
Debora Saueressig (*)
Como mãe de uma criança autista, jornalista e ativista da inclusão, falo sobre intervenção precoce, acesso a diagnóstico, escola, políticas públicas.
Mas existe uma camada anterior a isso que, quando não recebe atenção, compromete qualquer tentativa de cuidado: a saúde mental de quem materna.
Minha trajetória profissional acabou se misturando à vida privada. Não porque eu tenha escolhido transformar minha maternidade em pauta, mas porque a realidade de outras mães apareceu diante de mim de maneira incontornável.
Nas conversas envergonhadas. Nas mensagens de madrugada. Nos relatos de mulheres que seguem funcionando no limite (ou além dele) porque alguém precisa continuar.
E existe algo que se repete em quase todas as histórias: ninguém pergunta como está a mulher responsável por manter a engrenagem.
A maternidade tem, sim, belezas. Inúmeras e reais. Estão nos vínculos que se constroem. Na intimidade que só quem cuida diariamente conhece. Estão no filho que busca a mão da mãe. No olhar que responde. Na autonomia que aparece depois de meses/anos de trabalho.
Mas parar aí é contar só metade da história. A outra metade envolve custo.
Custo emocional, físico, psíquico. Um custo que não aparece, que não entra nas métricas de desenvolvimento, que raramente ocupa espaço nas discussões públicas sobre infância, inclusão ou cuidado.
Criar filhos exige trabalho. Diário. Repetido. Muitas vezes solitário.
É a mãe que se regula antes de ensinar a criança a se regular. É a mãe que organiza o ambiente para que o filho consiga se organizar. É a mãe que engole o próprio colapso para continuar em pé. É a mãe que revisita a própria história enquanto tenta construir outras possibilidades para o filho.
Isso cansa.
Cansa porque não existe pausa. Cansa porque cuidar não termina. Cansa porque exige disponibilidade emocional mesmo quando não há recurso interno suficiente.
Como mãe atípica, eu conheço intimamente esse lugar.
Conheço as noites sem descanso. Conheço o peso das burocracias intermináveis. Conheço a sensação de precisar estudar, argumentar, mediar conflitos, lutar por acesso e ainda voltar para casa como se houvesse energia sobrando.
Existe uma expectativa social de que a mãe dê conta de tudo. Como se amar fosse suficiente para organizar o cotidiano. Como se dedicação substituísse rede de apoio. Como se informação resolvesse ausência de suporte.
Não resolve.
Nenhuma técnica compensa uma mulher exausta. Nenhum protocolo substitui uma mãe sem apoio. Nenhum discurso organiza sozinho uma casa em desequilíbrio.
E não se trata de casos isolados: estudos internacionais, incluindo pesquisas publicadas em periódicos como o Journal of Autism and Developmental Disorders, já demonstram que mães de crianças autistas apresentam níveis significativamente mais elevados de estresse e sobrecarga quando comparadas a outros grupos de cuidadores.
E talvez esteja aí uma das discussões mais urgentes: quem cuida da pessoa responsável pelo cuidado?
Porque quando uma mãe adoece, isso não fica restrito a ela. O impacto chega na dinâmica da casa, na qualidade das relações, no funcionamento cotidiano.
Cuidar de mães não é gentileza. É estratégia de desenvolvimento social. É política pública. É saúde coletiva. É proteção à infância.
(*) Jornalista, palestrante e ativista da inclusão, mulher autista de diagnóstico tardio e mãe de dois filhos, um deles com autismo
