
Um áudio obtido pela reportagem de Zero Hora (ouça abaixo) revela ameaças de um integrante de uma facção criminosa contra um advogado ligado a moradores de um condomínio que sofre com a ação do tráfico de drogas em São Leopoldo, no Vale dos Sinos
Na gravação, o homem diz estar preso há mais de vinte anos e afirma falar em nome de uma organização criminosa com atuação no Estado.
O objetivo da pressão, segundo a polícia, é afastar o advogado que representa o condomínio e manter no cargo outro profissional. Ao longo de vários minutos, o suspeito insiste para que o interlocutor abandone a causa e sugere que os honorários recebidos não compensariam o risco de morte.
— Não te envolve no que não te condiz (…) A tua vida vale quanto, cara? — afirma o criminoso, em tom de ameaça.
Possível emboscada
Em um dos trechos mais graves, o integrante da facção descreve uma eventual emboscada caso o advogado insista em continuar no caso, mencionando veículos de alto padrão, armas longas e violência extrema.
Ele também afirma que, se algo acontecesse, o profissional estaria sozinho.
— Ninguém vai dar um real pros teus filhos (…) Não vai nem chorar no teu velório, mano — diz.
Operação desmonta esquema da facção no condomínio
A divulgação do áudio ocorreu após uma operação da 2ª Delegacia de Polícia de São Leopoldo, deflagrada nesta quarta-feira (12) para desarticular o grupo que dominava o Condomínio Vila Germânica. A investigação durou três meses e apontou que a facção controlava a administração do prédio por meio de ameaças, extorsões e desvios de verbas condominiais.
Cinco suspeitos seguem foragidos. Ao todo, 13 mandados de prisão foram expedidos e oito pessoas foram detidas. A Polícia Civil também cumpriu 31 mandados de busca e apreensão, recolhendo documentos ligados à gestão do condomínio, celulares e munições. O material será analisado para identificar possíveis novos envolvidos.
Segundo a investigação, o esquema contava com o apoio de um ex-síndico e de uma empresa terceirizada de vigilância, cujo contrato estaria superfaturado. A facção utilizava essa estrutura para desviar recursos e controlar financeiramente o espaço, enquanto moradores eram intimidados — inclusive por criminosos já presos, como mostra o áudio revelado pela reportagem.
O delegado Rodrigo Câmara, responsável pela investigação, afirma que a ação foi uma resposta direta às denúncias dos moradores e ao clima de medo instalado no condomínio.
— O objetivo foi devolver tranquilidade aos moradores, que eram vítimas de graves ameaças e tinham suas verbas condominiais desviadas de forma sistemática.
Segundo Câmara, as provas coletadas mostram que a atuação criminosa tinha caráter organizado e contínuo.
— Estamos diante de uma estrutura montada para coagir, controlar e explorar financeiramente a comunidade condominial.
Agora, a Polícia Civil apura indícios de que o grupo tenta expandir o modelo de atuação para outros empreendimentos de São Leopoldo e municípios do Vale dos Sinos. A possível ampliação ainda não foi confirmada, mas referências encontradas no inquérito apontam a intenção da facção de estender sua influência.



