
Em 2022, um engenheiro procurou a Polícia Civil em Esteio, na Região Metropolitana, relatando ter perdido quase R$ 1,4 milhão em um golpe. Por telefone, criminosos se passaram pela central de segurança do banco no qual ele mantinha conta, alegando que ele havia sido hackeado. A investigação levaria à identificação do grupo por trás do ataque cibernético.
A apuração descobriu que os valores retirados de investimentos realizados pela vítima tinham sido pulverizados em quatro Estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. Antes que a polícia conseguisse chegar aos criminosos, no entanto, um vazamento de informações sigilosas do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) frustrou a operação.
Três anos depois, a polícia retorna ao caso após identificar o hacker que invadiu o computador da vítima. Um dos núcleos envolvidos neste golpe, em São Paulo, é alvo de uma ofensiva da polícia gaúcha na manhã desta terça-feira (26). Em Gravataí, na Região Metropolitana, os policiais também cumprem mandados de busca em endereços de suspeitos.
— Hoje essa operação tem como foco o hacker, essa pessoa que entrou no computador e fez as transferências, e mais cinco comparsas que fazem parte do esquema e eram os primeiros investigados lá em 2022 — explica a delegada Luciane Bertoletti, que atualmente está na 3ª Delegacia de Polícia de Canoas, mas investiga o caso desde a época.
Aquisição de bens
Durante as investigações, a polícia conseguiu descobrir a origem dos acessos. Desta forma, chegou ao nome do homem, morador de São Paulo. Segundo as autoridades, além de ter sido o responsável por invadir o computador da vítima, ele teria recebido valores de outras pessoas envolvidas no golpe.
— Ele recebeu, logo após o golpe, três valores: R$ 175 mil de um, R$ 154 mil de outro e R$ 53 mil de um terceiro — detalha a delegada.
A polícia identificou que cerca de dois meses após a concretização do golpe, o suposto hacker adquiriu à vista um apartamento no valor de R$ 252,9 mil. Os investigadores apontaram também que, em período próximo à fraude, ele movimentou cerca de R$ 3 milhões em sua conta bancária.
— Além do apartamento, ele tem automóveis de luxo, que pela situação financeira dele declarada, não seria possível a aquisição — explica a delegada Luciane.
Durante a operação desta terça-feira, uma das ordens judiciais é justamente para o sequestro do apartamento, que teria sido adquirido com valores da fraude. A polícia busca ainda o bloqueio de contas bancárias e a apreensão de oito veículos do grupo — são seis carros e duas motocicletas. Um dos intuitos é que os bens possam, de alguma forma, serem usados para ressarcir a vítima do golpe.
Outros investigados por envolvimento no mesmo esquema são alvos da operação. Entre eles, está um morador de São Paulo que, segundo a polícia, tem vínculos com a maior facção brasileira, o Primeiro Comando da Capital (PCC).
— Ele se capitalizou após o golpe também. É dono de uma adega, anda em carro de alto padrão. Por isso, estamos buscando bloquear valores —diz a delegada.
Ainda em São Paulo, a polícia tem mais dois alvos, que também teriam movimentado valores do golpe entre eles. No Rio Grande do Sul, os mandados são cumpridos contra dois investigados, suspeitos de terem pulverizado em torno de R$ 500 mil retirados da vítima.
O vazamento
Ainda em 2022, a polícia passou a investigar o golpe contra o engenheiro. Segundo a delegada, na época, ao longo de cinco dias, os golpistas acessaram o computador da vítima, alegando que estavam fazendo operações para impedir invasões. Nesse período, eles acessavam o computador e os valores eram movimentados para as contas de terceiros.
— Eles diziam que estavam fazendo testes, enquanto eles baixavam valores que ele tinha em investimentos. Quando tiraram tudo o que ele tinha, ainda se passando pela segurança do banco, orientaram que fosse até a gerente e entregasse o notebook. Ele vai até a agência e entrega. Aí, quando a gerente acessa a conta dele, toma um susto e ele se dá conta de que caiu num golpe — descreve a delegada.
A polícia passou a investigar o caso, descobriu 28 suspeitos de envolvimento na fraude e ingressou na Justiça com pedidos de prisão dos investigados. Antes mesmo da análise do Judiciário e de que a operação pudesse ser realizada, no entanto, informações da apuração foram vazadas aos suspeitos.
Com esses dados sigilosos, defensores ingressaram com habeas corpus preventivos em favor dos investigados. A situação chamou atenção e fez a polícia acreditar que eles já tinham conhecimento dos pedidos de prisão.
— Suspendi a operação e comecei a investigar o vazamento — relembra a delegada.
Estagiária
Depois de detectado o vazamento, foi feito rastreamento, com ajuda do Tribunal de Justiça, para identificar quem havia realizado as consultas a documentos daquele caso. A investigação apurou que foram usados o login e a senha de um servidor do TJ, mas que o acesso ocorreu a partir de um computador num escritório de advocacia de Porto Alegre.
Uma ex-estagiária do TJRS, que trabalhava para o escritório, foi indiciada por associação criminosa e violação de sigilo funcional. A polícia descobriu que ela usava a senha do servidor do Tribunal para realizar as consultas.


