
Carla Rojas Braga (*)
Nos últimos anos, um fenômeno tem chamado a atenção de psicólogos, sociólogos e estudiosos da família em diversos países: o crescente número de filhos adultos que rompem relações com seus pais. Em muitos casos, esse afastamento ocorre após anos de convivência difícil, envolvendo abuso, negligência ou violência. Nessas situações, estabelecer distância pode representar uma medida legítima de proteção.
Mas existe um outro cenário, muito menos discutido e bastante preocupante. São famílias que, apesar de imperfeitas como todas as outras, são surpreendidas por um rompimento súbito, frequentemente acompanhado por acusações de “toxicidade”, “narcisismo” ou de serem responsáveis por praticamente todos os sofrimentos emocionais dos filhos. Pais que sempre estiveram presentes passam, de uma hora para outra, a ser vistos como vilões de uma história com uma narrativa que eles próprios mal compreendem.
É preciso reconhecer que relacionamentos familiares podem, sim, adoecer. Também é verdade que muitos pais erram, alguns gravemente. Porém, igualmente perigosa é a tendência contemporânea de transformar qualquer conflito, frustração ou diferença geracional em evidência de abuso psicológico.
As redes sociais tiveram um papel importante na popularização de conceitos da psicologia. Termos como “gaslighting”, “narcisismo”, “trauma”, “gatilho” e “limites” entraram no vocabulário cotidiano. Essa democratização do conhecimento trouxe benefícios importantes, permitindo que muitas pessoas identificassem situações abusivas antes invisíveis.
O problema começa quando conceitos complexos são reduzidos a vídeos de poucos segundos, listas de sintomas ou testes superficiais. A lógica dos algoritmos privilegia mensagens simples, emocionais e polarizadas. Nesse ambiente, torna-se fácil concluir que qualquer desconforto emocional decorre de pais “tóxicos”, enquanto nuances, contexto e responsabilidade compartilhada desaparecem.
Cuidado com a patologização
Infelizmente, parte dos profissionais da saúde mental também contribui para esse problema. Embora a maioria exerça seu trabalho com ética e competência, há terapeutas que validam unilateralmente a narrativa apresentada pelo paciente, sem incentivar uma compreensão mais ampla das relações familiares. Corre-se o risco de fortalecer interpretações distorcidas, cristalizar ressentimentos e estimular rompimentos que talvez pudessem ser trabalhados de forma mais cuidadosa.
Para a pesquisadora Lucy Brake, o afastamento entre pais e filhos adultos é um fenômeno complexo, que não pode ser explicado por uma única causa nem compreendido apenas pela perspectiva de um dos envolvidos. A função da psicologia não é produzir culpados. É ampliar a compreensão da realidade.
Um bom terapeuta ajuda o paciente a reconhecer sofrimentos reais, mas também favorece o desenvolvimento da autocrítica, da empatia e da capacidade de lidar com relações humanas, que raramente são compostas apenas por vítimas e agressores.
Outro aspecto preocupante é a crescente patologização das imperfeições humanas. Pais podem ser controladores em alguns momentos, inseguros em outros, excessivamente preocupados ou até emocionalmente imaturos, sem que isso os transforme automaticamente em abusadores ou narcisistas. A experiência humana é muito mais rica e contraditória do que permitem os rótulos que circulam na internet.
Vivemos também uma cultura que valoriza cada vez mais a autenticidade individual e a busca pela felicidade pessoal. Embora sejam valores positivos, podem ser distorcidos quando qualquer relacionamento que exija tolerância, perdão ou capacidade de enfrentar conflitos passa a ser visto como prejudicial simplesmente por gerar desconforto.
A família é um espaço inevitavelmente marcado por falhas, desencontros e diferenças. Esperar pais perfeitos é tão irreal quanto esperar filhos perfeitos. Naturalmente, há casos em que o afastamento é necessário e até indispensável para preservar a integridade física ou psicológica. Mas transformar o rompimento definitivo na primeira alternativa diante de conflitos comuns representa um empobrecimento das relações humanas e um enorme sofrimento para os envolvidos.
Talvez o maior desafio hoje seja recuperar a capacidade de diferenciar violência de imperfeição, abuso de conflito e proteção de isolamento. Entre a submissão cega e o rompimento definitivo há um caminho muito mais difícil, porém muito mais humano: o do diálogo responsável, da reflexão crítica, para reconhecer erros dos dois lados, e da disposição para a reconstrução dos vínculos sempre que possível.
A psicologia tem papel vital nesse processo. Não o de ensinar pessoas a cortar laços indiscriminadamente, mas o de ajudá-las a compreender a complexidade das relações familiares, fortalecendo a saúde emocional e a responsabilidade afetiva. Em tempos de diagnósticos rápidos que mais parecem rótulos e julgamentos instantâneos, a maior demonstração de maturidade é resistir às explicações fáceis para os problemas mais complexos da vida.
(*) Psicóloga




