
Em maio deste ano, a Polícia Federal (PF) do Rio Grande do Sul prendeu no bairro Petrópolis, na zona leste de Porto Alegre, um homem de 62 anos, por armazenar imagens de abuso sexual infantil em dispositivos eletrônicos. Este é um dos 71 casos investigados pelos policiais federais desde o início de 2025 no Estado (até 9 de julho, quando foram extraídos os números).
O total de inquéritos para apurar suspeitas de abuso sexual de crianças e adolescentes por meio de imagens apresenta crescimento ao menos ao longo dos últimos três anos, conforme dados da PF. Em 2022, por exemplo, tinham sido 44 investigações abertas no Estado, enquanto, no ano passado, foram 127, aumento de 188%. Ou seja, as investigações quase triplicaram neste período. No comparativo de 2024 com o ano de 2023, o acréscimo é de 74%. A PF não informou dados com recortes semestrais.
Delegado da Polícia Federal, Davi Jacobs é responsável pela Delegacia de Combate a Crimes Cibernéticos no RS. O policial explica que alguns fatores impactam nesses números, como a especialização das investigações para combater esse tipo de crime, que permite identificar mais criminosos, que se escondem por trás das telas.
— Hoje a gente tem uma delegacia especializada em crimes cibernéticos onde o maior número de investigações são casos envolvendo o armazenamento e compartilhamento de imagens de abuso sexual infantil. A delegacia envolve também fraudes bancárias e outros crimes, mas 70% das investigações são de casos de abuso sexual infantil. Isso a nível de Rio Grande do Sul, mas, no resto do Brasil também isso acontece — dimensiona o delegado.
Essas investigações demonstram que o perfil dos criminosos varia, tanto de idade, como de classe social. Um dos pontos que gera mais preocupação é que em muitos casos a apuração de uma suspeita de armazenamento desse tipo de conteúdo revela também a produção das imagens pelo investigado.
Às vezes a pessoa tem uma imagem armazenada no celular, no computador, de um abuso. Por trás disso, muitas vezes, acaba se revelando que está abusando de uma criança e acaba registrando esse abuso. São casos bem graves. É o estupro de um vulnerável e, ainda por cima, o registro desse estupro e o compartilhamento dessas imagens pela internet.
DAVI JACOBS
Responsável pela Delegacia de Combate a Crimes Cibernéticos no RS
Os materiais, segundo o delegado, em muitos casos são repassados por meio de sites para compartilhamento de arquivos. Esses criminosos se aproveitam das páginas e de aplicativos de jogos eletrônicos para fazer o envio das imagens. Em alguns casos, chegam a cobrar valores por pacotes com esse conteúdo.
A Polícia Federal mantém contato com a Polícia Internacional (Interpol) durante as investigações desse tipo de crime. As imagens muitas vezes são produzidas em países diferentes e compartilhadas internacionalmente. Um dos focos dessas investigações é justamente a identificação e resgate das vítimas dos abusos.
— Essas imagens rodam no mundo inteiro. E a Interpol tem um grupo, uma força-tarefa, que investiga esse crime. O principal foco é a identificação de vítimas, para a gente conseguir descobrir de que país, em que cidade se originou aquela imagem, para resgatar a vítima. A gente tem tido sucesso em vários casos de resgate de vítimas — diz o delegado.
Alerta aos pais
Outro aspecto apontado para o aumento dos casos desse tipo é o crescente uso da internet por crianças e adolescentes, que podem ser tornar vítimas de pedófilos. Há casos em que os criminosos enganam e ameaçam crianças para que elas repassem imagens com conteúdo sexual. Nesse cenário, o delegado alerta para que pais controlem os acessos realizados pelos filhos no universo online.
— Antigamente, os pais tinham receio das crianças na rua, dos perigos da rua. Hoje em dia, o perigo está dentro da nossa casa. A gente tem que estar monitorando o que os filhos estão fazendo no telefone. Não dá pra deixar as crianças livres, sem acompanhamento. A gente tem que estar acompanhando com quem o filho está conversando, o que ele está fazendo — ressalta Jacobs.
Dados de outras polícias
Os números compilados pela Secretaria da Segurança Pública do RS demonstram que há aumento nos casos investigados também pela Polícia Civil. Ao menos desde 2022, o Estado apresenta aumento nas ocorrências desse tipo. Nos primeiros seis meses de 2025, foram 49 registros pelo crime de pornografia infantil, ou seja, por armazenamento, produção ou compartilhamento de imagens de abuso sexual infantojuvenil. No mesmo período de 2024, tinham sido 45 e, em 2022, por exemplo, foram 15.
Como proteger crianças nas redes
- Estabelecer regras de uso de internet e aplicativos
- Adotar cuidados no compartilhamento de imagens de crianças pela internet, para que não acabem na mão de criminosos
- Orientar a não compartilhar informações pessoais pela internet
- Explicar que deve rejeitar o contato com estranhos
- Nos casos em que mantém câmeras de monitoramento em casa, conectadas à internet, preservar espaços íntimos da criança
- Criar espaço de diálogo aberto e confiança
- Monitorar o uso de dispositivos eletrônicos
- Utilizar recursos de controle parental (ferramentas que permitem aos pais gerenciar e restringir o acesso das crianças a conteúdos digitais)
Sinais que devem despertar atenção
- Mudança repentina de comportamento
- Isolamento social
- Perda de interesse em atividades
- Uso excessivo e secreto das redes sociais
- Redução do desempenho escolar
- Troca repentina de vocabulário (uso de termos ou gírias que não condizem com a idade)
- Agressividade
- Alteração de rotina (permanecer acordado à noite e dormir de dia, por exemplo)
Fonte: Polícia Civil-RS e Polícia Federal
Como denunciar
- Pelo site Comunica PF
- 0800 642 6400 – Divisão Especial da Criança e do Adolescente da Polícia Civil
- 181 – Disque Denúncia
- 197 – Polícia Civil
- 190 – Brigada Militar
- Disque 100 – Disque Direitos Humanos
- Central Nacional de Denúncias da Safernet Brasil neste link
Em Porto Alegre
- Ministério Público – (51) 99599-8869 (WhatsApp)
- Juizado da Infância e Juventude – (51) 3210-7373


