
Deflagrada nesta quinta-feira (23), a Operação Sem Fronteiras, efetuou a prisão de cinco suspeitos de integrarem uma quadrilha que aplicava o golpe dos nudes. Os mandados foram cumpridos em Novo Hamburgo, São Leopoldo, Taquara, Igrejinha e Nova Santa Rita. Três pessoas seguem foragidas. Cerca de 50 policiais civis dos dois Estados — Rio Grande do Sul e Goiás — participaram da ação. Os nomes dos presos não foram divulgados porque a investigação continua.
Os suspeitos lesaram um fazendeiro da cidade goiana de Rio Verde, entre janeiro e março deste ano, em R$ 480 mil. A investigação, após a quebra de sigilo telefônico e financeiro dos envolvidos no esquema, vai verificar se há mais vítimas no país.
Como funciona o esquema
Além de se passarem por adolescentes para troca de fotos íntimas, e na sequência por supostos pais e policiais, os criminosos também divulgaram um falso funeral da suposta jovem, que teria cometido suicídio em razão da descoberta da relação com um homem adulto. Além disso, mostraram uma reportagem em jornal sobre mortes de uma família que teria relação com o caso. Integrantes da quadrilha se passaram ainda por advogados, criando até acordos judiciais que nunca existiram.
Segundo um dos responsáveis pela investigação, delegado André Anicet, a vítima foi atraída por um perfil falso nas redes sociais. Com em todos os outros golpes, fotos sensuais de mulheres. No entanto, após os primeiros contatos, elas dizem ser adolescentes e foi exatamente o que aconteceu com o morador de Rio Verde.
A vítima, que não está tendo o nome revelado, teve a troca de fotos íntimas interrompida por um suposto pai da jovem. Depois disso, passou a receber ligações e mensagens de vários integrantes do grupo que se passaram por profissionais de diversas áreas. De acordo com Anicet, primeiro foi um falso delegado de polícia, que mostrou inclusive carteira com foto e registro. Depois foi um advogado, sempre com a apresentação da documentação devida, que para este caso foi a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Depressão e morte fakes
Com a ideia de enrolar o máximo de tempo possível a vítima e retirar dela a maior quantia possível de dinheiro, os suspeitos inventaram que a vítima teve depressão e pediram dinheiro para pagamento do tratamento com psiquiatra. Eles criaram falsos comprovantes. O delegado ressalta que, ao perceberem que o fazendeiro poderia pagar ainda mais para que a suposta relação online com uma moça não fosse revelada, inventaram que ela havia cometido suicídio.
Não bastasse o fato de já ter desembolsado quantias para o falso delegado e para os tratamentos que nunca ocorreram, a vítima recebeu documentos sobre velório e sepultamento, tendo assim que pagar pelos serviços. Tudo com documentos produzidos pelos golpistas. Mas o que a polícia não tinha visto ainda, foi o fato de que, dias depois da suposta morte da adolescente, a quadrilha voltou a procurar o fazendeiro ao mostrar uma reportagem de jornal indicando uma tragédia familiar: eles alegaram que uma notícia verídica sobre outro fato se tratava do caso em questão. Com isso, o homem teve de pagar mais dinheiro para que o caso não fosse revelado e de novo por um outro funeral de mentira.
Anicet diz ainda que o grupo gaúcho ainda extorquiu o fazendeiro com falsos acordos judiciais, inclusive com documentos produzidos em papel timbrado. Desta vez, o suposto advogado voltou a agir novamente.
— No caso de resistência da vítima, os criminosos sempre reforçavam que inquéritos policiais, denúncias e processos judiciais sobre pedofilia seriam realizados. Como de costume, se passavam por corruptos e pediam dinheiro para não levar o caso adiante — diz Do delegado.
Por fim, os integrantes da quadrilha se passaram até por conselheiros tutelares. Por isso a polícia destaca que o golpe atingiu a casa dos R$ 480 mil.
Troca de mensagens
A polícia divulgou para GZH trechos da conversa entre os golpistas e o fazendeiro de Goiás por meio do WahtsApp. A troca de mensagens é de um estágio mais avançado da extorsão, quando os suspeitos se passam por advogado e inventam um suicídio da adolescente após ficar envergonhada com a suposta descoberta da troca de fotos íntimas com um homem adulto. Mas tudo é falso e para que a vítima pagasse mais dinheiro com o objetivo de que o caso não fosse revelado.
Golpista — Bom dia senhor R. Quero informar que a M. fez lavagem e está estável.
Vítima — Ok. Menos mal.
Posteriormente...
Golpista — Bom dia. Posso ligar para o senhor em um instante?
Vítima — Pode sim.
Nesse meio tempo, após a ligação, o golpista manda uma foto fake da suposta adolescente morta...
Golpista — Te mandei para você visualizar o óbito que o delegado me mandou. Valor que deu a funerária, tudo certinho para que você possa ter melhor entendimento.
Vítima — Por favor, me mande o comprovante.
Golpista — Tudo bem, é que a família fica me cobrando e aí preciso dar uma posição. Vou falar com a mãe dela, ela está muito abalada com toda essa situação.
Em outro dia...
Golpista — Bom dia Seu R. Conseguimos ofícios assinados e protocolados. Assim que conseguir, pode fazer depósito nesta conta.
Vítima — Estou só levantando o dinheiro aqui. Estou correndo aqui.
Golpista — Eu vou dar uma saída, tenho que atender outro cliente, mas não vou poder ficar esperando, mas já deixei ele avisado.
Vítima — Obrigado pela compreensão. Ok, comprovante enviado.
Golpista — Perfeito, ela rasgou na minha frente o mandado (de prisão).




