
Solange Lompa Truda (*)
Estamos vivendo um momento de intensa transformação social e cultural. Os modelos que historicamente organizaram as relações humanas começam a ser necessariamente transformados e repensados. Sabemos que, por muito tempo, nossa sociedade foi construída a partir de dicotomias: certo e errado, forte e fraco, razão e emoção, masculino e feminino, delicado e agressivo, azul e rosa. Um pensamento binário que organiza o mundo em pares opostos e excludentes, como se fosse necessário escolher apenas um lado possível de existências.
Nesse modelo, os meninos frequentemente foram associados a força, racionalidade, autonomia e dureza, enquanto características como sensibilidade, cuidado, delicadeza ou vulnerabilidade foram culturalmente vinculadas ao feminino – e muitas vezes desvalorizadas nos processos educativos masculinos. A complexidade humana e das nossas relações com o mundo foram reduzidas, limitando muitas experiências, desconhecendo subjetividades e gerando sofrimento emocional.
Hoje, profissionais da saúde e educação oportunizam em seus espaços clínicos ou escolares reflexões frente à necessidade de superarmos modelos estreitos de masculinidade que já não respondem às demandas do nosso mundo contemporâneo. Meninos crescem hoje em meio a mensagens contraditórias: espera-se que sejam sensíveis, mas não frágeis; empáticos, mas competitivos; emocionalmente disponíveis, mas ainda “fortes o tempo todo”.
O silenciamento emocional pode gerar dificuldade de comunicação, intolerância à frustração, agressividade, isolamento e sofrimento psíquico ao longo da vida.
Várias pesquisas e estudos recentes nos convidam para olhar com mais atenção a forma como estamos educando nossos meninos para lidar com emoções, conflitos, frustrações e pedidos de ajuda quando sofrem emocionalmente. Essa é uma pauta urgente para famílias, escolas e toda a sociedade. Afinal, acreditamos que a construção das masculinidades não começa na vida adulta. Ela se inicia muito cedo, nas relações familiares, nas brincadeiras, nas mensagens transmitidas pelos adultos, nas referências culturais e nas experiências emocionais que oferecemos às crianças.
Sabemos o quanto, por muito tempo, meninos cresceram ouvindo mensagens explícitas ou sutis como “homem não chora”, “engole o choro”, “seja forte”, “isso é frescura”. Embora frequentemente ditas com a intenção de fortalecer, essas falas acabam comunicando que determinadas emoções não são aceitáveis e que demonstrar vulnerabilidade representa fraqueza.
Desde cedo, eles aprendem que devem ser fortes, resistentes, corajosos e pouco sensíveis. Essas expressões como “vira homem” ou “isso é coisa de menina” ainda aparecem com frequência em contextos familiares, escolares e sociais. Embora muitas vezes ditas sem intenção de ferir, essas frases ensinam os meninos a esconder emoções, desconectar-se da própria sensibilidade e compreender vulnerabilidade como sinal de fraqueza.
A psicologia do desenvolvimento e os estudos clínicos mostram que esse processo tem consequências muito significativas.
O silenciamento emocional pode gerar dificuldade de comunicação, intolerância à frustração, agressividade, isolamento e sofrimento psíquico ao longo da vida.
Minimizar e invalidar
Lembramos aqui as contribuições de Marina Speranza, especialista em gênero que em seu livro Para de Frescura refere justamente o impacto dessas mensagens na constituição emocional das crianças. A autora questiona uma prática ainda muito presente em nossa cultura: a tendência de minimizar, interromper ou invalidar os sentimentos infantis. Quando dizemos a uma criança que ela está exagerando ou que não deveria sentir o que sente, perdemos uma oportunidade valiosa de ajudá-la a compreender e elaborar suas emoções.
E quando essa lógica recai sobre os meninos, seus efeitos tendem a ser ainda mais sérios e profundos. Desde cedo, eles costumam receber menos autorização social para expressar tristeza, medo, insegurança ou fragilidade. Aos poucos, aprendem que sentir é permitido, mas demonstrar não.
O problema é que emoções ignoradas não desaparecem! Elas procuram outras formas de se manifestar. Muitas vezes, a tristeza transforma-se em irritação, o medo em agressividade, a insegurança em necessidade de controle ou o sofrimento em isolamento silencioso. Por trás de muitos comportamentos considerados difíceis, existe uma criança que ainda não encontrou palavras para expressar aquilo que está vivendo. Cabe ressaltar que, quando acolhemos as emoções das nossas crianças ou adolescentes, não significa que estamos concordando com seus comportamentos.
Validar sentimentos é diferente de permitir ou validar atitudes. Uma criança pode sentir muita raiva e, ao mesmo tempo, aprender que não pode machucar os outros. Pode sentir frustração e, ainda assim, precisar lidar com limites claros. O acolhimento emocional não enfraquece os limites; pelo contrário, fortalece a capacidade da criança de compreendê-los e internalizá-los como processo do seu desenvolvimento e construção de uma identidade saudável e equilibrada.
Mas acreditamos que a questão é ainda mais complexa, pois estamos falando de meninos que crescem em um tempo de transição. Eles habitam um mundo que passou a questionar modelos antigos de masculinidade baseados na dureza emocional, na autoridade incontestável, na competitividade excessiva e na ideia de que o valor de um homem está em sua capacidade de dominar, controlar ou nunca demonstrar fragilidade.
No entanto, embora esses modelos estejam sendo criticados, ainda oferecemos poucas referências claras e consistentes sobre o que pode ocupar esse lugar.
Nossos meninos ainda crescem diante de mensagens aparentemente contraditórias. Ouvem que precisam ser fortes, mas também sensíveis. Precisam ter iniciativa, mas respeitar os limites do outro. Precisam aprender a se posicionar, mas sem dominar. Precisam desenvolver autonomia, mas também saber cooperar. Precisam ser confiantes, mas não arrogantes. Precisam expressar emoções, mas sem perder a responsabilidade sobre seus atos.
Temos certeza de que para os adolescentes em processo de construção de identidade essa travessia nem sempre é simples. Sem espaços seguros de diálogo e reflexão, alguns acabam buscando respostas em modelos superficiais que circulam nas redes sociais e que frequentemente resgatam versões empobrecidas da masculinidade, associando valor pessoal à força física, ao poder, ao desempenho ou à capacidade de impor-se sobre os outros.
Por isso, nosso maior desafio em educar meninos na sociedade contemporânea é oferecer um repertório que auxilie crianças e adolescentes a desenvolver linguagem emocional, pensamento crítico, capacidade de escuta, empatia e responsabilidade afetiva. Exige das famílias e dos educadores a capacidade de criar oportunidades para que possam refletir sobre quem são, o que sentem, como constroem suas relações e quais valores desejam levar para a vida adulta.
Educar meninos hoje é ajudá-los a responder algumas perguntas que surgem como: que tipo de homem quero ser? Como posso exercer minha força sem ferir? Como posso lidar com minhas vulnerabilidades sem me envergonhar delas? Como construir relações de respeito, amizade, amor e cuidado?
Talvez uma das maiores responsabilidades das famílias e das escolas seja justamente oferecer novas referências. Referências de homens que cuidam, que escutam, que cooperam, que assumem responsabilidades, que reconhecem erros, que expressam afeto e que compreendem que a verdadeira força não está na ausência de fragilidade, mas na capacidade de integrar coragem e sensibilidade.
Porque educar meninos para o futuro não é apenas prepará-los para competir em um mundo complexo. É prepará-los para transformá-lo.
Nesse processo, as famílias ocupam um lugar fundamental. Quando acolhem sentimentos sem ridicularizá-los, incentivam a expressão emocional, compartilham responsabilidades de cuidado entre homens e mulheres e apresentam modelos masculinos diversos, ajudam os meninos a ampliar seu repertório de possibilidades sobre o que significa ser homem.
A escola também desempenha um papel essencial. É um espaço privilegiado para promover educação emocional, questionar estereótipos de gênero, incentivar a cooperação e criar ambientes seguros para que os estudantes possam falar sobre sentimentos, conflitos, relações e identidade.
(*) Psicóloga clínica e escolar, especialista em psicoterapia da infância e adolescência


