
Esperança e angústia. Estes são os sentimentos que regem a vida de Honório Mezzomo Neto, 43 anos, que diariamente acompanha, no centro de reabilitação do Hospital da Brigada Militar, em Santa Maria, os passos da filha Fiorella, de sete. A cada movimento, uma conquista; a cada conquista, um abraço, um olhar que fala de amor e esperança.
Fiorella passou 95 dias hospitalizada em Porto Alegre, entre fevereiro e maio deste ano. Durante boa parte desse período, Honório enfrentava não apenas a dor da perda da esposa — com quem compartilhou 18 anos de vida — e do primogênito, mas também a incerteza de conseguir levar a filha caçula de volta para casa.
Fiorella é a única sobrevivente do acidente que vitimou sua mãe, Djenifer Mariângela Meder, 41 anos e seu irmão Pietro, 10 anos, há quase seis meses. No dia 11 de fevereiro, a conselheira tutelar seguia com os dois filhos pela RS-287 em direção a São Martinho da Serra, onde vivia a família, quando a viagem foi interrompida de forma trágica, em Vale do Sol. O Sandero onde eles estavam colidiu com um micro-ônibus.
A Polícia Civil de Vale do Sol iniciou investigação sobre o acidente, mas um dos laudos da perícia — o de análise toxicológica — ainda não havia sido concluído até esta quarta-feira (6). Em razão disso, até hoje a família não conseguiu receber o pagamento do seguro do veículo, destruído na colisão.
— Nesses 95 dias em Porto Alegre, ficamos dependendo de carona. Não tinha condição de comprar um outro veículo para fazer as idas e vindas para o hospital. Até hoje, estamos nessa espera — relata o pai.
Em nota, leia a íntegra abaixo, o IGP, informou que a conclusão da perícia deve ocorrer até o final da semana.
Longa internação
Fiorella foi hospitalizada inicialmente em Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo, e depois transferida para o Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, em razão da gravidade das lesões. Permaneceu internada 38 dias na casa de saúde e o restante do período no Hospital da Criança Santo Antônio.
Os primeiros dias foram extremamente difíceis para um pai que tinha perdido toda a base. Nos diziam que ela voltar a falar, a caminhar, a ter as atividades que ela está tendo.
HONÓRIO MEZZOMO NETO
Desde que retornou para a Região Central, Fiorella segue em tratamento no Hospital da Brigada Militar. Honório, que trabalhava no mesmo local, afastou-se do serviço para poder cuidar da filha. Enquanto não recebe o ressarcimento do seguro, o pai conseguiu dinheiro emprestado com familiares para adquirir um veículo.
— A gente precisava de um carro maior para carregar a cadeira de rodas e o andador. Então, vendemos um carro do meu pai, e conseguimos um pouco de dinheiro emprestado, para transportar minha filha para a fisioterapia, psicóloga e outros profissionais que ela precisa — descreve.
Honório aguarda receber o valor para poder, inclusive, quitar a dívida.
Sem nunca perder a fé
Durante o tratamento, Fiorella vem apresentando melhoras significativas. A menina conseguiu dar os primeiros passos, com auxílio da equipe de fisioterapeutas. Ela ainda deve passar por uma nova cirurgia, de reconstrução da calota craniana. O pai comemora todos os avanços da menina.
— Aos poucos, ela foi reagindo e saindo dessa, graças a toda a equipe médica, fisioterapeutas maravilhosos e a Deus. Nunca perdemos a fé. Está todo dia melhorando, mas é um acompanhamento diário. Ela é uma guerreira, sempre forte — emociona-se o pai.
Para a gente, esses quase seis meses são uma eternidade, uma angústia, mas para ela, ter as respostas nesse espaço de tempo, é muito. Para um pai que perdeu praticamente tudo, é Ela é o esteio da nossa família.
Déficit de servidores
Entre os motivos apontados para que laudos como o aguardado pela família Mezzomo demorem mais para serem concluídos, estão a alta demanda desse tipo de análise e a defasagem de servidores do Instituto-Geral de Perícias (IGP) no Estado. Segundo dados do Portal da Transparência, o instituto opera atualmente com menos da metade dos servidores necessários.
O IGP possui cinco categorias previstas em lei: médico-legista, perito criminal, fotógrafo criminalístico, papiloscopista e técnico em perícia. Pela lei, seriam necessários 1.751 servidores, no entanto, há 810, incluindo 17 auxiliares de perícia e quatro peritos químico-forense.
O que diz o IGP
O Instituto-Geral de Perícias (IGP-RS) está trabalhando para ampliar sua capacidade de atendimento por meio de um conjunto de medidas estruturais para a recomposição do quadro funcional.
O governo do Estado já determinou a abertura de concurso público visando o ingresso de 234 servidores para os cargos de Perito Criminal, Perito Médico-Legista e Técnico em Perícias. Além disso, há previsão de concurso para o cargo de Papiloscopista, com 40 vagas. O ingresso dos aprovados ocorrerá conforme o cronograma de homologação e nomeações da administração estadual.
Em outra frente, já foi autorizada a contratação emergencial de 38 profissionais (22 peritos médico-legistas e 16 auxiliares de perícia) com vínculo inicial de 12 meses, prorrogável por igual período. Também foi sancionada a prorrogação de 31 contratos emergenciais vigentes, garantindo a continuidade de atendimentos em 16 municípios.
O IGP também tem adotado medidas internas de reestruturação de fluxos e priorização técnica, a fim de otimizar o tempo de resposta pericial, especialmente em áreas como balística, genética forense e informática. O Instituto mantém o compromisso de assegurar qualidade técnica, rigor metodológico e atendimento às demandas essenciais da segurança pública.
Acerca do caso da família que aguarda laudo toxicológico a partir de um acidente de trânsito em Vale do Sol, o IGP informa que prevê conclusão da perícia ainda para esta semana.



