, de uma tristeza que não passa, da noção das pessoas que vão dizer “tu tá diferente”. De uma mudança de comportamento, de humor. Isso é um quadro que pode levar a esses quadros patológicos mais intensos e graves.
Muitas pessoas dizem que o trauma é maior do que se tivessem sido vítimas de um assalto, por exemplo. O que explica isso?
É uma questão simbólica. Quando alguém me rouba, eu consigo entender aquilo como violento. Quando alguém me empurra, tira a minha bolsa, eu consigo nominar aquilo como violência. Enquanto, nesses golpes, são usados de um subterfúgio que envolve a fragilidade da pessoa. Existe uma violência simbólica que, muitas vezes, inclusive, vai ser do ponto de vista psicanalítico e psicológico mais grave do que uma violência física, sem querer relativizar a violência física. Vai deixar marcas emocionais ali, que vão ser mais duradouras do que o hematoma. Essa dor emocional muitas vezes vai acompanhar um sujeito durante muito tempo.


