
O debate sobre casos de abuso infantil nas redes sociais ganhou destaque nos últimos dias após a repercussão de um vídeo do influenciador Felca falando sobre "adultização" das crianças.
O perito do Instituto Geral de Perícias do Rio Grande do Sul (IGP-RS) e coordenador do Núcleo de Combate à Pedofilia e ao Abuso Infantojuvenil (NUCOPE), Marcelo Nadler, participou do programa Timeline da Rádio Gaúcha, nesta terça-feira (12), para falar sobre o combate da pornografia infantil.
Segundo Nadler, o que vídeo do Felca mostra é apenas a "superfície" do problema.
— O que apareceu no vídeo do Felca é a superfície. O que o perito criminal vê são coisas muito mais nojentas. (...) É adultos estuprando adolescentes, crianças e até bebês, infelizmente — diz.
Conforme o perito, as atuações e aproximações entre os criminosos começam em diálogos "comuns" — como emojis específicos — em posts nas redes sociais ou com o encaminhamento de vídeos que podem ser considerados "inocentes", por exemplo. Depois, geralmente em chats privados, as conversas escalonam até chegar na troca de conteúdos pornográficos.
— A rede social é um problema mais recente mas essa questão da pedofilia e do abuso infantil sempre existiu, né. Só que como não tinha como propagar esse conteúdo da forma que a gente tem hoje, o problema ficava um pouco mais restrito — aponta.
Núcleo especializado
O Rio Grande do Sul criou um núcleo pioneiro para combater esse tipo de crime contra crianças, além de acelerar investigações e apoiar as vítimas: o Núcleo de Combate à Pedofilia e Abuso Infanto-juvenil.
Marcelo explica que a perícia, junto com a Polícia Civil, trabalha através de denúncias.
— Então, lá vai a equipe da Informática Forense do IGP, da qual eu faço parte, junto com a Polícia Civil, e a gente vai em busca de materialidade no local de crime. A gente analisa computadores, celulares, pendrives, tudo que existe de armazenamento de dados, e que tem acesso à nuvem — explica.
Segundo o perito, o núcleo adquiriu um equipamento de R$ 4 milhões para fazer desbloqueio de telefones celulares e extrair dados, ação que antes "não era possível".
Atuação nas redes sociais
Para o especialista, é preciso uma "maior cooperação das plataformas."
— As Big Techs têm todos os recursos de tecnologia, obviamente, para fazer um trabalho por eles (crianças e adolescentes) também. Mesmo sem a denúncia da polícia, da perícia, eles poderiam regular isso. O vídeo do Felca é muito ilustrativo nesse sentido — pondera.
Marcelo Nadler ressalta a importância de perfil nas de menores nas redes sociais — mesmo que seja de responsabilidade dos pais — sejam privados. Além disso, o perito descreve como alguns dos criminosos costumas agir:
— O cidadão vai atrás do material de alguma criança que esteja bem disponível e ele vai criar um perfil fake como se ele fosse aquela criança. Para quê? Para ele conversar com outras crianças.
Segundo Nadler, o criminoso age com "paciência". A conversa entre o abusador e a provável vítima pode durar dias e até anos.
— O adulto que está por trás do perfil fake, ele vai ser acolhedor. Ele vai acessar uma vulnerabilidade da criança. Ele vai dar atenção que, às vezes, os pais não estão conseguindo dar — exemplifica.
Armazenamento de conteúdo pornográfico
Marcelo reforça que o armazenamento de conteúdo pornográfico infantil alimenta toda a indústria do abuso.
— Em algum lugar do mundo uma criança está sendo estuprada e tem alguém filmando esse abuso para vender esse material, depois nas redes e nas plataformas por aí. Então esse cara que consome esse material ele estimula essa indústria — diz.
Violência dentro de casa
Segundo Marcelo Nadler, é estimado que cerca de 80% dos abusos físicos contra crianças acontecem por "pessoas conhecidas":
— Então é o pai, é o padrasto, é o tio, é o vizinho, é o avô, é alguém que tem esse contato fácil com a criança e se beneficia dessa relação de confiança — afirma.
Além disso, muitas das crianças, conforme o perito, tentam pedir ajuda dentro de casa, porém, não são atendidas ou acolhidas. Nesse contexto, o ciclo de abuso pode se perpetuar por anos:
— Não raras vezes a gente vê que a criança tenta, dentro da família, desse núcleo familiar, conversar com alguém da família e pedir ajuda. Mas muitas vezes a ajuda não é dada. Por uma vergonha ou para se proteger a família. Só que a gente tem que proteger a criança. Então a criança acaba sendo punida duas vezes. Uma pela abusadora e duas vezes pela outra pessoa da família que não quis acolher e salvar essa criança. Então esse abuso acaba sendo perpetuado.
Muitos abusadores fazem um esforço ativo para estar em contato com as crianças, explica Marcelo. Inclusive, em um ambiente de trabalho.
— O abusador, ele tenta estar em contato com crianças. E aí, pode ser crianças da sua família. Do seu meio. Ou, através do seu trabalho — relata.
