
Natália Mansan (*)
Em nossa rotina digital, uma conversa inteira pode caber em poucos símbolos. Um rosto sorrindo, um coração, um gesto com as mãos. Emojis tornaram-se parte da linguagem cotidiana, atravessando fronteiras culturais e geracionais. Parecem simples, leves e universais. No entanto, como toda linguagem, também carregam camadas de significado que nem sempre estão visíveis à primeira vista.
Nos últimos anos, pesquisadores, educadores e organizações sociais têm chamado atenção para um fenômeno preocupante: certos emojis e símbolos passaram a ser utilizados como códigos em práticas de violência digital, especialmente contra mulheres. O que para alguns pode parecer apenas uma brincadeira ou um comentário irônico pode, em determinados contextos, funcionar como forma de intimidação, exposição ou humilhação.
A cara de pedra, por exemplo, representa frieza emocional e desprezo, muitas vezes usado para desumanizar mulheres ou minimizar denúncias. O urso é usado para exaltar o estereótipo do “macho dominante” ou ridicularizar mulheres, reforçando hierarquias de poder. O vinho é frequentemente empregado para debochar de mulheres, sugerindo fragilidade ou exagero emocional. A pílula vermelha, a chamada red pill, simboliza o despertar para a crença de que homens seriam vítimas de um sistema feminista.
É nesse território ambíguo da linguagem que surge a campanha Além do Emoji, criada pela Agência Bistrô a partir de uma experiência pessoal da VP Institucional e de ESG Fernanda Aldabe. Para Aldabe, "a Bistrô sempre esteve ao lado de causas sociais, levantando bandeiras por meio de campanhas e comunicação. Diante da misoginia digital, entendemos que a educação precisa vir antes da comunicação. É fundamental começar pela base, nas escolas, quando as crianças estão iniciando sua jornada no ambiente digital, para que compreendam a gravidade de certos símbolos e mensagens quando usados de forma inadequada".
Foi nesse contexto que fui convidada a integrar a campanha como autora do livro A Carta Enigmática. Esse livro nasce da necessidade de nomear, compreender e interromper violências que, muitas vezes, chegam às crianças e aos adolescentes de forma disfarçada, simbólica ou naturalizada. A misoginia é uma delas. Embora seja um fenômeno social complexo, ela atravessa cedo as relações, as linguagens e os gestos cotidianos, manifestando-se já na infância e se intensificando na adolescência, inclusive no contexto escolar.
Na trama, uma carta cheia de símbolos chega às mãos de Lorena. O que parecia apenas um mistério transforma-se em descoberta, dor e aprendizado. Entre amizades, silêncios e perguntas difíceis, Lorena percebe que algumas mensagens carregam mais do que palavras: carregam preconceitos, violências e histórias que precisam ser interrompidas.
Com o apoio de quem cuida, escuta e educa, ela aprende que sentimentos também se transformam quando são nomeados e enfrentados. Esta é uma história sobre crescer, compreender e não aceitar o desrespeito como algo normal. Uma história sobre a força das meninas, do diálogo e da educação.
A Carta Enigmática foi concebida como um livro de mediação, destinado a educadores, educadoras e famílias que desejam abrir espaços seguros de escuta, diálogo e reflexão com crianças e adolescentes a partir dos 10 anos. A narrativa aborda sentimentos intensos, conflitos éticos e situações de violência simbólica que exigem acompanhamento sensível e responsável. Por isso, este não é um livro indicado para leitura solitária ou descontextualizada. Pressupõe a presença de um adulto atento, disposto a conduzir conversas, acolher perguntas, sustentar silêncios e ajudar a transformar desconfortos em aprendizagem. A história convida à discussão sobre respeito, gênero, convivência e responsabilidade, reconhecendo que educar também implica enfrentar temas difíceis, com cuidado, intencionalidade e compromisso ético.
Ao envolver escola e família, o livro reafirma que o enfrentamento da misoginia não é tarefa individual, mas coletiva. Educar para relações mais justas e respeitosas é um trabalho contínuo, que se constrói no diálogo, na escuta e na coragem de não silenciar diante da violência.
A expectativa é que esta leitura seja um ponto de partida. Não para oferecer respostas prontas, mas para provocar perguntas, fortalecer vínculos e reafirmar o papel da educação, dentro e fora da escola, na formação de sujeitos conscientes, sensíveis e responsáveis.
A iniciativa também inclui uma plataforma digital aberta, que reúne o livro e conteúdos que ajudam a identificar símbolos e linguagens associados à misoginia. Além da versão digital, o projeto prevê a circulação de exemplares físicos do livro, ampliando o alcance da proposta e possibilitando que o tema seja trabalhado em diferentes contextos educativos.
Ir além do emoji é lembrar que toda mensagem atravessa uma relação humana. Do outro lado da tela existe sempre alguém que lê, interpreta e sente. Educar para o mundo digital é, antes de tudo, educar para o cuidado com o outro. Para maiores informações e acesso à campanha completa, visite (alemdoemoji.com).
(*) Pedagoga, especialista em Gestão da Educação, mestra e doutoranda em Educação e escritora de livros infantis


