
No início de maio, a psicóloga Vilma Arnold, 39 anos, estava no intervalo dos atendimentos em seu consultório em Ivoti, no Vale do Sinos, quando recebeu um telefonema. Uma mulher alegava ter descoberto que havia uma falsa psicóloga usando o registro profissional de Vilma e atendendo crianças e adolescentes com neurodivergências na Grande Porto Alegre.
A primeira reação de Vilma foi pensar que se tratava de uma tentativa de golpe por telefone. Quando recebeu as comprovações por WhatsApp, começou a acreditar que a história era verdadeira.
— Ela disse: "Tem alguém usando teu registro". Era algo surrealista. Aí ela foi falando mais, mais, e veio aquele momento que eu parei e pensei: "Isso pode ser possível" — recorda.
Ao menos 80 vítimas
Segundo a investigação, a suspeita realizava atendimentos havia pelo menos três anos. As análises dos documentos apreendidos nos endereços da investigada, durante buscas realizadas na última terça-feira (15), levaram a polícia a identificar ao menos 80 vítimas até o momento. A Polícia Civil pretende fazer contato com os familiares dessas crianças e adolescentes para colher novos depoimentos.
Tem coisas que são irreversíveis. Três anos para uma criança é muito tempo. Daqui a 10 anos, a gente vai poder avaliar essas crianças e ver que foi feito um estrago muito grande.
VILMA ARNOLD
Psicóloga
A profissional orienta que a população busque profissionais registrados para atendimento. Os Conselhos Regionais de Psicologia (CRP) mantêm uma plataforma na internet, o Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, em que é possível consultar o nome, o sobrenome e o número de inscrição de todos os psicólogos do Brasil.
— Espero que outros pais denunciem. Acho que é importante também procurar outro profissional. E aí, desta vez, peço que procurem no CRP se a pessoa está devidamente registrada e ativa no exercício da sua profissão — orienta Vilma.

Noites sem dormir e medo de andar na rua
A mulher, que era mãe de um paciente atendido pelo falsa psicóloga, enviou prints para comprovar o que estava falando. Vilma recebeu imagens de carimbo e receituários com o seu número de registro e o nome da suspeita.
Depois, teve acesso a fotografias e vídeos de um perfil no Instagram, em que a investigada se apresentava como especialista no atendimento de crianças e adolescentes com neurodivergências, incluindo transtorno do espectro autista (TEA) e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).
— Ela me mandou um dossiê completo. Foi um desespero. Eu me senti superinvadida. Como se tivessem me roubado. Acho que a sensação é essa: fui roubada. Me senti muito sozinha e desamparada. Fico pensando, se eu estou assim, imagina as famílias. Elas devem estar muito pior do que eu — relata.
Vilma buscou a Polícia Civil de Ivoti, que deu início à investigação que levaria à descoberta da fraude. Em junho, enquanto visitava familiares em Santa Catarina, a psicóloga foi surpreendida pelo contato de outra mãe de um paciente da mesma mulher. Dessa vez, ela enviou para Vilma um laudo neuropsicológico, realizado após uma bateria de testes.
— Aí o meu chão abriu. É um laudo que tu passa por uma bateria de testes, que no final te dá um diagnóstico. Tu aplica os testes para ver se a criança está dentro disso ou não. E aí, essa criança com um diagnóstico de TEA. Isso tudo com o meu CRP. Era uma criança de seis anos — recorda.
Logo após descobrir a fraude, Vilma passou noites sem dormir e não conseguia se alimentar, pensando na extensão daquele problema. Até hoje, ainda sente em sua rotina os reflexos. Passou a ficar receosa com pessoas desconhecidas e costuma andar mais atenta na rua.
— Fiquei com muito medo, de uma retaliação, alguma coisa. De noite, na hora de ir embora, eu também sempre dou uma olhada. Ando mais espiada na rua, com mais medo, mesmo sendo uma cidade tranquila. Desde que isso aconteceu ali, desde maio, eu ando muito mais atenta na rua. É como se eu tivesse sido assaltada. É essa a sensação que eu tenho: roubaram algo meu —relata.

Suspeita se apresentava nas redes sociais
Nas redes sociais, a falsa profissional se apresentava como psicóloga clínica, com especialização em neuropsicologia, TEA, TDAH, neurodisfunções e neurocomportamental. Esses canais digitais, segundo a polícia, funcionavam para divulgar o "trabalho" e atrair novos clientes.
Num segundo perfil criado no Instagram, a falsa psicóloga passou a se definir como psicóloga e biomédica. Em sua bio, aparece a seguinte frase: "Uma humana em constante formação". Familiares de pacientes relataram que até mesmo nas redes sociais ela chegou a usar o registro de Vilma.
— Sou alguém que super me dedico ao meu trabalho. Sempre brinco que minha vida se resume a trabalho. Estudo muito, estou na minha quarta pós-graduação. E ela estava usando o meu registro que é o que me define de alguma forma — diz a psicóloga de Ivoti.
Investigada ficou em silêncio
Vilma ainda se questiona sobre os motivos que levaram a falsa psicóloga a decidir usar seu registro profissional. Quando foi ouvida pela Polícia Civil de Ivoti sobre o uso do registro, a suspeita não deu explicações, já que preferiu permanecer em silêncio. A psicóloga cogita que ela pode ter escolhido um número aleatório ou que tenha encontrado seu perfil pela internet, já que as duas possuem algumas semelhanças físicas.
— Será que ela me escolheu porque ela é parecida comigo? Ou daqui a pouco será que ela me escolheu por ser uma cidade do Interior? Não sei o quão aleatório ou o quão intencional foi — indaga-se.
Para a psicóloga, a maior preocupação neste momento é com as crianças e adolescentes que foram atendidas pela falsa profissional.
— O estrago que foi feito nessas famílias. Uma das mães com quem tive contato está muito abalada. Sugeri que procure ajuda para ela também. Ela está se sentindo muito culpada por não ter visto que era uma falsa psicóloga. É um absurdo total. A gente é meio Deus para os pacientes. O que a gente fala é lei. Então, a gente tem todo um cuidado, o que vai falar, como vai falar, de que forma vai falar. Imagino a cabeça dessas crianças e dessas mães. Fico muito comovida e queria poder acolher essas mães de alguma forma. Só que eu sei que eu também não posso, porque isso é delas — afirma.
Busque ajuda
A Polícia Civil orienta as pessoas que acreditam ter sido vítimas do esquema que registrem ocorrência na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento da Divisão Especial da Criança e do Adolescente (Deca), na Avenida Augusto de Carvalho, 2.000, no bairro Praia de Belas, em Porto Alegre.
Também é possível registrar na delegacia mais próxima ou na Delegacia Online. Para acessar o serviço, basta entrar nesta página, selecionar o tipo de boletim de ocorrência (BO) e preencher dados.



