
Uma idosa de Porto Alegre teve um prejuízo de R$ 26 mil após cair em um golpe que usou o nome do empresário Elon Musk, dono de empresas como X, Tesla e SpaceX. Golpes similares têm disparado no Estado, o que fez a Polícia Civil emitir um alerta para o chamado “golpe do amor”.
No início do ano, a porto-alegrense de 70 anos começou a interagir com um perfil falso de Musk na rede social Thread. Fotos da suposta rotina do bilionário eram utilizadas com mensagens para estimular respostas dos usuários.
Além disso, o perfil oferecia um link para continuar a conversa no Telegram, mas a vítima preferiu o contato pelo WhatsApp. Nas conversas privadas, o modus operandi era parecido para enganar a aposentada.
— Ele mandava fotos da família, do filho. Estava sempre em uma reunião, com coisas da China, com encontros com o Trump, com as empresas dele. Falou que ia me dar milhões e até um Tesla (carro), mas nunca aceitei. Era convincente — disse a vítima, que pediu para não ser identificada na reportagem.
A aposentada e o golpista conversavam em inglês e português. O falsário também enviava vídeos de falas públicas do empresário para reforçar a “veracidade” da história. Os números de celular usados no golpe eram dos Estados Unidos, onde Musk mora.
Pedido de depósitos
O prejuízo ocorreu quando o golpista disse que mandaria um presente para a idosa, que forneceu o endereço. No entanto, para receber a caixa, ela teria de pagar taxas alfandegárias, pois o pacote seria enviado do Exterior.
Em outra parte do golpe, o criminoso se passou por um funcionário de uma transportadora para exigir, por ligação telefônica, o pagamento de R$ 7,5 mil. Os pedidos continuaram para a liberação, e novos repasses ocorreram, que totalizaram R$ 26 mil, que fazia parte das economias da aposentada.
— Nunca chegou a caixa. Eu queria um amigo, não estava interessada nas coisas dele. Ele (o golpista) insistiu que eu o chamasse de amor, de querido, coisas assim, mas eu não fazia isso. Não cheguei a ser namorada dele. Falei que queria conhecê-lo quando viesse ao Brasil, mas nunca apareceu — disse.
Após efetuar os pagamentos e não receber a caixa com o presente, a aposentada se deu conta do golpe e registrou um boletim de ocorrência, no fim de julho, na Polícia Civil da Capital, que investiga o caso.
— Parece uma hipnose o que fazem. Às vezes me pergunto: "Meu Deus, como é que eu fui fazer isso? Ir no banco, pegar dinheiro e passar para os caras?". Não tenho uma explicação.
Ela disse acreditar ter sido enganada por estar "emocionalmente fragilizada".
— Fiquei apenas com o meu cachorro depois que pessoas próximas morreram, então me sentia sozinha. Com a idade, fiquei menos ativa. Sinto necessidade de falar com as pessoas, então é pela internet que converso e brinco com alguns joguinhos — pontuou.
Disparada de casos
A história da moradora de Porto Alegre não é uma exceção. Em 2024, uma mulher de 60 anos procurou a Polícia Civil em Lajeado, no Vale do Taquari, após perder R$ 6 mil para um golpista que pedia dinheiro para "dar presentes" a Musk.
A constatação é confirmada nas delegacias gaúchas, que têm observado um aumento em casos do chamado “golpe do amor”, que tem como principal alvo os idosos. A situação fez a Polícia Civil emitir um alerta na semana passada.
— Os idosos são mais vulneráveis, especialmente quando sofrem de solidão e buscam afeto nas redes sociais. O golpista aproveita-se da fragilidade e do sentimento de quem deseja ter um novo amor — afirma Ana Caruso, delgada da Delegacia de Proteção ao Idoso.
O modo de operar do crime muda, mas a ideia é a mesma. Entre as narrativas mais comuns estão a do golpista que se passa por um soldado americano ou uma pessoa pública. Em algum momento da conversa, o criminoso pede dinheiro ou impõe alguma obrigação financeira à vítima – como no caso de pagamento de taxas.
— A vítima deposita dinheiro e o golpista sempre tem alguma desculpa para protelar o encontro. O criminoso nunca aparece fisicamente, todo o contato é mantido apenas pela internet. A maneira de se proteger é desconfiar de relacionamentos que se baseiam em ajuda financeira. Não que o amor não possa existir na terceira idade, mas a cautela é sempre bem-vinda — resume a delegada.
Golpe também ocorre presencialmente
Outra versão do golpe do amor é a de cuidadores que seduzem idosos e se apropriam dos bens das vítimas. Costuma ocorrer com pessoas em momentos de demência, senilidade ou durante tratamentos de saúde. É rotina a exigência de pagamento de custos que não existem e transferências sem consentimento da vítima.
— É comum a vítima acreditar que o(a) cuidador(a) é namorado(a): assim, são facilmente seduzidos e se apaixonam. Há casos que resultam em contrato de união estável, nos quais a família resiste e o idoso luta contra os familiares para ficar com o cuidadora — exemplifica.
Situações assim podem ser levadas para a Justiça. A via judicial, porém, não é uma saída no caso em que a vítima é lúcida e tem consciência do que faz.
— É um estelionato amoroso: o criminoso consegue tirar tudo do idoso, o que leva muitas vezes a dilapidar o patrimônio — finaliza Ana Caruso.



