
Antonio Nocchi Kalil (*) e Daniel Azambuja (**)
O câncer colorretal, também conhecido como câncer de intestino, se desenvolve no intestino grosso, que inclui o cólon e o reto. Trata-se da neoplasia maligna mais comum do trato gastrointestinal. A nível mundial, essa doença representa cerca de 1,9 milhões de novos casos e 935 mil mortes ao ano. No Brasil, atualmente ocupa o terceiro lugar entre os tipos mais frequentes de câncer. Estima-se que no nosso país cerca de 50 mil novos casos sejam diagnosticados ao ano, sendo mais frequente nas regiões Sul e Sudeste. Dados dos Estados Unidos mostram que é a segunda principal causa de morte por câncer naquele país, com um total de cerca de 55 mil mortes no país ao ano.
O câncer colorretal é uma doença tradicionalmente associada a pessoas acima dos 50/60 anos. No entanto, temos observado um aumento preocupante no número de casos em faixas etárias mais jovens. Estudos mostram um crescimento significativo de diagnósticos entre pessoas com idade entre 20 e 40 anos. A incidência nesta população quase dobrou nas últimas décadas e, na América do Norte, esta neoplasia já é uma das principais causas de morte por câncer em pessoas com menos de 50 anos.
Sintomas iniciais ignorados ou subestimados
Esse tipo de tumor geralmente tem início a partir de pequenas lesões benignas chamadas pólipos, que podem crescer lentamente ao longo dos anos e se tornar malignas. Por este motivo, o câncer de intestino é na maior parte das vezes prevenível. Isso se faz através da colonoscopia, um exame amplamente conhecido e disponível no SUS. Através dele é possível identificar e remover estes pólipos antes que evoluam para câncer.
Pessoas jovens não fazem parte dos programas de rastreamento de rotina e, por isso, os sintomas iniciais muitas vezes são ignorados ou subestimados, fazendo com que a doença seja diagnosticada em fases avançadas. Sinais como sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal (diarreia ou constipação), dor abdominal frequente e perda de peso sem causa aparente não devem ser negligenciados, independentemente da idade. Atualmente, os especialistas recomendam iniciar o rastreamento aos 45 anos. Porém, indivíduos com histórico familiar da doença, algumas síndromes genéticas (Síndrome de Lynch) ou com sintomas devem ser avaliados mais precocemente. Diante de qualquer sinal suspeito, é fundamental procurar avaliação médica.
Ainda não há uma explicação definitiva para o aumento da incidência de câncer colorretal entre pessoas jovens, mas alguns fatores parecem estar envolvidos. O estilo de vida moderno desempenha papel importante nesse cenário. Dietas ricas em alimentos ultraprocessados, sedentarismo e obesidade estão entre os principais fatores associados a esse aumento. Também a alteração da composição da flora intestinal tem sido estudada como um fator adicional, ainda relacionada à rotina alimentar inadequada.
Diferentemente de muitos outros tipos de câncer, o colorretal oferece uma chance real de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento com altas taxas de cura. Este tratamento normalmente inclui cirurgia, quimioterapia e ocasionalmente radioterapia. Mesmo em tumores avançados, com disseminação para o fígado ainda é possível conseguir tempo prolongado de vida e até mesmo cura. Mudanças simples no dia a dia podem reduzir significativamente o risco, independentemente da idade. Manter uma alimentação rica em fibras com frutas, verduras e grãos integrais, reduzir o consumo de ultraprocessados, praticar atividade física regularmente e evitar o tabagismo e o consumo excessivo de álcool são medidas fundamentais nessa luta tão importante.
(*) Professor titular de Cirurgia Digestiva da UFCSPA, diretor médico da Santa Casa e membro titular da Academia Sul-rio-grandense de Medicina
(**) Professor associado de Cirurgia da UFCSPA
Parceria com a Academia
- Este artigo faz parte da parceria firmada entre Zero Hora e a Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM) em março de 2022.
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