
Fabricia Signorelli (*)
Os transtornos do neurodesenvolvimento têm em comum uma característica central: começam na infância, mas acompanham o indivíduo por toda a vida. Entre eles, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ocupam lugar de destaque, não apenas pela prevalência, mas pela complexidade clínica e, sobretudo, pela frequência com que são confundidos.
No TDAH, os sintomas clássicos são desatenção, hiperatividade e impulsividade que se manifestam de formas diferentes ao longo das fases da vida. Na infância, predominam a agitação e a dificuldade de esperar; na adolescência e na vida adulta, a hiperatividade tende a se tornar mais interna, enquanto os prejuízos de atenção e das funções executivas ganham protagonismo, impactando diretamente a organização, o planejamento e a execução de tarefas.
Já o TEA é definido por dois eixos principais: prejuízos na comunicação e interação social, e padrões restritos e repetitivos de comportamento. Isso inclui dificuldades na leitura de sinais sociais, na reciprocidade emocional, além de rigidez cognitiva, apego a rotinas e alterações no processamento sensorial. Trata-se de um quadro persistente, que demanda suporte contínuo ao longo do desenvolvimento.
Sobreposição de sintomas
Apesar das diferenças conceituais, há uma zona de interseção importante. Ambos os transtornos compartilham prejuízos nas funções executivas e na autorregulação emocional. Na prática, isso significa que indivíduos com TEA ou TDAH podem reagir de forma intensa a frustrações, apresentar dificuldades de adaptação e enfrentar obstáculos na vida acadêmica, profissional e social. Essa sobreposição de sintomas é justamente o que torna o diagnóstico diferencial um dos maiores desafios clínicos.
A distinção exige um olhar técnico refinado. No autismo, a rigidez comportamental e a dificuldade estrutural na cognição social são centrais. Já no TDAH, os prejuízos sociais costumam ser secundários à desatenção ou à impulsividade, ou seja, a pessoa entende as regras sociais, mas falha na execução. Essa diferença, embora sutil, é determinante.
O cenário se torna ainda mais complexo quando há comorbidade, algo relativamente frequente. Quando TEA e TDAH coexistem, os prejuízos se potencializam: dificuldades sociais, desorganização, impulsividade e sobrecarga emocional se intensificam, elevando o risco de outros transtornos psiquiátricos. Nesses casos, identificar ambas as condições não é apenas desejável, é indispensável para um plano terapêutico eficaz.
E é aqui que entra um ponto importante: o tratamento não é padronizado. No TEA, não há medicação para os sintomas centrais; o foco está em intervenções multidisciplinares voltadas ao desenvolvimento de habilidades sociais, comunicação e flexibilidade cognitiva. No TDAH, por outro lado, o tratamento farmacológico tem papel relevante, especialmente a partir da idade escolar, com impacto direto nos sintomas nucleares. Em ambos, terapias como a cognitivo-comportamental, o suporte psicopedagógico e a terapia ocupacional são fundamentais.
A avalanche das redes sociais
Outro fator decisivo é o tempo. O diagnóstico precoce permite aproveitar a neuroplasticidade cerebral, a capacidade do cérebro de aprender e se reorganizar, potencializando os ganhos no desenvolvimento. Quanto antes se intervém, maiores são as chances de reduzir prejuízos funcionais ao longo da vida.
Mas nenhuma intervenção é eficaz sem um elemento central: a família. Compreender que desatenção, impulsividade ou rigidez não são falhas de caráter, mas expressões neurobiológicas, transforma a forma de lidar com o indivíduo. Ajustar expectativas, estruturar rotinas e criar ambientes previsíveis e acessíveis são estratégias que fazem diferença concreta no cotidiano.
Em meio a esse cenário, é preciso cautela com a avalanche de informações nas redes sociais. A banalização de diagnósticos e a disseminação de conteúdos sem embasamento científico têm levado a interpretações equivocadas e, muitas vezes, a atrasos diagnósticos. O conhecimento técnico ainda é o principal instrumento para garantir um cuidado ético e eficaz.
Falar sobre TEA e TDAH, portanto, é falar sobre precisão. Não basta reconhecer sintomas, é preciso compreender suas origens, suas nuances e, principalmente, suas implicações na vida real. Porque, quando os sinais se cruzam, apenas um olhar qualificado é capaz de separar o que parece igual, mas não é.
(*) Psiquiatra especialista em TEA, TDAH e altas habilidades, pesquisadora do Ambulatório de TDAH da Unifesp



