
O primeiro semestre de 2025 registrou queda de 22,5% no número de civis mortos em ações policiais no Rio Grande do Sul na comparação com o mesmo período do ano passado. Nos seis primeiros meses deste ano, 48 civis morreram em confrontos com a Brigada Militar e com a Polícia Civil, enquanto em 2024 foram 62 pessoas.
O balanço inclui mortes em conflitos entre criminosos e agentes das forças de segurança. Também são analisados os casos de civis executados em situações com suspeita de violência policial. Entre esses episódios, o que mais teve repercussão em 2025 foi o da morte do jovem amarrado com as mãos para trás, ocorrida em março em Bom Jesus.
O levantamento feito por Zero Hora tem por base dados abertos divulgados semestralmente pela Secretaria da Segurança Pública e informações disponibilizadas com base na Lei de Acesso à Informação.
Pela natureza do trabalho — policiamento ostensivo — a Brigada Militar (BM) liderou as ocorrências nos seis primeiros meses deste ano. Foram 48 civis mortos e cinco agentes tombados em ação. A Polícia Civil não registrou civis mortos no primeiro semestre. Um policial civil morreu em ação.
Para a BM, a letalidade tem relação com a força bélica e ousadia dos criminosos. Segundo o comando da corporação, oito mil armas foram apreendidas no Rio Grande do Sul somente no ano passado.

— Deste total, foram 105 fuzis, aqueles mesmos utilizados na guerra entre Ucrânia e Rússia. Esse é o poderio dos criminosos, talvez em uma escalada nunca antes vista no país. Conversando com o comandante da PM do Rio de Janeiro, ele também falava sobre apreensões recordes de fuzis naquele Estado — afirma o comandante-geral da Brigada Militar, coronel Cláudio dos Santos Feoli.
O comandante-geral da Brigada Militar destaca ainda o investimento da corporação em equipamentos de menor potencial ofensivo. Segundo ele, a utilização desses aparelhos é quatro vezes maior do que o da arma de fogo.
Episódios mais recentes como o homem baleado na zona norte de Porto Alegre e o do agricultor morto em Santa Maria após abordagem da Brigada Militar devem constar apenas no fechamento do segundo semestre deste ano.
Em 10 anos, 1,1 mil civis mortos em confrontos
Desconsiderando-se os reflexos da pandemia, o mais recente ano a registrar menos de cem mortes em confrontos foi 2019, com 99 ocorrências de óbitos de civis. Entre 2015 e 2024, foram 1.173 pessoas mortas em ações policiais no Rio Grande do Sul, sendo 1.115 da Brigada Militar e 58 da Polícia Civil.
No que diz respeito à Brigada Militar, o ano mais violento foi 2020, com 148 mortes, momento que superou toda a série histórica, iniciada em 2001.
Na Polícia Civil, o período mais violento foi 2016, com 15 pessoas mortas, ano marcado por abalo na segurança pública. Na época, a morte de uma mulher que esperava o filho na saída de uma escola na zona norte de Porto Alegre, levou à queda do então secretário estadual da Segurança, Wantuir Jacini.
Em nota (leia a íntegra abaixo), a Polícia Civil, informou que atua na qualificação permanente de seus policiais, por meio de treinamentos e investimentos em equipamentos.
A Polícia Civil reforça seu compromisso com a qualificação permanente de seus policiais, por meio de treinamentos e investimentos em equipamentos.
Ressalta-se a existência de uma estrutura voltada à capacitação dos agentes, como a Casa de Resgate e Intervenção Tática, localizada na Cidade da Polícia, além da linha de tiro. Nesses locais, são realizados treinamentos que contribuem para o aprimoramento técnico dos servidores, auxiliando na redução dos casos de letalidade durante as ações policiais.
A Polícia Civil reafirma que sua atuação se pauta pela legalidade, proporcionalidade e respeito aos direitos humanos, priorizando sempre a resolução de conflitos por meios técnicos e investigativos.
A Instituição seguirá empenhada em aprimorar seus procedimentos e estratégias, visando garantir a segurança pública com responsabilidade, eficiência e respeito à vida.

Inquéritos policiais militares
Via Lei de Acesso à Informação (LAI), Zero Hora também solicitou um balanço de abertura de inquéritos policiais militares (IPM) relativos a óbitos em situações de intervenção da Brigada Militar. O IPM é um procedimento administrativo que visa apurar possíveis delitos cometidos por policiais militares. A reunião de provas pode levar à instauração de uma ação penal por parte do Ministério Público.
A análise aponta queda no número de procedimentos instaurados por mortes em confrontos, após dois anos de pico (2023 e 2024). No primeiro semestre de 2025, a redução chega a 31,6% na comparação aos primeiros seis meses de 2024.
Questionada via LAI sobre quantos destes inquéritos foram concluídos apontando a responsabilidade de policiais militares em mortes decorrentes de confrontos, a Secretaria de Segurança Pública informou que a solicitação "exige uma análise individualizada de procedimentos investigativos instaurados, importando em trabalhos adicionais de análise e consolidação de dados, razão pela qual deixamos de fornecê-los ao demandante".
Em relação à Polícia Civil, 38 inquéritos foram instaurados para apurar casos de pessoas mortas por policiais na ativa entre 2017 e o final do primeiro semestre de 2025. Deste total, 35 foram concluídos sem apontar indiciamentos. Dois ainda estão em curso e um terminou com agente indiciado.
"Eu não confio mais na Brigada Militar", diz pai de jovem encontrado morto em açude

Gabriel Marques Cavalheiro, então com 18 anos, foi visto com vida pela última vez entre o final da noite de 12 de agosto de 2022 e a madrugada do dia 13. Após ser abordado por três policiais militares em São Gabriel, na Fronteira Oeste, onde iria prestar o serviço militar obrigatório, Gabriel teria sido agredido por um deles com golpes de cassetete. Uma vizinha da casa em que ele estava hospedado chamou a polícia porque, segundo ela, o jovem estaria forçando o portão. A polícia foi acionada, ocasião em que teria sido agredido. Os policiais colocaram o jovem numa viatura e levaram até um açude, na localidade de Lava Pé onde teria sido morto. O corpo de Gabriel foi encontrado uma semana depois.
Três anos após o caso, três policiais militares réus por envolvimento na morte do jovem ainda esperam a realização de júri, que segue sem data prevista.
A família também aguarda com expectativa a marcação da data do júri. Na esfera do Tribunal de Justiça Militar, o caso resultou em absolvição. Para o pai do jovem, Anderson da Silva Cavalheiro, ainda é difícil compreender as razões do crime.
— A gente ficou sem chão, não sabia o que fazer. Porque quem devia proteger, acabou matando. Com certeza eles (os policiais) devem ter pensado assim, "ah, o guri não é da cidade" — relembra Anderson.
Conforme o pai do jovem, a mãe de Gabriel passou a sofrer de depressão depois do crime, além de problemas cardíacos. Diz ainda que o caso colocou em descrédito a confiança na Brigada Militar.
Eu não confio mais. Eu não confio mais porque, além dos três (réus), outros também tentaram acobertar.
ANDERSON DA SILVA CAVALHEIRO
Pai do jovem morto
"Faz parte do nosso cotidiano, mas ninguém espera", diz primo de policial morto em ação no Vale do Sinos

A noite do dia 22 de outubro de 2024 e a madrugada do dia 23 foi de pânico no bairro Ouro Branco, em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos. Edson Fernando Crippa, 45 anos, efetuou mais de 300 disparos contra parentes e policiais de dentro de casa. A ação teria sido desencadeada após um desentimento com o pai. Morreram no trágico episódio o atirador, o pai Eugênio Crippa, 74 anos, o irmão dele, Everton Crippa, 49, e os policiais militares Everton Kirsch Júnior, 31, e Rodrigo Weber Volz, 31 anos.
Natural do Novo Hamburgo, Volz havia ingressado na corporação em 2016, inspirado pela tradição familiar. O pai, dois tios e um primo também são policiais militares.
— Quando ele ingressou na Brigada Militar, eu mesmo trouxe ele até Porto Alegre. Larguei na porta da academia para ele iniciar o curso. E me entristeceu muito depois retornar com a esposa dele, viúva, que também é policial militar, para buscarmos uma medalha — diz Maico Volz, primo do soldado.
Rodrigo Volz fez parte de uma das primeiras guarnições que chegou no local do tiroteio. O comando da corporação destacou a coragem do soldado na ação. Em meio à tragédia pessoal, a família ainda autorizou o transplante de órgãos, o que beneficiou quatro pessoas.
— Somos uma família de policiais militares. E, por óbvio, foi um episódio de muita dor. Embora saibamos que isso faz parte do nosso cotidiano, ninguém espera passar por uma situação dessa — desabafa o primo de Volz.
Ao ingressar, fazemos um juramento de, se preciso for, sacrificar a própria vida em defesa da sociedade.
MAICO VOLZ
Primo do soldado Rodrigo Volz, morto em ação.
Além de também militar, Maico Volz preside a Associação Beneficiente Antônio Mendes Filho (Abamf), que representa os servidores da Brigada Militar e do Corpo de Bombeiros.
Ranking da violência
Os números da violência policial também constam no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, organizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2024, o Rio Grande do Sul ficou em 17º lugar no ranking de Estados mais violentos, empatado com a Paraíba e abaixo da média nacional, um resultado positivo. Embora a taxa de mortos em ações policiais tenha baixado em relação a 2023, o Estado subiu posições e aparece mais violento no ranking em função de reduções ainda mais significativas nas estatísticas de Roraima, Acre e Amazonas.
Especialista no tema da segurança pública, o sociólogo e professor da escola de Direito da PUCRS Rodrigo Azevedo avalia como positiva a posição do Rio Grande do Sul se comparado ao contexto nacional. Para o pesquisador, a experiência de outros Estados pode servir de alerta.
— O exemplo mais preocupante é o de São Paulo. Nos últimos anos, houve uma deterioração e um aumento de 60% da letalidade policial na cidade de São Paulo. Inclusive, com a descontinuidade do programa de câmeras no fardamento da polícia — afirma o especialista.
Outro ponto que o sociólogo destaca como uma ação que gera reflexos na letalidade policial é o uso político das corporações. Cita como exemplo a condecoração de quatro PMs, em 2016, envolvidos numa troca de tiros e que resultou na morte de quatro suspeitos em frente ao Hospital Cristo Redentor, na zona norte da Capital.
— O governador do Estado na época concedeu uma condecoração uma semana depois. Sem ainda haver esclarecimentos, sem investigação, sem apuração dos fatos. Por trás disso, tem uma ideia de que a violência policial é algo socialmente legitimado e que pode produzir dividendos políticos — diz o professor.



