
Paula Anderle (*)
Os dados mais recentes do IBGE trouxeram, pela primeira vez, uma fotografia nacional do autismo, ainda que incompleta. O Censo Demográfico de 2022 identificou cerca de 2,4 milhões de brasileiros com diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA), o que corresponde a 1,2% da população.
O número é expressivo, mas talvez o dado mais revelador esteja no recorte etário: entre crianças de cinco a nove anos, a prevalência chega a 2,6% ou aproximadamente uma em cada 38 crianças.
Ainda assim, é preciso cautela na leitura. O levantamento se baseia em informação declarada pelas famílias, ou seja, considera apenas quem já teve acesso a um diagnóstico formal. Isso significa que estamos, muito provavelmente, diante de uma subnotificação. Em outras palavras: há mais autismo no Brasil do que conseguimos medir.
E é justamente nesse intervalo, entre existir e ser diagnosticado, que milhares de famílias vivem uma rotina de incerteza.
Para muitas mães atípicas, o caminho até o diagnóstico não é linear. É fragmentado, lento e, frequentemente, solitário. O que começa com uma suspeita, um atraso na fala, uma dificuldade de interação, um comportamento diferente, rapidamente se transforma em uma peregrinação por serviços de saúde.
A ciência já é clara: a intervenção precoce é determinante para o desenvolvimento infantil. Mas o sistema de saúde ainda não responde com a mesma velocidade.
Na prática, o acesso ao diagnóstico e às terapias no Brasil esbarra em três gargalos principais: escassez de profissionais especializados, fluxos pouco organizados dentro do SUS e desigualdade de acesso entre quem pode pagar e quem depende exclusivamente do sistema público.
O resultado é um paradoxo: nunca falamos tanto sobre autismo e, ainda assim, chegar ao diagnóstico continua sendo difícil.
Outro ponto que os dados do Censo ajudam a iluminar é a maior prevalência entre meninos (1,5%) em comparação às meninas (0,9%). Isso não significa, necessariamente, que há menos meninas autistas, mas pode indicar que elas seguem sendo subdiagnosticadas, muitas vezes por apresentarem sinais mais sutis ou diferentes dos critérios tradicionalmente reconhecidos.
Diante desse cenário, uma pergunta se impõe: por onde começar?
Na maioria dos casos, os primeiros sinais aparecem no desenvolvimento da linguagem. Atraso na fala, regressão de habilidades ou dificuldade de comunicação são alertas importantes. O pediatra costuma ser a porta de entrada, mas é fundamental que haja um olhar atento para o desenvolvimento global da criança.
A partir daí, a avaliação pode envolver uma equipe multidisciplinar com neuropediatras, psiquiatras infantis, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. O diagnóstico não é um ato isolado, mas um processo.
E há um ponto fundamental que precisa ser reforçado: não é necessário esperar um laudo fechado para iniciar intervenções. No caso da fonoaudiologia, por exemplo, o acompanhamento pode e deve começar diante dos primeiros sinais. Tempo, aqui, é desenvolvimento.
Ainda assim, muitas famílias se perdem nesse percurso. Não por falta de interesse ou cuidado, mas por ausência de orientação clara. O sistema não comunica bem seus próprios caminhos.
Por isso, organizar minimamente esse fluxo é também uma forma de acolhimento:
observar os sinais; procurar o pediatra; encaminhamento para especialistas; avaliações específicas; início das terapias.
Parece simples no papel. Mas, na prática, esse percurso pode levar meses, às vezes anos. E é nesse intervalo que se acumulam angústia, culpa e exaustão.
Os dados do Censo cumprem um papel importante ao dimensionar o desafio. Mas eles também nos convocam a ir além da estatística. Porque cada número representa uma criança que precisa de suporte e uma família que precisa de orientação.
Se hoje sabemos que pelo menos 2,4 milhões de brasileiros estão no espectro, a pergunta que fica é: estamos preparados para cuidar deles?
Enquanto o acesso ao diagnóstico e às terapias continuar sendo um privilégio e não um direito efetivo, seguiremos produzindo não apenas subnotificação, mas também desigualdade no desenvolvimento.
E nenhuma criança deveria ter seu futuro determinado pelo tempo que levou para ser compreendida.
(*) Fonoaudióloga, analista do comportamento, mestre em Epidemiologia, especialista em transtorno do espectro autista (TEA)

