
Preso preventivamente como suspeito do crime da mala deixada na rodoviária de Porto Alegre com um tórax dentro, Ricardo Jardim, 66 anos, que já havia sido condenado por matar e concretar a mãe em 2015, disse em interrogatório da polícia ter divivido a mesma cela com outro homem que confessou ter matado, esquartejado e colocado parte do corpo de uma mulher em uma bagagem. A semelhança e as coincidências entre os dois casos chamam a atenção dos investigadores e não se limitam ao tipo de crime, mas ao modus operandi, às datas e até mesmo às autoridades envolvidas nas investigações.
Vandré Centeno do Carmo é réu pelo assassinato e esquartejamento de Cíntia Beatriz Lacerda Glufke, 34 anos, em agosto de 2015 — mesmo ano em que Ricardo matou a mãe e mesmo mês em que, 10 anos depois, teria assassinado e esquartejado a namorada.
Vandré relatou à polícia ter enterrado e cimentado partes do corpo de Cíntia em frente à casa onde vivia. Ricardo concretou a mãe, Vilma, dentro de um armário de um apartamento. Vandré também admitiu que colocou pernas, pés, mãos e braços da amiga em uma mala — Ricardo pôs o tórax da atual namorada em uma bagagem que deixou no guarda-volumes da rodoviária de Porto Alegre. Vandré embarcou em um ônibus, também no terminal da Capital, carregando a mala para o município de São Joaquim, na serra catarinense, onde a abandonou em um terreno baldio.
Preso em 21 de agosto daquele ano, Vandré ficou 1.154 dias — pouco mais de três anos — na cadeia e foi solto em novembro de 2019. Segundo o Judiciário, ele teve a liberdade concedida a partir do "estabelecimento de medidas cautelares diante do reconhecimento do excesso de prazo na formação da culpa".

Conforme o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ/RS), Vandré está em liberdade e aguardando o julgamento, marcado para 29 de setembro. Ele é réu pelos crimes de homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Pelo mesmo caso, também serão julgados Jean e Alan Centeno do Carmo, irmãos de Vandré.
Em depoimento que durou três horas e 40 minutos, no último dia 10, o publicitário que agora responde pelo homicídio de Brasília Costa, 65 anos, e por ter espalhado partes do corpo dela por diferente pontos da Capital — o crânio da vítima ainda não foi localizado —, revelou ter conhecido e convivido com Vandré.
— Perguntei se ele tinha se inspirado em algum filme, alguma obra de ficção, e ele comentou que dividiu cela com Vandré — informou o delegado André Luiz Freitas, responsável pela investigação.

"Eles agem da mesma forma", diz delegada
A delegada Jeiselaure de Souza, que hoje é titular da Delegacia de Roubo de Veículos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DRV/Deic), foi a responsável pelas investigações tanto do homicídio da mãe de Ricardo Jardim quanto o da amiga de Vandré do Carmo à época dos crimes.
Quando soube deste crime da mala, imediatamente procurei saber se o Vandré estava solto. Depois, se os dois tinham divido cela, o que se confirmou. Eles agem da mesma forma. Essa infeliz coincidência e o grau de periculosidade dos dois requer atenção do Estado.
JEISELAURE DE SOUZA
Responsável pelas investigações do homicídio da mãe de Ricardo Jardim e da amiga de Vandré do Carmo
Jeiselaure aponta outras características em comum entre os crimes nos quais envolveram-se os dois homens. Para além do grau de violência das mortes, seguidas de esquartejamento, estão a ocultação dos corpos — em malas ou cimentados —, o fato de usarem perfis falsos em redes sociais, de se passarem pelas vítimas depois de assassinadas, de não demonstrarem comoção e de mudarem a versão dos fatos durante os depoimentos.

Características psicológicas em comum
Segundo o TJ-RS, não consta no processo de Vandré informação de que ele tenha passado por avaliações psicossociais. Ricardo, diferentemente, foi avaliado por uma psicóloga e uma assistente social durante análise de seu direito de progredir do regime fechado para o semiaberto, em 2024. Os dois laudos foram favoráveis a que o publicitário voltasse ao convívio social.
Trecho de um deles destaca que "Ricardo não apresentou, durante o atendimento, sinais/sintomas sugestivos de comprometimento da saúde mental que demandem intervenção no momento. Em relação ao delito pelo qual foi acusado e condenado, verbaliza seu desconforto ao recordar o episódio e lamenta não ter tido outra atitude diante do fato. Denota estar conformado com a punição e entende a gravidade do evento delitivo".
Diante da repercussão da reincidência do publicitário e das semelhanças entre os crimes cometidos por ele com o praticado por Vandré, a psiquiatra forense e professora do Centro de Estudos Luís Guedes do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Vivian Peres Day, traça um paralelo entre os comportamentos de ambos.
Vivian destaca frieza, crueldade, articulação, premeditação cautelosa e características narcisistas associadas, como intenção de causar impacto:
Tentam se mostrar superiores, por exemplo, à polícia. Tentam chamar a atenção e manipular a mídia, a opinião pública. Querem uma certa notoriedade.
VIVIAN PERES DAY
Psiquiatra forense e professora do Centro de Estudos Luís Guedes do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Helvio Carpim Corrêa, médico psiquiatra forense do Conselho Regional de Medicina (Cremers), acrescenta que pessoas que cometem esse tipo de crime costumam não apresentar remorso e têm histórico de transgressões a normas sociais.
Em relação ao fato de haver interação dos dois presos, é preciso uma análise forense profunda, não se pode afirmar. Os elementos existentes nas personalidades deles podem estar já formatados e esperando um determinando momento para serem expressos.
HELVIO CARPIM CORRÊA
Psiquiatra forense do Conselho Regional de Medicina
Contrapontos
Tanto Ricardo Jardim quanto Vandré do Carmo são assistidos pela Defensoria Pública Estadual. Procurado, o órgão informou que "segue atuando na defesa dos dois acusados por seu dever constitucional e irá se manifestar somente nos autos do processo."

