
Carla Rojas Braga (*)
As gerações sempre criam suas próprias expressões, gírias e modismos. Muitas desaparecem tão rapidamente quanto surgiram. Outras, porém, revelam mudanças profundas na forma como as pessoas enxergam a si mesmas e se relacionam com o mundo. O fenômeno atual conhecido entre os jovens como “farmar aura” talvez pertença a essa segunda categoria.
Para quem não sabe, a expressão “farmar aura” seria o ato de “acumular carisma, estilo ou respeito perante os outros”. A expressão junta o verbo “farmar”, que vem dos videogames e significa ganhar pontos ou recursos por repetição, com “aura”, que representa a energia ou presença marcante de alguém.
Surgiu aparentemente nas redes sociais e significaria, em linhas gerais, produzir gestos, poses, olhares ou atitudes que transmitam uma imagem de superioridade, mistério, autoconfiança ou exclusividade. Não basta ser interessante; é preciso parecer interessante. Não basta viver uma experiência; é preciso que ela renda visualizações e prestígio perante os outros.
Vidas encenadas
À primeira vista, tudo pode parecer apenas uma brincadeira típica da juventude. Entretanto, o fenômeno merece atenção porque revela uma transformação importante na construção da identidade. Cada vez mais, o valor pessoal passa a depender da repercussão da própria imagem. A vida deixa de ser vivida para ser permanentemente encenada.
O sociólogo Erving Goffman já descrevia esse mecanismo ao afirmar que, nas relações sociais, as pessoas procuram controlar a impressão que produzem nos demais. Décadas antes da existência das redes sociais, ele percebeu que todos representamos papéis em diferentes contextos. O que mudou foi a intensidade. Hoje, esse palco nunca fecha as cortinas.
O filósofo Byung-Chul Han observa que vivemos numa sociedade em que a exposição constante substitui a intimidade e o desempenho se torna uma obrigação permanente. A identidade deixa de ser descoberta para ser produzida e exibida.
Nesse contexto, “farmar aura” deixa de ser apenas uma expressão boba e de modinha. Ela traduz uma lógica psicológica na qual o reconhecimento externo passa a ocupar um lugar cada vez mais importante e até central. A pergunta silenciosa deixa de ser “Quem sou eu?” e passa a ser “Como estou sendo visto, assistido ou percebido?”.
Consequências nocivas
Esse movimento pode trazer consequências nocivas. A necessidade constante de parecer interessante aumenta a ansiedade, reduz a espontaneidade e dificulta relações autênticas.
Os jovens são, em grande parte, vítimas de um ambiente digital cuidadosamente projetado para capturar atenção e transformar reconhecimento em moeda. Assim, passam a monitorar continuamente sua postura, sua aparência, suas falas e até suas emoções, como se estivesse sempre diante de uma plateia invisível.
É comum observar vídeos em que determinados movimentos corporais, expressões faciais ou maneiras de caminhar são repetidos quase mecanicamente porque “geram aura”. Algumas dessas encenações podem causar desconforto ao observador. Muitas vezes, talvez não seja precipitado interpretá-las como sinais de doença mental ou compará-las aos movimentos observados em usuários de drogas como o fentanil. À primeira vista, alguns gestos podem parecer semelhantes, e por trás disso tudo pode estar havendo também uma espécie de propaganda subliminar do uso de drogas no estímulo à tal modinha. Os pais precisam ficar muito atentos. O que se observa é um comportamento aprendido por imitação, reforçado pela enorme recompensa social oferecida pelas plataformas digitais.
Mais do que qualquer coisa, talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma geração que aprendeu, desde muito cedo, que cada momento pode ser avaliado, curtido, compartilhado ou ridicularizado. Nesse ambiente, a autenticidade perde espaço para a performance. Mas não a performance da competência, da inteligência ou da arte. Na maioria das vezes, a performance mais bizarra é a que rende mais visualizações ou curtidas. E isso é tanto triste quanto perigoso.
Entretanto, não podemos condenar os jovens. Toda geração desenvolve suas próprias formas de pertencimento. O desafio é ajudá-los a perceber que autoestima não pode depender exclusivamente do olhar do outro. Quem vive apenas para produzir impacto corre o risco de perder contato com quem realmente é.
Donald Winnicott distinguia o “verdadeiro self” do “falso self”. Quando o jovem passa mais tempo construindo uma imagem admirável de si do que conhecendo quem realmente é, corre o risco de fortalecer um personagem e enfraquecer a própria identidade. Winnicott já alertava que o falso self surge justamente quando a pessoa aprende a corresponder às expectativas externas em detrimento de sua espontaneidade.
Mas modismos passam. A necessidade humana de ser aceito permanece.
Talvez a maior “aura” que alguém possa construir seja justamente aquela que não precisa ser representada. A verdadeira aura nasce da autenticidade, e não da encenação, e mais do que “farmar” aura, talvez formar personalidade e formar caráter seja uma opção mais saudável.
(*) Psicóloga
