
A megaoperação policial no Rio de Janeiro, que mobilizou cerca de 2,5 mil agentes das forças de segurança nos complexos da Penha e do Alemão, já é considerada a mais letal da história do Brasil.
A Defensoria Pública do Rio confirmou 132 mortos na ação, número que ultrapassa o massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, em São Paulo, quando 111 presos foram assassinados durante uma intervenção policial.
Até o momento, o governo do Rio contabiliza 64 mortos, sendo 60 suspeitos e quatro policiais. A contagem oficial ainda não inclui os mais de 60 corpos levados por moradores à Praça São Lucas, no Complexo da Penha, na madrugada desta quarta-feira (29).
A Polícia Militar informou que será necessária a realização da perícia para determinar se essas vítimas têm relação com os confrontos registrados na operação, o que pode elevar ainda mais o número final. Os trabalhos acontecem ao longo desta quarta.
Guerra no Rio de Janeiro: o combate ao crime organizado
Operações mais letais do Rio e do Brasil

A ação desta semana já supera em letalidade outras operações no Rio e ultrapassa o total de mortos do Carandiru, há 33 anos.
Na época, 111 detentos foram mortos por policiais militares durante uma intervenção no Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, após o início de uma rebelião.
Veja as operações mais letais:
- Complexos da Penha e do Alemão (RJ, 2025): 128 mortes, podendo ultrapassar 150. Megaoperação contra o Comando Vermelho; 2,5 mil agentes envolvidos.
- Carandiru (SP, 1992): 111 mortos. Intervenção da Polícia Militar durante rebelião no presídio paulista.
- Jacarezinho (RJ, 2021): 28 mortos. Ação contra o tráfico na zona norte do Rio de Janeiro.
- Vila Cruzeiro (RJ, 2022): 24 mortos. Operação conjunta entre o Bope e a Polícia Rodoviária Federal.
- Complexo do Alemão (RJ, 2007): 19 mortos. Confrontos durante ação da Polícia Militar.
- Fallet/Fogueteiro (RJ, 2019): 15 mortos. Operação da PM nos morros dos Prazeres e do Fogueteiro.
Corpos levados por moradores
As imagens que circularam durante a madrugada mostram dezenas de corpos dispostos lado a lado em uma das principais praças do Complexo da Penha. Segundo relatos, as vítimas foram retiradas de uma área de mata conhecida como Vacaria, na Serra da Misericórdia, onde ocorreram intensos tiroteios.
A informação repassada pela Polícia Militar é de que houve um reforço de 40% do efetivo, que foi colocado à disposição. A reportagem da Rádio Gaúcha, que está no local, porém, não identificou agentes nem da Polícia Civil, nem da Polícia Militar na região.
Os corpos, em sua maioria de homens jovens, foram levados ao local para facilitar o reconhecimento por familiares. Muitos apresentavam ferimentos de bala e rostos desfigurados. O ativista Raull Santiago, que acompanhou o recolhimento, classificou a cena como "brutal e sem precedentes", ao g1.
O secretário da PM, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, afirmou, segundo o g1, que os cadáveres não fazem parte da contagem oficial divulgada na terça.
Caso sejam confirmados como vítimas da operação, o total de mortes poderá ultrapassar 150, superando o número do Carandiru.
Reação do crime e reforço nas prisões
Horas após o início da ofensiva, o tráfico reagiu com barricadas, ataques e incêndios em vias importantes, como a Linha Amarela e a Grajaú-Jacarepaguá.
Em resposta, o governo estadual transferiu dez membros da cúpula do Comando Vermelho (CV) do presídio de Bangu 3 para Bangu 1, unidade de segurança máxima.
Segundo a Secretaria de Segurança, o grupo é suspeito de ordenar as retaliações de dentro da cadeia. O governo do Rio solicitou ao Ministério da Justiça que os detentos sejam enviados para presídios federais em diferentes Estados, para isolar as lideranças e reduzir a capacidade de articulação da facção.
Entre os transferidos está Marco Antônio Pereira Firmino, o My Thor, considerado um dos principais chefes do CV. Também foram levados a Bangu 1:
- Wagner Teixeira Carlos (Waguinho de Cabo Frio)
- Rian Maurício Tavares Mota (Da Marinha)
- Roberto de Souza Brito (Irmão Metralha)
- Arnaldo da Silva Dias (Naldinho)
- Alexander de Jesus Carlos (Choque / Coroa)
- Leonardo Farinazzo Pampuri (Léo Barrão)
- Fabrício de Melo de Jesus (Bichinho)
- Carlos Vinícius Lirio da Silva (Cabeça do Sabão)
- Eliezer Miranda Joaquim (Criam)
Operação mais letal do país
Batizada de Operação Contenção, a ação teve como objetivo cumprir cem mandados de prisão contra lideranças do Comando Vermelho e apreender armas e drogas. No total, 81 pessoas foram presas, 93 fuzis e 200 quilos de maconha foram apreendidos.
Durante os confrontos, 26 criminosos foram presos após manter uma mulher refém em uma casa na Vila Cruzeiro. Helicópteros, blindados e drones foram usados no cerco, enquanto traficantes reagiram com explosivos lançados por drones, um novo padrão de enfrentamento identificado pelas forças de segurança.
O governo federal informou que não foi acionado para apoiar a operação. Segundo o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, "nenhum pedido de cooperação foi feito pelo governador".
Já o governo do Rio convocou uma coletiva de imprensa para as 11h30min desta quarta-feira (29), quando deve atualizar o balanço oficial e anunciar novas medidas de segurança.
Policiais entre as vítimas
Quatro agentes, dois civis e dois militares, faleceram nos confrontos:
- Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho, 51 anos, comissário da 53ª DP (Mesquita)
- Rodrigo Velloso Cabral, 34 anos, da 39ª DP (Pavuna)
- Cleiton Serafim Gonçalves, 42 anos, 3º sargento do Bope
- Heber Carvalho da Fonseca, 39 anos, 3º sargento do Bope
O delegado-adjunto da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Bernardo Leal, foi baleado e segue em estado grave. Outros 15 policiais ficaram feridos.
Entenda, ponto a ponto, os números da megaoperação do Rio de Janeiro:
- O governo havia informado, em balanço divulgado na terça-feira (28), que havia 64 mortos, sendo que quatro eram policiais civis e militares
- Na manhã desta quarta (29), o governador Cláudio Castro confirmou em coletiva 58 mortos: desses, 54 eram criminosos e quatro policiais. Castro não esclareceu por que o número do balanço de terça foi alterado
- Já a cúpula da segurança do RJ e do governo do Estado afirmam que são 121 mortos: quatro policiais e 117 suspeitos
- Moradores afirmam ter encontrado 74 mortos na mata. Os corpos foram levados para uma praça na Penha. Secretário da Polícia Civil fala em "63 corpos achados na mata"
- Haverá uma perícia para ver se há relação entre essas mortes e a operação
- Sobre as prisões, o delegado Felipe Curi disse que foram 113 presos, sendo 33 de outros Estados, como Amazonas, Ceará, Pará e Pernambuco










