
De janeiro a junho deste ano, o Banco Central recebeu 2.045.320 pedidos de devoluções de valores transferidos por Pix. Essas solicitações são realizadas por meio do Mecanismo Especial de Devolução (MED), ferramenta que pode ser usada em casos de fraudes envolvendo esse tipo de transferência.
O número de pedidos realizados por meio do MED vem crescendo ao longo dos últimos anos, segundo dados do Banco Central. Em 2022, primeiro ano de uso da ferramenta no país, foram 1.575.435 solicitações. Ou seja, em 2025, somente neste primeiro semestre, o volume já é quase 30% maior do que na estreia.
Quando as pessoas caem em golpes, imediatamente indicamos que façam contato com o banco para solicitar o MED. O banco consegue rastrear o pagamento através do Pix na primeira conta em que foi feita a transferência. O MED serve para buscar a restituição do valor perdido pela vítima.
EIBERT MOREIRA NETO
Diretor do Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos
De todas as solicitações enviadas nos primeiros seis meses de 2025, 38% foram aceitas de forma total ou parcial. Isso significa que, nestes casos, os pedidos de devolução foram reconhecidos como fraude. Por outro lado, isso não garante que o valor tenha sido devolvido à vítima.
A reclamação permite bloquear os recursos na conta do recebedor para análise, e, se for considerada procedente, os valores são devolvidos. Mas a devolução depende da disponibilidade de saldo naquela conta. O Banco Central não informou em quantos casos houve devolução dos valores.
Oficialmente, é possível solicitar a contestação até 80 dias a partir da data em que o Pix foi realizado. Mas, segundo a Polícia Civil, as chances de a vítima conseguir ter o dinheiro de volta aumentam quando essa comunicação é realizada logo após o golpe.
— A regra é que esses valores, quando são pagos através de Pix, são rapidamente pulverizados. Se você viu que caiu no golpe no dia seguinte, é muito possível que não vá funcionar mais. Essa comunicação deve ser feita imediatamente, para que o banco consiga fazer aquele bloqueio. A vítima deve procurar imediatamente a sua instituição financeira, para que ela faça contato com o bando do recebedor, e promova esse bloqueio através da rede bancária — explica o delegado Eibert Moreira Neto, diretor do Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos.
Aumento de transações
Para o Banco Central, o aumento no número de pedidos do MED é reflexo do crescimento no uso do Pix pela população brasileira. “O número de fraudes envolvendo o Pix vem se mantendo relativamente estável como proporção do total de transações”, informa a instituição.
No primeiro semestre deste ano, por exemplo, a média foi de seis fraudes comunicadas a cada 100 mil transações. Isso representa pouca variação nos casos registrados em relação aos anos anteriores. Em 2022, foram sete fraudes que chegaram ao conhecimento do Banco Central a cada 100 mil transações. Em 2023, foram seis e 2024 teve o maior número, com oito.
— O Pix facilita a nossa vida na transferência de valores, mas também facilita a vida do golpista. O golpista consegue receber muito rapidamente a quantia e, ao mesmo tempo, pulverizar de uma forma muito rápida — diz o delegado.
Rastreio e bloqueio de contas
Os crimes com o uso do Pix são mais difíceis de ressarcir, justamente pelo fato de os criminosos escoarem o dinheiro para outras contas, em muitos casos, abertas em nome de laranjas (pessoas que cedem dados pessoais e contas para serem usados por criminosos).
Uma atualização do MED, chamado de 2.0, está prevista pelo Banco Central para ser implementada em fevereiro de 2026. A expectativa é de que essa alteração permita ampliar os bloqueios de contas, com intuito de coibir essa pulverização dos valores.
— Hoje o MED tem uma eficiência, mas essa eficiência é limitada. Essa atualização traria a possibilidade de avançar o bloqueio para cinco contas futuras, além daquela em que o dinheiro foi transferido, para evitar essa pulverização. Hoje, só é feito o bloqueio na conta seguinte, na conta para onde foi destinado o dinheiro — explica Eibert.
Como solicitar a devolução
O MED é um mecanismo usado para facilitar a devolução de valores, em casos de fraudes. Saiba como usar a ferramenta:
- Assim que perceber a fraude, entre em contato com o seu banco. Faça isso o mais rápido possível.
- O banco contata a instituição financeira do recebedor para realizar o bloqueio do valor.
- Se for concluído que não foi fraude, o recebedor terá os recursos desbloqueados.
- Se for concluído que foi golpe, o valor é estornado e devolvido para a sua conta.
- O pedido inicial deve ser feito na instituição do pagador em até 80 dias após a transação.
- Se a fraude for confirmada, o banco do recebedor tem até 96 horas (quatro dias) para devolver o valor — se houver saldo na conta.
O que o Banco Central diz sobre o Pix
Sobre as fraudes envolvendo o Pix, o Banco Central enviou nota. Confira:
“O BC reitera o Pix como infraestrutura digital pública essencial para o funcionamento da economia e o seu compromisso constante para fortalecer sua segurança. A segurança é um dos pilares do Pix. Ela está pautada em seis dimensões:
- Autenticação do usuário;
- Rastreabilidade das transações;
- Tráfego seguro de informações;
- Agenda permanente de discussão com os principais especialistas em segurança do mercado financeiro, por meio do Grupo Estratégico de Segurança, sob coordenação do BC e que funciona no âmbito do Fórum Pix;
- Discussões regulares com agentes públicos de segurança; e
- Regras de funcionamento do Pix.
O regulamento do Pix prevê diversas medidas que mitigam o risco de fraudes, como, por exemplo, a previsão de que os participantes do Pix (instituições financeiras e de pagamento que ofertam o Pix a seus clientes) devem se responsabilizar por fraudes no âmbito do Pix decorrentes de falhas nos seus mecanismos de gerenciamento de riscos”.
