
Um ex-subcomandante da Guarda Municipal de Cachoeirinha, na Região Metropolitana, é investigado pela Polícia Civil por suspeita de injúria racial. Até o momento, duas vítimas foram identificadas. Ambas seriam subordinadas a ele à época dos fatos, que teriam ocorrido entre fevereiro e junho deste ano, segundo a investigação.
O nome do suspeito não foi divulgado. Conforme a Secretaria de Segurança Pública do município, ele foi afastado da função que exercia e está respondendo a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD).
Segundo a investigação conduzida pela 1ª Delegacia de Polícia de Cachoeirinha, dois guardas municipais da cidade, um homem e uma mulher, procuraram as autoridades, em junho, para relatar que vinham sendo alvo de discriminação racial por parte deste subcomandante.
Conforme os relatos, esse comandante, de 44 anos, tinha o costume de expor dois servidores negros. Ele também realizaria o que chamava de "brincadeiras", mas que eram consideradas depreciativas pelas vítimas.
— Uma das coisas que nos foi contada é que ele viu que essa vítima, que é negra, vinha em direção a ele. Aí ele botou o óculos escuro e deu um encontrão nela. Depois, falou que não enxergou ela porque estava muito escuro — relata o delegado André Lobo Anicet sobre um dos casos de discriminação ditos para a polícia.
Em outro episódio relatado, conforme o delegado, esse subcomandante teria deixado um servidor dentro da sala onde são guardadas as armas da corporação, fechado a porta e dito que o libertaria para que fizesse hora-extra.
— A vítima contou que o suspeito disse: "Vou te liberar para trabalhar hoje, fazer uma hora-extra. Mas, se fosse por mim, eu aboliria a Lei Áurea (que formalmente extinguiu a escravidão no Brasil) e deixava vocês trancados na jaula" — acrescenta o delegado.
A polícia tem conhecimento que os crimes teriam ocorrido entre fevereiro e junho deste ano, no entanto, não descarta que as práticas tenham acontecido por mais tempo e com outras pessoas.
A investigação
A primeira denúncia sobre o caso foi feita em junho, na Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância (DPCI), em Porto Alegre. A segunda foi feita dias depois, diretamente na delegacia de Cachoerinha. Os relatos deram início à investigação.
As narrativas das vítimas foram corroborados por colegas de corporação que viram os atos acontecendo, afirma a polícia. Segundo o delegado, 11 pessoas já foram ouvidas no escopo da apuração.
O suspeito de praticar o crime de injúria racial também foi chamado para conversar com a polícia, mas negou as acusações.
O que diz a Secretaria de Segurança Pública de Cachoeirinha
Zero Hora entrou em contato com o secretário de Segurança Pública de Cachoeirinha, Mauro Vargas. Ele afirmou que o subcomandante foi afastado da função e está respondendo a um Processo Administrativo Disciplinar.
— Quando soube dos fatos, no mesmo dia conversei com o prefeito e com o vice e determinei a instauração de um processo administrativo para investigar as acusações. Eu também afastei o mesmo da função de chefia que ele ocupava para que não houvesse nenhum tipo de pressão nos guardas que fizeram a denúncia e para preservar a lisura da investigação — afirmou Vargas.
O titular da pasta ressalta que a gestão municipal não compactua com atos discriminatórios.
— Na Secretaria de Segurança, nós temos diversos negros em posições de chefia, inclusive no programa Mulheres Protegidas - que é uma patrulha semelhante à Maria da Penha no município - uma mulher negra comanda a patrulha. Uma das maiores posições da Guarda Municipal — disse.
A reportagem questionou em qual período esse servidor atuou como subcomandante da Guarda Municipal, mas não obteve retorno do secretário.
Denuncie
A Polícia Civil orienta que práticas de injúria racial sejam denunciadas pelas vítimas. A Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância atende ocorrências, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, na Avenida 24 de Outubro, 844, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
Também é possível registrar na delegacia mais próxima ou na Delegacia Online. Para acessar o serviço, basta entrar nesta página, selecionar o tipo de boletim de ocorrência (BO) e preencher dados.




