
A família de Hérick Vargas, 29 anos, morto em ação policial durante surto dentro de casa na zona norte de Porto Alegre, afirma que teve acesso ao inquérito e às imagens das câmeras corporais da Brigada Militar somente no início desta semana, após a finalização do investigação. Tanto Polícia Civil quanto a Corregedoria da Brigada Militar concluíram que os dois policiais militares agiram em legitima defesa ao disparar contra Hérick dois meses atrás. A versão é contestada pela defesa dos pais do jovem.
— Eles mataram meu filho aqui dentro, fizeram uma brutalidade, uma crueldade, e ainda saiu como legítima defesa. É indignante, revoltante. É nítido que eles assassinaram meu filho aqui dentro. Eu espero que isso seja visto pelo Estado, porque as coisas têm que ser justas. E houve uma injustiça aqui. Tiraram a vida do Hérick com 29 anos. Ele precisava de atendimento, de acolhimento e não de brutalidade, violência e morte — lamenta a mãe de Hérick, Evolmara Vargas, técnica em enfermagem.
No momento da ocorrência, além de Evolmara, a avó e uma tia de Hérick estavam na casa. Ele fazia tratamento psiquiátrico, mas, naquele dia, teve uma recaída e usou drogas. A família já havia acionado a Brigada Militar em outros episódios semelhantes anteriormente. A mãe afirma que a abordagem foi diferente nos chamados anteriores.
— Os brigadianos chegavam, nunca vi se tinha essa arma de choque. Nunca nos mostraram. Era uma arma de fogo sempre na cintura. Conversavam, tentavam manter o Hérick calmo. Nunca instigavam pra ele ficar irritado ou desencadear uma nova crise. Tanto é que meu filho, todas as vezes, foi caminhando até a ambulância — relata Evolmara.
Para a mãe do jovem, desta vez, a postura dos policiais agravou a crise de Hérick. Imagens da câmera corporal de um dos policiais mostram a dinâmica da abordagem.
— Eles podiam ter auxiliado, ter algemado, ter ajudado a conter. O meu filho já estava contido por mim e pelos meus familiares. Eles poderiam ter acrescentado a contenção e não ter mandado largar e atirado nele. Ali, eles assumiram o risco de matar e mataram o meu filho. E eu quero Justiça por isso — complementa a mãe do jovem.
A família mora na casa há 18 anos. Segundo a mãe de Hérick, ele fazia tratamento no ambulatório do Hospital de Clínicas. Em julho, Hérick havia trancado a faculdade de Música e começado um curso de transações imobiliárias.
Vídeo de câmera corporal
Os vídeos registram a conversa dos policiais ainda na viatura. Na residência, os brigadianos encontram Herick sentado no chão, ao lado da mãe. Eles conversam por cerca de dois minutos e pedem que ele permaneça sentado.
Em seguida, Herick se levanta, questiona sobre a arma e fala para o policial:
— Atira em mim, atira em mim.
O homem é atingido por uma arma de choque e cai no chão.
A mãe e uma tia tentam segurá-lo, mas os agentes pedem que elas se afastem. Logo depois, ocorrem os disparos com arma de fogo.
Após os tiros, a mãe desabafa:
— A gente chamou vocês pra ajudar, não pra matar meu filho.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou minutos depois, mas Herick morreu em casa.
A BM relata que foi a mãe de Herick quem acionou a polícia. Ela relatou que o filho estava agressivo após fazer uso de cocaína.
O que dizem as instituições
Polícia Civil
"A 3ª Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (3ªDPHPP) informa a conclusão do Inquérito Policial instaurado para apurar as circunstâncias que levaram ao óbito de um homem, ocorrido em 15 de setembro de 2025, no bairro Parque Santa Fé na cidade de Porto Alegre.
Após análise detalhada do conjunto dos elementos informativos, foi constatado que a atuação dos policiais militares observou os protocolos de uso diferenciado e progressivo da força.
O Inquérito Policial foi encaminhado à Justiça para as providências cabíveis, destacando que houve decretação de sigilo do inquérito."
Brigada Militar
"A Corregedoria-Geral da Brigada Militar comunica a conclusão do Inquérito Policial Militar (IPM) instaurado para a apuração dos fatos que resultaram no óbito do Sr. H.C.S.V, no dia 15 de setembro de 2025, na cidade de Porto Alegre. O inquérito policial militar foi remetido à Justiça Militar do Estado o qual dará vistas ao Ministério Público, titular da ação penal.
A análise do amplo conjunto probatório - gravações das câmeras corporais (COPs), depoimentos, laudos periciais, demonstraram que a atuação dos policiais militares obedeceu as regras de uso diferenciado da força, iniciando pela conversação, evoluindo para emprego de instrumento de menor potencial ofensivo e força letal, à medida em que as atitudes de H.C.S.V evoluíram de cooperativo para agressão física com risco iminente à vida dos policiais.
A Brigada Militar prima pela qualificação dos policiais militares por meio de um calendário robusto de cursos, que visa manter a excelência do serviço prestado à sociedade gaúcha bem como a atualização necessária. Ao mesmo tempo que as capacitações e os treinamentos proporcionam o desenvolvimento das potencialidades, possibilitam o aperfeiçoamento técnico profissional para o exercício das funções dos policiais militares.
O laudo toxicológico, lavrado pelo órgão oficial de perícia do Estado, constatou a ingestão de cocaína em concentração extremamente elevada, o que somado a crise de esquizofrenia, da qual o sr. H.C.S.V era portador, resultou em intenso descontrole, infelizmente não sendo possível contê-lo de outra forma dentro das circunstâncias apresentadas.
A Brigada Militar lamenta o episódio e reafirma o seu compromisso com a segurança da população gaúcha!
Porto Alegre, 11 de novembro de 2025."


