
A Polícia Federal (PF) prendeu o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, 61 anos, conhecido como o "Careca do INSS", durante uma operação contra suspeitos de envolvimento nas fraudes contra o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).
A investigação da PF apontou que ele transferiu R$ 9,3 milhões para pessoas relacionadas a servidores do órgão federal entre 2023 e 2024. De acordo com o g1, estão sendo cumpridos dois mandados de prisão preventiva e 13 de busca e apreensão em São Paulo e no Distrito Federal.
Maurício Camisotti, empresário apontado como sócio oculto de uma entidade e beneficiário das fraudes na Previdência, também foi preso. Entre as ordens de busca estão as cumpridas na casa e no escritório do advogado Nelson Willians, em São Paulo.
Quem é o "Careca do INSS"?
Apesar do apelido, Antunes nunca foi servidor do INSS, mas é apontado como lobista e operador financeiro das entidades envolvidas.
No LinkedIn, ele se apresenta como executivo do setor de saúde, com passagens por laboratórios e planos de saúde, segundo informações do jornal O Globo.
Ainda, aponta ter sido superintendente de marketing e comercial, além de diretor de uma empresa de consultoria ligada à indústria farmacêutica.
Em 2022, chegou a doar R$ 1 para a campanha de Jair Bolsonaro (PL), conforme registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O CPF usado na doação é o mesmo citado nas decisões da Justiça Federal sobre a investigação.
Movimentações acima da renda declarada
A renda declarada de Antunes é de R$ 24,5 mil mensais e o patrimônio estimado fica entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões.
No entanto, as movimentações em contas bancárias apontadas pela PF são significativamente superiores.
"As participações societárias e a capacidade financeira declarada são desproporcionais às quantias movimentadas", diz trecho do relatório policial.
Uma das empresas controladas por ele, por exemplo, recebeu sozinha R$ 11,9 milhões de uma das associações entre agosto de 2023 e abril de 2024.
Os investigadores suspeitam que ele tenha usado nomes de terceiros, incluindo familiares de servidores, para movimentar os valores e dificultar a identificação da origem e do destino final dos recursos desviados.
Entenda o caso
Ao menos 22 empresas estão ligadas a Antunes, segundo a PF. Elas atuavam em áreas diversas — de consultoria e call center a locação de veículos e comércio varejista — e, segundo os investigadores, eram utilizadas para receber valores das associações e redistribuí-los entre servidores suspeitos.
Algumas dessas empresas são Sociedades de Propósito Específico (SPE), todas registradas no mesmo endereço em Brasília, com o mesmo telefone e atividade de compra e venda de imóveis.
Entre os bens ligados ao empresário estão 12 carros de luxo — incluindo modelos da Porsche, BMW, Jaguar e Audi — e imóveis em São Paulo e Brasília, como uma casa no Lago Sul comprada à vista por R$ 3,3 milhões. A PF também identificou movimentações imobiliárias sucessivas, em menos de seis meses, que somaram R$ 353 milhões.
Além disso, o nome de Antunes aparece como representante legal de uma empresa sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, o que levanta suspeitas sobre a criação de uma offshore para blindagem patrimonial.
Atuação como lobista
De acordo com a PF, o empresário recebia valores de entidades como CPBA, AP Brasil, Cebap, Unaspub e Asabasp — muitas delas beneficiadas com os acordos de cooperação técnica junto ao INSS.
Ele possuía procurações que lhe davam poderes para firmar ou manter esses convênios com o órgão federal em nome das associações, que então descontavam mensalidades diretamente das aposentadorias dos beneficiários.
O que diz a defesa?
A defesa de Antunes nega todas as acusações e afirma que ele é inocente.
“A defesa confia plenamente na apuração dos elementos constantes nos autos e na atuação das instituições do Estado Democrático de Direito. Ao longo do processo, a inocência de Antonio será devidamente comprovada", diz um trecho da nota enviada ao O Globo.
Operação Sem Desconto
Em abril de 2025, foi deflagrada pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União (CGU), a operação Sem Desconto revelou um esquema fraudulento no Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), que descontou cerca de R$ 7,99 bilhões em benefícios de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024.
A fraude envolveu funcionários, diretores e ao menos 11 entidades associativas.
O inquérito aponta que ex-diretores do INSS e pessoas próximas a eles receberam mais de R$ 17 milhões em transferências oriundas de suspeitos de intermediar o contato com as associações, apurou o jornal O Globo.
Um dos beneficiados pelo esquema seria Virgílio Oliveira Filho, procurador do INSS, que teria recebido R$ 11.997.602,70. O então diretor, afastado do cargo pela Justiça no dia da operação, recebeu um carro de luxo avaliado em R$ 500 mil, que foi transferido para a esposa dele.
Como funcionava o esquema
Segurados tinham mensalidade descontada por entidades que representam aposentados e pensionistas conveniados com o INSS em troca de benefícios, como auxílios funerários, odontológicos e psicológicos, além de colônias de férias, academia e consultoria jurídica.
Isso ocorria de forma regular, desde que o beneficiário estivesse de acordo e a conveniada agisse conforme a lei. No entanto, alguns aposentados e pensionistas do INSS tinham descontos mensais indevidos.
O valor seria cobrado como se eles fossem membros regulares de associações de aposentados e estivessem cientes dessas retiradas de valores. No entanto, eles não haviam se associado e sequer autorizado esses descontos.
O esquema era amplo e envolvia corretores, associações de aposentados e o vazamento de informações pessoais de segurados. A prática fraudulenta foi detalhada em série de reportagens do Grupo de Investigação da RBS (GDI).
Durante a operação, o presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, foi afastado e posteriormente demitido do cargo. Além dele, outros cinco servidores públicos — a maioria com vínculos diretos com o instituto — também foram afastados de suas funções.
Servidores afastados
Stefanutto, ex-presidente do INSS, é servidor de carreira desde 2000. Ele foi filiado ao PSB até recentemente, estando atualmente no PDT — partido de Carlos Lupi, responsável por sua indicação ao cargo.
Os outros cinco afastados cautelarmente por decisão judicial são:
- Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, procurador-geral do INSS
- Geovani Batista Fassarella Spiecker, coordenador-geral de Suporte ao Atendimento ao Cliente
- Vanderlei Barbosa dos Santos, diretor de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão
- Jucimar Fonseca da Silva, coordenador-geral de Pagamentos e Benefícios
- Philipe Roters Coutinho, policial federal no Aeroporto de Congonhas



