
O próximo passo da investigação sobre o crime brutal descoberto na terça-feira (22) pela Polícia Civil em Esteio, na Região Metropolitana, é buscar confrontar as versões apresentadas pelo pai de santo Jocemar Antunes de Almeida, 46 anos, e a esposa dele, Belisia de Fátima da Silva, 41, que confessaram as mortes. Isso porque cada um apresentou relatos diferentes sobre como teriam acontecido os assassinatos de uma jovem, um bebê e um adolescente.
As vítimas são Kauany Martins Kosmalski, 18 anos, Miguel Martins Kosmalski, filho dela de dois meses, e Ariel Silva da Rosa, 16. Os três desapareceram no último domingo e tiveram os corpos localizados dentro de um bueiro próximo ao Rio dos Sinos. Kauany e Ariel teriam sido mortos a facadas — a causa da morte do bebê ainda é investigada.
— Em menos de 24 horas, elucidamos um crime bárbaro desses. Estamos num trabalho de campo para confrontar as duas versões apresentadas, em buscas de imagens, de mais provas e perícias. Um trabalho incessante desde que o caso chegou à polícia na terça-feira — afirma o delegado regional Cristiano Reschke, que participou de entrevista coletiva sobre o caso na quarta-feira (23).
Duas versões
A primeira versão sobre o crime foi apresentada por Jocemar na terça. Familiares de Kauany buscaram a polícia e apontaram o pai de santo como possível suspeito do sumiço da jovem. Segundo a investigação, ele era pai do bebê, mas tentava esconder a paternidade. Kauany frequentava a casa de religião mantida por ele, no bairro Santo Inácio.
Após ser confrontado com algumas provas, Jocemar apresentou versões contraditórias sobre o que teria acontecido com a jovem. Conforme a polícia, ele acabou confessando ser o autor do crime e indicou aos investigadores onde estavam escondidos os corpos das vítimas. Os cadáveres foram localizados numa espécie de bueiro, numa área de mata, perto do Rio dos Sinos.
— Na versão do Jocemar, que relatou ter matado a jovem e o amigo dela sozinho, o crime aconteceu neste mesmo local onde foram achados os corpos. Ele disse que estavam no local e aconteceu. Ele teria matado os dois — explica o delegado.

Confissão da esposa
Inicialmente, Belisia havia sido ouvida somente como testemunha do caso. No entanto, durante a madrugada de quarta-feira, houve novo desdobramento. O envolvimento do pai de santo nas mortes gerou revolta na comunidade onde vivia o casal, em Esteio. Um princípio de incêndio foi registrado na casa deles. Depois disso, a mulher foi até a Polícia Civil e admitiu ter participado do crime.
Segundo a versão de Belisia, Jocemar estava com Kauany, o bebê, Ariel e mais dois adolescentes de 15 e 17 anos, com o pretexto de beber vinho. Em outro veículo, Belisia teria chegado ao local, já portando uma faca — dentro do carro de Jocemar, haveria outra. Ali, conforme o relato que apresentou à investigação, ela atacou Kauany, que foi morta primeiro. Na sequência, o pai de santo teria matado Ariel, também com golpes de faca.
Depois disso, os corpos das vítimas teriam sido transportados dentro do carro de Jocemar até as proximidades do Rio dos Sinos, onde teriam sido depositados no bueiro. Segundo a delegada de Esteio Marcela Smolenaars, responsável pela investigação, a perícia conseguiu localizar vestígios de sangue no veículo do pai de santo. Isso leva a polícia a acreditar que a versão apresentada por Belisia seja a mais verossímil.
Além do casal, dois adolescentes de 15 e 17 anos foram apreendidos. Eles são suspeitos de terem ajudado a esconder os corpos. Um deles é investigado por suspeita de ter participado do planejamento dos crimes.
Jocemar teve a prisão preventiva decretada na quarta-feira. Em relação a Belisia, que segue custodiada pela polícia, o pedido de preventiva aguarda análise da Justiça.
Premeditação

A polícia acredita que o crime tenha sido premeditado pelo casal. Além do ciúme, motivo apontado por Belisia para matar Kauany, em razão da relação dela com Jocemar, a polícia apurou que o pai de santo temia perder a posição de líder religioso na comunidade, caso o relacionamento extraconjugal com a jovem fosse descoberto. Familiares de Kauany relataram que ela escondia a paternidade do bebê.
— Tanto Jocemar quanto a esposa afirmam que a Kauany vinha ameaçando que ia contar para a comunidade que o Miguel seria filho do Jocemar — conta a delegada Marcela.
Em relação a Ariel, segundo a polícia, ele era amigo de Kauany e do casal. Conforme a delegada, ele sabia do relacionamento. A polícia acredita que ele tenha sido morto para manter a paternidade de Miguel em sigilo.
Morte do bebê
No caso da criança, a polícia ainda precisa elucidar se ele estava vivo quando foi jogado no bueiro onde foram depositados os corpos da mãe e do adolescente. Outra possibilidade é de que o bebê tenha sido morto antes de ser deixado no local. A perícia deve ajudar a esclarecer a causa da morte.
— Nenhum deles teve coragem de falar como o bebê morreu, acredito que possam ter asfixiado ele, mas ainda precisa ser apurado como isso aconteceu. Eles vão responder também por esse homicídio — explica a delegada.
Contraponto
Os advogados Raquel Prates, Gustavo Nagelstein e Eduarda Brandolf, responsáveis pela defesa do casal Jocemar Antunes de Almeida e Belisia de Fátima da Silva, enviaram nota sobre o caso nesta sexta-feira (25).
Confira na íntegra:
“A defesa ainda não teve acesso integral ao inquérito policial, o que é primordial para que possamos nos posicionar a cerca da linha defensiva que será traçada. No entanto, estamos desde o princípio certos de que, independentemente da gravidade e complexidade dos fatos imputados contra os acusados, não faremos juízo de valor e, sobretudo, trabalharemos com técnica jurídica para que a verdade seja apurada e, assim, para que o processo corra conforme prevê a legislação brasileira em acordo às garantias do código de processo penal. Assegurando, desde o princípio, a presunção de inocência até o trânsito em julgado.”



