Dezenas de pessoas se reuniram nesta segunda-feira (27) no prédio I do Foro Central de Porto Alegre, para acompanhar o júri da morte de Andrei Ronaldo Goulart Gonçalves. O crime ocorreu em novembro de 2016, quando a vítima tinha 12 anos, na zona sul da Capital.
Será julgado Jeverson Olmiro Lopes Goulart, 60 anos, tenente aposentado da Brigada Militar e tio do adolescente. Segundo o Ministério Público, o réu estuprou a vítima e cometeu homicídio para esconder o abuso.
— Acredito na justiça divina e na do homem porque toda essa mobilização teria sido em vão se eu não acreditasse. Quero que esse caso sirva de exemplo para outros assassinos, para outras mães se motivarem e também para que os assassinos sejam punidos — disse Cátia Rosimary Lopes Goulart, 54 anos, mãe de Andrei.
Cátia foi decisiva para que o brigadiano, que é irmão dela, fosse denunciado pelo crime. O caso inicialmente foi tratado como um suicídio.
Um ano após o crime, em 2017, a Polícia Civil remeteu inquérito sem responsabilizar ninguém pela morte. No entanto, o Ministério Público seguiu no caso e obteve novas informações a partir de relatos de familiares.
— Eu sabia que não tinha sido suicídio, que tinha sido assassinato. A questão era provar, o que conseguimos. São nove longos anos sem o Andrei, cada dia parece um velório sem ele. Esperamos que ele seja condenado pelo crime, porque tirou a vida de uma criança inocente, que tinha um futuro pela frente — acrescentou a mãe.
Jeverson responde ao crime em liberdade e participará do júri por videoconferência, já que está no Rio de Janeiro, onde mora atualmente. A expectativa da Corte é que o julgamento dure dois dias. As atividades serão presididas pela juíza Anna Alice da Rosa Schuh, da 1ª Vara do Júri da Capital.
Durante o julgamento, são ouvidas cinco testemunhas de acusação. A defesa, que não arrolou testemunhas, será representada pelo advogado Edson Perlin, com quem a reportagem não conseguiu contato nesta segunda-feira.
Pelo Ministério Público, atuarão os promotores Lúcia Helena Callegari e Eugênio Paes Amorim. O assistente de acusação será o advogado Marcos Vinícius Barrios.
O réu responderá por homicídio duplamente qualificado — mediante recurso que dificultou a defesa da vítima e para assegurar a ocultação de outro crime — e estupro de vulnerável.
Como foi o primeiro dia de júri
Até o final da tarde desta segunda-feira (27), quatro pessoas haviam dado seus relatos. O clima no plenário é de comoção.
A primeira testemunha foi a mãe do menino, Cátia Rosimary Lopes Goulart. Ela foi decisiva para o caso, ao lutar por três anos e conseguir uma mudança no andamento do caso, que havia sido concluído pela Polícia Civil como suicídio. O Ministério Público analisou provas e modificou o entendimento, denunciando Goulart em 2020.
— O segmento do processo começa a partir do apelo de uma mãe, que queria ser ouvida. Então, nós acolhemos e fomos atrás de novos elementos. Estamos aqui em um trabalho extremamente importante e convencidos de que estamos do lado da sociedade, do lado da justiça — afirmou a promotora Lúcia Helena Callegari.
A segunda testemunha foi um amigo de infância do réu. Ele relatou um episódio de quando era adolescente, com cerca de 13 anos. Conforme a testemunha, o réu teria abusado sexualmente dele em duas situações. Em ambos os casos, o acusado, já adulto, teria convidado o amigo para dormir na sua casa. No meio da noite, acordou com o suspeito tocando e sobre o seu corpo. A testemunha também disse que o réu era conhecido por ter muitos amigos jovens.
Ele disse que nunca havia contado os episódios para ninguém, mas procurou as autoridades para relatar as experiências depois de saber que o caso estava sendo tratado como suicídio.
— Eu lembrei e decidi contar. Pensei na mãe (do menino). Eu corri esse risco também. Eu escapei — disse a testemunha, em alusão a morte de Andrei.
Ele também ressaltou que se sentiu ameaçado pelo suspeito e chegou a mudar de cidade depois que o acusado descobriu que o amigo de infância testemunharia o que aconteceu há décadas.
A quarta testemunha também citou episódios de abuso por parte de Jeverson. Ela saiu do plenário chorando e foi acolhida por familiares da vítima. A testemunha relatou que quando era adolescente também sofreu abuso sexual por parte do acusado. Ele teria passado a mão na perna dela, por baixo de um cobertor, enquanto estava em casa. O ato teria sido interrompido quando outra pessoa chegou ao recinto.
Ela também deu um panorama sobre a vida do réu, como o fato dele ter tido namoradas muito jovens, até mesmo adolescentes, quando já tinha mais de 20 anos
A quinta testemunha era um vizinho de Andrei e de Cátia. Com experiência e formação na área de segurança, relembrou ouvir dois disparos de arma de fogos nas imediações do condomínio onde ele e a vítima moravam.
Inicialmente, acreditava que poderia ter ocorrido alguma confusão em uma praça que fica em frente ao prédio, mas percebeu que era dentro do condomínio quando viu luzes do giroflex piscando dentro do local.
A testemunha diz que soube da morte de Andrei e sempre questionou como um suicídio foi realizado com dois disparos. Essa indagação o levou à testemunhar em favor da família da vítima.
Os promotores e a defesa do acusado fizeram diversas perguntas sobre armas e disparos, para averiguar seu conhecimento do tema. Ele respondeu a todos os questionamentos
Relembre o crime
Segundo a denúncia do Ministério Público, o caso transcorreu entre os dias 29 e 30 de novembro de 2016 na casa onde a vítima morava com a família, na zona sul de Porto Alegre. Andrei Ronaldo Goulart Gonçalves, 12 anos, foi encontrado morto com um tiro na cabeça.
O óbito ocorreu quando ele estava sozinho com o tio, Jeverson Olmiro Lopes Goulart, brigadiano da reserva.
Para o Ministério Público, ele estuprou o adolescente no dia 29. Depois, para ocultar o crime, teria efetuado o tiro enquanto a vítima dormia, na madrugada seguinte, dia 30. Além disso, após o homicídio, foi feita a manipulação da cena para forjar um suicídio.
A acusação argumenta que o réu se aproveitou da convivência familiar estabelecida, já que ambos compartilhavam o mesmo quarto.
A reportagem tenta contato com a defesa de Jeverson. O espaço está aberto para manifestação.




