O depoimento de Ricardo Jardim à Polícia Civil, realizado em 10 de setembro e registrado em vídeos aos quais Zero Hora teve acesso com exclusividade, traz detalhes sobre o relacionamento do suspeito com Brasília Costa, 65 anos (veja acima), que ele define como "perfeito".
O publicitário é apontado como responsável por matar, esquartejar e deixar partes do corpo da namorada em diferentes pontos de Porto Alegre.
- Ricardo Jardim foi preso em 4 de setembro, como suspeito de entregar na rodoviária de Porto Alegre uma mala com um tórax dentro.
- Restos mortais da mesma vítima também foram localizados em sacolas de lixo deixadas em uma rua na Zona Leste.
- As pernas foram encontradas em dois trechos diferentes da Zona Sul.
- O crânio de Brasília Costa ainda não foi localizado pela polícia.
Jardim ainda sustentou que não seria filho biológico de Vilma Jardim, morta a facadas e concretada em um armário em 2015, crime pelo qual o publicitário foi condenado em 2018. Cinco anos depois, ele progrediu para o regime semiaberto e ficou na condição de foragido por não ter colocado tornozeleira eletrônica.
Em outros trechos dos 10 vídeos com cerca de 17 minutos cada, Jardim também contou como teria se dado a morte e justificou a escolha da rodoviária como local para descarte da mala com o tórax da vítima.
A Polícia Civil não quis comentar os vídeos e limitou-se a dizer que o depoimento de Jardim traz informações inverossímeis. Um familiar de Ricardo também disse a ZH que não tem fundamento a alegação dele de que não é filho de Vilma.
Veja trechos do depoimento de Ricardo Jardim
Onde foi morar ao sair da prisão, em janeiro de 2024
"Passei muito trabalho. Fui morar em lugar nenhum, eu tinha uma sacolinha com algumas coisas dentro, eu não tinha um tostão, fui morar até na rodoviária, dormia num banco da rodoviária, comia num bandejão ali em volta, não tenho vergonha. Queria dar início ao processo de aposentadoria, pois já tinha completado 65 anos. Andei por tudo, parecia um morador de rua".
Situação de foragido por não ter ido colocar tornozeleira
"Quando saí, recebi liberdade, até me surpreendi. Me avisaram que tinha que voltar e informar o endereço e um telefone de comunicação. Eu disse que ia ser difícil, pois estava sem recurso. Marcaram uma nova data, consegui dinheiro emprestado para comprar celular e voltei preparado para colocar tornozeleira".
Endereço falso para a Polícia Penal
"Dei endereço que na verdade não existia, era de um conhecido meu, que eu poderia ir para lá, mas descobri depois que nem morava mais lá. Eu fui honesto. Quando estava saindo e fizeram toda a checagem, eu disse que não tinha endereço, não tinha onde ir. Porque naquela época houve também esse problema de mídia (sobre o crime contra a mãe) e a família me odiava, não podia contar com família".
Ficou sem tornozeleira
"Ele (agente penal) disse, olha, agora que tu tem celular, tem endereço, nós não vamos te colocar tornozeleira. Eu fiquei feliz, porque facilitaria muito para mim. Ele disse: 'Nós temos teu telefone, assim que decidirmos o que fazer, nós vamos te ligar'. E o tempo passou, foi passando e nunca se comunicaram comigo. Ou também não vou ser injusto, talvez tenham se comunicado e eu não vi. Eu fui negligente, podia eu ter procurado eles, mas eu estava numa situação tão boa sem tornozeleira".
Do que vivia e como conheceu Brasília Costa
"Quando veio o primeiro pagamento da pensão (recebia cerca de R$ 1,9 mil de aposentadoria), um mês e meio depois (de ser solto), fui morar na pensão na Presidente Roosevelt, quase esquina com a Farrapos. Foi quando vim conhecer a Bia. Um mês antes da enchente, ela veio morar ali. Depois da enchente, ela foi morar num abrigo. Eu e um senhor de quase 80 anos fomos os únicos que ficaram na pensão, ficamos 23 dias ilhados, os socorristas levavam comida e água.
Como se aproximaram
"Quando baixaram as águas, ela foi a primeira que voltou (para a pensão). A gente começou a conversar, ela era muito retraída, fechada e eu tranquilamente na minha. A gente começou a cozinhar junto, ela me ensinou a fazer omelete de banana, eu ensinei ela fazer arroz de pano de prato. A gente começou a se dar bem, se relacionar legal".
Mudança de pensão e relacionamento amigável
"Ali para ela era muito caro, resolveu voltar para a (pensão) da São Pedro. A gente seguiu se comunicando e ela me convidou para ir morar lá. Fui conhecer, estava estragada da enchente. Uns dois meses depois, fui dar uma olhada. Estava em condição melhor. Fiz a minha mudança na mão mesmo. Ali a gente começou a ter relacionamento mais amigável. Eu tinha uma airfryer, não gosto de gordura, eu fazia bolo, convidava ela, ela tinha problema de diabetes, não podia comer".
Agosto de 2024, começo do namoro
"A gente começou a ver que havia uma afinidade. Foi em agosto, exatamente em agosto. Até lembrei esses dias, puxa vida, a gente começou em agosto e agora quando a gente ia fazer um ano tem esse acontecimento horroroso".
Se Bia sabia do crime da mãe
"Tudo ela sabia. Nunca me condenou, nunca cobrou. Ela sabia inclusive do mandado de prisão. Pois eu passei a não sair mais. Era ela que ia no supermercado, ela ia na farmácia. Eu saía mais à noite. Ela me protegia, tinha conhecimento, protegia e confiava. Nenhum momento mascarei a história que aconteceu, da razão de eu ter sido preso, contei os detalhes."
Vilma Jardim não seria mãe de Ricardo
"Contei todo meu histórico de vida. Da minha mãe, que na verdade as pessoas não sabem, mas era minha madrasta porque eu sou filho de um relacionamento extraconjugal do meu pai. A minha mãe já estava grávida da minha irmã, enquanto existia uma grávida de mim. E a que veio a ser minha mãe no registro me aceitou como se fosse filho, mas sempre houve uma diferença enorme no tratamento. Por saber desse relacionamento extraconjugal, ela passou esse ranço, esse rancor, essa mágoa pra mim".
Relação da Brasília com a família
"Era muito pequena, somente com um irmão de Gravataí e uma cunhada. Ela era uma pessoa muito reservada, uma das coisas que nos uniu mais foi a gente ser meio desgarrado, sozinhas no mundo, eu não me relacionando com minha família, não tendo muito contato social, ela também não se relacionava com a dela, isso ajudou que a gente se aproximasse, era companheiro do outro, amigo, parceiro, amor".
Relacionamento com Bia e o que sentia por ela
"Era um relacionamento absolutamente perfeito. Eu tive 300 namoradas. Nunca tive relacionamento tão estável, de tanto companheirismo, fidelidade, convivência tranquila. Acho que sentia amor por ela. Amor de meia idade, companheirismo, não ter discussão, muitas afinidades. Se olhar o whataspp, não passava um dia sem dar bom dia, te amo, boa noite, te amo".
