
Paulo Zattar Ribeiro (*) e Igor Viana (**)
A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, aos 22 anos, no final de maio, reacendeu um debate que a medicina vem tentando fazer há anos: até onde vai a busca pelo corpo perfeito?
O atestado de óbito apontou cardiomiopatia hipertrófica, uma doença cardíaca que pode ser agravada pelo uso de anabolizantes. Nas redes sociais, Gabriel dizia que usava hormônios como insulina com finalidade estética. Ele também já havia descrito episódios de mal-estar, confusão mental e sintomas compatíveis com hipoglicemia após aplicações do hormônio.
O caso trouxe à tona uma prática que, embora pouco discutida fora do universo do fisiculturismo, é conhecida entre alguns atletas e frequentadores de academias: o uso da insulina como agente anabolizante.
É preciso deixar algo muito claro: a insulina não é um suplemento alimentar. Não é um recurso ergogênico seguro. Não é um atalho inocente para o ganho de massa muscular. Trata-se de um hormônio essencial para a vida, cuja utilização inadequada pode levar à perda de consciência, convulsões, coma e morte.
A principal função
A insulina é produzida naturalmente pelo pâncreas e tem como principal função permitir que a glicose presente no sangue entre nas células para ser utilizada como fonte de energia. Em pessoas com diabetes tipo 1 e em parte dos pacientes com diabetes tipo 2, sua administração é fundamental para o controle da doença.
No entanto, alguns praticantes de fisiculturismo passaram a enxergar esse hormônio sob outra perspectiva. Como a insulina facilita a entrada de glicose e aminoácidos nas células musculares, ela passou a ser utilizada de forma clandestina com o objetivo de potencializar a recuperação muscular e favorecer a hipertrofia.
O problema é que o mecanismo que pode favorecer o crescimento muscular é exatamente o mesmo que pode desencadear uma emergência médica.
Quando uma pessoa saudável aplica insulina sem necessidade clínica, ela reduz artificialmente os níveis de glicose circulante. Se não houver um controle extremamente rigoroso da alimentação – algo praticamente impossível fora de ambientes hospitalares – o organismo pode entrar em hipoglicemia. E a hipoglicemia não é apenas uma sensação de fraqueza.
O cérebro depende quase exclusivamente da glicose para funcionar. Quando ela cai drasticamente, surgem sintomas como sudorese intensa, tremores, alterações de comportamento, dificuldade para falar, confusão mental, perda de coordenação motora e desmaios.
Em situações mais graves, podem ocorrer convulsões, lesões neurológicas permanentes, coma e morte.
O aspecto mais preocupante é que muitos desses episódios acontecem de forma rápida e silenciosa. Nem sempre há tempo para buscar socorro.
O risco das redes sociais
Outro fator alarmante é a falsa percepção de segurança que circula nas redes sociais. Vídeos, relatos e protocolos compartilhados por influenciadores frequentemente apresentam o uso de hormônios e medicamentos como estratégias comuns de preparação física. A repetição dessas práticas acaba normalizando comportamentos que, na realidade, envolvem riscos severos à saúde.
Vivemos uma era em que informações sobre farmacologia esportiva circulam com velocidade muito maior do que a educação médica necessária para compreendê-las. Jovens sem formação em saúde passam a reproduzir condutas observadas em atletas profissionais ou influenciadores, muitas vezes sem conhecer as consequências metabólicas envolvidas.
Existe ainda um agravante pouco discutido: a combinação de múltiplas substâncias. Em determinados contextos, a insulina é utilizada juntamente com hormônios anabolizantes, hormônio do crescimento, estimulantes e outros medicamentos. O resultado é um cenário de risco cumulativo para o sistema cardiovascular, hepático, renal, neurológico e endócrino.
A medicina esportiva moderna busca justamente o oposto. O objetivo não deve ser ultrapassar os limites biológicos do organismo a qualquer custo, mas otimizar desempenho preservando saúde e longevidade.
Corpos impressionantes podem gerar curtidas. Resultados rápidos podem render contratos e seguidores. Mas nenhuma transformação estética justifica colocar a própria vida em risco.
O caso de Gabriel deve servir como reflexão coletiva. Não apenas para atletas, mas também para treinadores, influenciadores, profissionais da saúde e para a sociedade como um todo. Quando um medicamento criado para salvar vidas passa a ser tratado como suplemento de academia, deixamos de falar sobre performance e passamos a falar sobre um grave problema de saúde pública. Porque músculos podem ser construídos ao longo do tempo. Mas uma hipoglicemia grave pode tirar uma vida em questão de minutos.
(*) Médico geneticista, especialista em doenças raras e medicina de precisão
(**) Médico clínico com especialização em endocrinologia e metabolismo
