Além do roubo de quase 20 mil celulares, nos últimos dois anos em Porto Alegre e Cachoeirinha, uma organização criminosa também deixou traumas entre os funcionários das empresas e seguranças rendidos durante os ataques. Na mira de armas, os trabalhadores foram obrigados inclusive a ajudar a carregar parte dos smartphones para agilizar a ação dos criminosos.
— Isso é horrível e, desde então, a gente trabalha com medo, sempre imaginando o pior quando ouve um barulho ou vê uma movimentação estranha, atípica. Não é fácil trabalhar depois de ter uma arma apontada para si, pior para quem foi levado como refém na fuga, mas temos de trabalhar, enfim — diz o funcionário de um dos depósitos atacados, que pediu para não ser identificado.
Nessas ações, os bandidos usaram inclusive de táticas empregadas em outros delitos, como ataques a bancos. Em junho, num segundo ataque ao depósito da Fedex, no bairro Sarandi, armados com fuzis, com rostos cobertos por máscaras e luvas cirúrgicas, criminosos derrubaram o portão com um caminhão. Na sequência, renderam dois vigilantes e um funcionário.
Duas carretas e sete carros ingressaram no pátio. Outro caminhão foi usado para fechar a rua e as vítimas ficaram lado a lado, em cordão humano, como forma de proteger a quadrilha caso a polícia chegasse. Os ladrões roubaram 3,1 mil celulares, com valor estimado em R$ 1 milhão, além de três revólveres, uma espingarda e coletes balísticos dos vigilantes.
Para o delegado Alexandre Fleck, da Delegacia de Repressão ao Roubo e Furto de Cargas do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), ao longo dos nove ataques o grupo — que mantém o mesmo núcleo, mas alterna integrantes ao longo dos roubos — se especializou nesse tipo de ação. As táticas foram aprimoradas. A forma de ingressar nos prédios atacados é justamente o que mais tem mudado. No início, usavam mais caminhões e depois passaram a usar vans. Em três roubos foram usados veículos roubados para derrubar os portões dos depósitos.
Uma forma de agir empregada em novembro de 2017 voltou a ser utilizada no final do ano passado. Os criminosos mantiveram donos de transportadoras ou familiares em cárcere privado e exigiram que a entrada nos locais onde os celulares estavam fosse liberada. Foram três delitos cometidos desta forma.
Ao longo da investigação, foi descoberto pela Polícia Civil que o funcionário de uma transportadora estava com um dos celulares roubados. Ele foi preso por receptação, durante o cumprimento de mandado de busca e apreensão. Segundo a polícia, ele acabou solto, mas segue sendo investigado por envolvimento no assalto. Outro membro da transportadora também é investigado.
"Eles têm mais informações do que a gente mesmo"
Outro funcionário, com cargo de gerência em uma das empresas assaltadas, afirma que foi necessário alterar as ferramentas de segurança após o roubo. Ele relata que as vítimas que permaneceram na mira dos criminosos ficaram traumatizadas, especialmente porque o grupo demonstrou conhecer suas rotinas:
— Não conseguiam nem trabalhar direito por conta do trauma. Tivemos de mudar toda a rotina, principalmente a segurança. Adotamos quase uma rotina de banco. Eles (ladrões) têm mais informações do que a gente mesmo. Sabem quando vai chegar o produto, que horas e que já está no depósito.
O gerente afirma que os assaltantes procuram não necessariamente os celulares de maior valor, mas sim aqueles que têm maior circulação. O que, para ele, também evidencia que possuem conhecimento sobre o mercado:
— Eles sabem inclusive os modelos que estão no depósito, escolhem o de alto giro. O celular da moda. Nem sempre vão lá no mais caro. Vão no que é mais fácil de repassar.
Rigor na seleção de funcionários
O Sindicato dos Transportadores de Cargas (Setcergs) confirma que a carga de eletroeletrônico é a mais visada atualmente e reconhece a existência da possibilidade de funcionários de transportadoras envolvidos com quadrilhas. Uma prova disso é o fato de frequentemente há ladrões usando informações consistentes e atuando normalmente sob encomenda ou com prévio ajuste para a distribuição dos produtos roubados.
— São sugeridas em todos os encontros ou diretamente para transportadoras o rigor na seleção de funcionários, treinamento adequado e condutas específicas de segurança, inclusive condutas defensivas — afirma João Carlos Trindade, ex-comandante-Geral da Brigada Militar e da Comissão de Segurança do Setcergs.
Ele diz que apoia integralmente as ações de investigação e ressalta que tem recomendado a exigência de rigor na contratação de motoristas e funcionários. O Setcergs defende também mais comunicação entre o poder púbico e empresas para que as polícias possam saber e monitorar, por exemplo, algum caso de transporte ou armazenamento de cargas de alto valor.
— Seria uma medida preventiva e uma forma de alerta para tentar evitar algum possível roubo — argumenta Trindade.
Contraponto
FedEx Express:
"A segurança e proteção de nossos colaboradores e da carga dos nossos clientes são nossas maiores prioridades e cooperamos com as autoridades nas investigações de atividades criminosas visando nossas operações. Contamos com diversos níveis de proteção e continuamos aprimorando nosso programa de segurança. Nós não divulgamos detalhes das nossas medidas de segurança."
Latam:
"A Latam Cargo Brasil informa que está colaborando com as autoridades policiais nas investigações."
Multisom:
A direção da Multisom afirmou que prestou apoio aos funcionários vítimas do ataque ocorrido em novembro do ano passado, que alterou regras de segurança e que está colaborando com as investigações.



