
A descoberta de uma série de documentos sobre os atendimentos realizados por uma mulher suspeita de atuar como falsa psicóloga na Região Metropolitana leva a polícia a acreditar que o número de vítimas possa chegar a centenas. Os principais pacientes das consultas eram crianças e adolescentes, muitos com neurodivergências (leia mais abaixo).
Até esta quarta-feira (16), três famílias tinham registrado ocorrência contra a mulher de 33 anos investigada pela suposta fraude. Mas a polícia busca agora identificar outras vítimas da suspeita. Segundo a investigação, ela realizava atendimentos em Porto Alegre e Canoas há, pelo menos, três anos. A polícia também encontrou evidências de que ela atendia pacientes de Guaíba.
— Houve apreensão de um farto material que confirma aquilo que nós já sabíamos, que se está diante, sim, de uma falsa psicóloga — afirma o delegado Fábio Motta Lopes, da Delegacia de Polícia de Ivoti.
A ação foi realizada pela Delegacia de Ivoti e pela 3ª Delegacia de Polícia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPPCA) da Capital.
— A Polícia Civil precisa que outras vítimas que descubram que estavam sendo enganadas por essa pessoa nos procurem — afirma o diretor da Divisão Especial da Criança e do Adolescente (Deca), delegado Raul Vier.
Busque ajuda
A orientação da Polícia Civil é para que as pessoas que acreditam que foram vítimas do suposto esquema registrem ocorrência na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento da Deca, localizada na Avenida Augusto de Carvalho, 2.000, no bairro Praia de Belas, em Porto Alegre.
Também é possível registrar na delegacia mais próxima ou na Delegacia Online. Para acessar o serviço, basta entrar nesta página, selecionar o tipo de boletim de ocorrência (BO) e preencher os dados.
Suspeita atendia crianças com neurodivergências
Foram apreendidos pela polícia carimbo de psicóloga, receituários, declarações, avaliações que ela aplicava em crianças e adolescentes. Entre os pacientes da suposta profissional estão crianças e adolescentes com neurodivergências, incluindo transtorno do espectro autista (TEA) e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).
— Muitas dessas crianças, com transtornos psicológicos de natureza grave. Estamos aqui diante de pessoas que tinham o espectro autista, déficit de atenção, hiperatividade, e essa documentação, esse material, também confirma que dezenas de crianças e, quiçá, até centenas, foram atendidas por esta falsa psicóloga — diz Lopes.
A investigação se iniciou após a mãe de uma criança pedir documentos para a suposta psicóloga para incluir no imposto de renda. Como ela não havia repassado a documentação, a mulher resolveu buscar o registro dela no Conselho Regional de Psicologia.
Foi quando a mãe da paciente descobriu que a mulher usava o número de registro de uma outra profissional, do município de Ivoti, no Vale do Sinos. Ela atendia com o próprio nome, mas o registro dessa psicóloga. Em maio, a profissional de Ivoti, que até então não tinha conhecimento do uso de seu registro, procurou a polícia.
— Esse crime é bastante grave, pois envolve vítimas em situações muitas vezes delicadas, de vulnerabilidade — diz Vier.
Conselho de Psicologia tem cadastro de profissionais
Segundo a presidenta do Conselho Regional de Psicologia do RS, Luciana Fossi, os psicólogos precisam estar cadastrados junto aos conselhos e cada profissional tem um número de registro específico, que precisa sempre estar público quando são divulgados os serviços.
— A divulgação desse caso traz um alerta para as pessoas que buscam serviços de atendimento, especialmente para crianças, com questões de transtornos mentais, com situações neurodivergentes. Que as pessoas possam buscar as informações sobre qual a formação da profissional que está prestando esse tipo de atendimento — orienta.
Os conselhos mantêm uma plataforma na internet, chamada de Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, onde é possível consultar o nome, sobrenome e o número de inscrição de todos os psicólogos do Brasil.

Prejuízo financeiro e à saúde
Em média, segundo a polícia, a falsa psicóloga cobrava cerca de R$ 130 por atendimento realizado.
Durante a ação, intitulada Operação Superego, equipes encontraram manuscritos nos quais ela anotava metas de faturamento. Em uma das anotações, ela estabeleceu o objetivo de ganhar R$ 10 mil em um mês com os atendimentos fraudulentos.
— Além de causar prejuízo financeiro às famílias, que pagavam para ela como se fosse uma profissional qualificada, ainda acarreta prejuízos em razão do atendimento sem a capacitação adequada e que pode causar maiores transtornos ainda para as vítimas. Muitas vezes as famílias investem tempo, investem esperança em um tratamento que não está sendo realizado — afirma o delegado Raul Vier.
Sobre as eventuais sequelas da exposição a um atendimento com uma pessoa sem qualificação, a presidenta do Conselho Regional de Psicologia diz que é difícil mensurar neste momento porque não se sabe o que foi realizado com cada paciente.
— É algo muito grave. A gente não faz nem ideia de que tipo de atendimento era prestado. Acho que essas famílias, assim, elas precisam buscar orientação jurídica, buscar o próprio Conselho Tutelar porque é uma violação do direito da criança. Então, é muito importante que essas famílias busquem, talvez, profissionais habilitados para poder fazer uma avaliação e uma intervenção adequada dentro dos parâmetros éticos e científicos da profissão — comenta Luciana Fossi.
Fotos com toga e silêncio no depoimento
A polícia também descobriu que a suspeita teria, inclusive, realizado um ensaio fotográfico com toga, sem nunca ter concluído o curso. Durante as buscas, a investigação encontrou um documento relativo a uma universidade da Região Metropolitana, que indicaria a possibilidade de ela ter frequentado o primeiro semestre do curso de Psicologia. Zero Hora procurou a instituição que informou que, até o momento, não encontrou nenhuma evidência de que ela tenha sido aluna da universidade.
Quando ouvida pela Polícia Civil de Ivoti sobre o uso do registro da psicóloga do município, a investigada permaneceu em silêncio. Ela ainda deve ser ouvida em Porto Alegre, pela equipe da Deca, ao final da investigação, após análise de toda a documentação localizada.





