
Dois homens foram condenados a mais de 20 anos de prisão pela morte do ex-vereador de Porto Alegre e militar reformado José Wilson da Silva, 89 anos, assassinado em dezembro de 2021. Histórico militante de esquerda, ele foi morto com dois tiros por um trio que invadiu a residência dele, no bairro Partenon, zona leste da Capital.
Depois de dois dias de júri, Deivid Mussoi Tubino e Rafael Goulart dos Santos foram considerados culpados por homicídio qualificado.
Tubino ainda foi condenado por furto, com pena total de 21 anos e 15 dias de reclusão, além de 10 dias-multa, a ser cumprida inicialmente no regime fechado. Já Santos deverá cumprir 24 anos, também em regime inicialmente fechado. A defesa de Santos afirma que irá recorrer (veja abaixo).
Eles haviam sido acusados pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) em 2023.
Além deles, José Paulo Garcia Pessoa e duas mulheres, Iara Araujo de Moraes — suposta companheira da vítima — e Raquel Krambeck de Azevedo — parceira de Santos — também foram acusados pelo MP por envolvimento no crime. A Justiça não divulgou o que cada um deles teria feito no assassinato (veja o que dizem as defesas).
O trio ainda deve ser julgado pela Justiça em outro data, em razão da cisão processual, ainda não definida.
Relembre o caso
O militar reformado José Wilson da Silva, 89 anos, foi morto com dois tiros na noite de 10 de dezembro de 2021, na capital gaúcha. Ele completaria 90 anos três dias depois do crime. O assassinato ocorreu na casa onde ele vivia, na Rua Paissandu, no bairro Partenon, na zona leste de Porto Alegre.
Conforme a denúncia do Ministério Público, o ex-vereador morreu em razão de disparos de arma de fogo. A promotora Luciane Feiten Wingert sustenta que os réus teriam agido em conjunto, com o objetivo de matar a vítima, simulando um assalto. Dessa forma, a acusação defende que o crime tenha sido encomendado.
A acusação ainda diz que o grupo criminoso teve acesso a informações privilegiadas acerca da rotina e bens do idoso. Além disso, o MP acredita que a entrada dos executores no imóvel tenha ocorrido com uso de chaves ou facilitação interna, uma vez que a residência não apresentou sinais de arrombamento.
Após o homicídio, um dos réus subtraiu o telefone celular da vítima, que foi posteriormente negociado com terceiros.
Conforme a conclusão da investigação da Polícia Civil, a morte foi encomendada por Iara Araujo de Moraes, então cuidadora da vítima e posteriormente companheira, segundo amigos de José Wilson, que contratou uma quadrilha especializada em roubo de casas para executá-lo.
Companheira disse que morte ocorreu durante assalto
Aposentado, embora ainda politicamente ativo, o Tenente Vermelho, como era chamado José Wilson, residia somente com Iara. Ela havia sido contratada como sua cuidadora e, depois, como empregada doméstica, indicou a promotora. Porém, os dois passaram a manter relacionamento, segundo amigos próximos ao político.
Ouvida logo após o crime, ela descreveu à polícia como a morte teria acontecido. A mulher sustentou que o companheiro havia sido morto durante um assalto.
Iara relatou que estava dormindo no quarto quando ouviu barulho de chave em uma porta próxima, de acesso ao quintal da casa. Depois disso, teria acordado o companheiro para que ele fosse verificar do que se tratava.
Na sequência, o militar reformado teria pego um facão debaixo da cama e ido em direção a essa porta. À polícia, ela disse que Wilson bateu numa mesa com o facão e perguntou: “Quem está aí?”. Logo depois, teriam acontecido os disparos. No pátio da moradia, o aposentado foi atingido por dois disparos de arma de fogo, um no abdômen e outro teria sido na cabeça.
No entanto, a promotora Luciane afirma que o disparo atingiu apenas o abdômen, "que transfixou o corpo da vítima, que morreu em consequência do rompimento da aorta".
Segundo a investigação, os três homens que invadiram a residência e mataram a vítima foram Deivid Mussoi Tubino, José Paulo Garcia Pessoa e Rafael Goulart dos Santos. Já Raquel Krambeck de Azevedo teria intermediado o contato entre Iara e o grupo.
Tenente Vermelho
Wilson, que era militante ativo do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) planejava uma comemoração pela chegada dos 90 anos de idade. Ele era ativo junto à Associação dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do RS.
Capitão reformado do Exército, ganhou ainda jovem o apelido de Tenente Vermelho, por suas tendências de esquerda. Era homem de confiança do ex-governador gaúcho Leonel Brizola e foi com ele para o exílio, no Uruguai.
Se elegeu vereador em Porto Alegre, pelo PTB, em 1963. Em abril de 1964, após o golpe militar, teve os direitos políticos cassados. Só voltou ao Brasil com a anistia aos presos políticos, em 1979.
Presidiu mais tarde a Associação de Defesa dos Direitos e Pró-Anistia dos Atingidos por Atos Institucionais, e era liderança reconhecida nacionalmente, sempre presente nas atividades em defesa da Anistia. O PCdoB emitiu, após a morte, nota na qual lamentou a perda e afirmou que o exemplo deixado por José Wilson da Silva "frutificará nas nossas lutas e vitórias contra toda forma de opressão e exploração".
Contrapontos
A promotora Luciane Feiten Wingert se manifestou e afirmou a Zero Hora que o MP vai recorrer das penas, visando aumentá-las.
O que diz a defesa de Rafael Goulart dos Santos
Os advogados Ariel Leite e Jean Severo, que representam Rafael Goulart dos Santos afirmam que irão recorrer da decisão:
“A defesa de Rafael respeita o resultado do júri e vai interpor o recurso competente ao Tribunal de Justiça.”
O que diz a defesa de Iara Araújo de Moraes
"A defesa de Iara Araújo de Moraes, representada pelos advogados Jader Santos e Olga Popovichê, recebe com serenidade a decisão proferida pelo Conselho de Sentença na presente data, no julgamento dos demais acusados.
Estamos convictos de que, na sessão de julgamento oportunamente designada para a análise do caso de Iara Araújo de Moraes, o Conselho de Sentença, diante de uma avaliação justa e imparcial de todas as provas, terá plena ciência de sua inocência."
O que diz a defesa de Raquel Krambeck de Azevedo
O advogado Eledi Amorim, que representa Raquel Krambeck de Azevedo, enviou uma nota à reportagem afirmando que "não há nos autos nenhuma prova que comprove envolvimento" dela no crime. Confira:
"No julgamento iniciado ontem e concluído hoje, os réus Deivid e Rafael foram condenados a penas de 22 e 24 anos de prisão. O Júri entendeu que ambos foram responsáveis pela morte do Tenente Vermelho, classificando o fato como homicídio.
Durante os interrogatórios, os réus confessaram o crime de roubo com morte e afirmaram de forma categórica que Raquel e Iara não tiveram qualquer participação. Em relação a Raquel, não há nos autos nenhuma prova que comprove envolvimento no ocorrido.
É importante destacar que ainda está pendente a análise da quebra de sigilo telefônico de Raquel, diligência solicitada pela defesa, que demonstrará não ter havido qualquer comunicação entre ela e Iara antes ou após o crime. O processo relativo a Raquel será pautado para julgamento, ocasião em que ficará evidenciado que ela não teve qualquer participação, sendo, portanto, inocente."
O que diz a defesa de José Paulo Garcia Pessoa
Zero Hora busca a defesa de José Paulo Garcia Pessoa. O espaço está aberto para manifestações.
O que diz a defesa de Deivid Mussoi Tubino
Zero Hora busca a defesa de Deivid Mussoi Tubino. O espaço está aberto para manifestações.





