
J.J. Camargo (*) e Fabíola Adélia Perin (**)
O enfisema pulmonar, ou doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), é uma enfermidade na qual ocorre destruição irreversível da arquitetura dos pulmões, formando bolhas que não esvaziam na expiração. Esse ar retido determina um aumento progressivo dos pulmões, não permitindo a troca de ar em cada respiração. Na prática, é como encher o peito de ar e, sem expirar, tentar inspirar novamente. Essa é a sensação do paciente com enfisema.
Os sintomas causados pelo enfisema são a tosse, com ou sem secreção, e a falta de ar, que piora ao longo do tempo, dificultando as atividades diárias. Pode haver piora súbita, chamada exacerbação, frequente causa de internação hospitalar no inverno. Mas geralmente a piora é lenta.
Uma arapuca para os fumantes ainda sem falta de ar é que o pulmão tem uma grande reserva, e a falta de fôlego para as atividades comuns só aparece quando já houve destruição de 60% ou mais da capacidade pulmonar.
A progressão da doença é contínua, de modo que há uma relativa adaptação. Muitas vezes os sintomas são atribuídos ao avanço da idade, ao tabagismo e à falta da prática de exercícios, com as queixas sendo valorizadas apenas quando as caminhadas se tornam desagradáveis, o banho, cansativo, e o sexo, impossível.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima em 251 milhões de casos de DPOC no mundo, sendo a causa de 3,23 milhões de mortes em 2019. O tabagismo é o principal fator de risco. Também a poluição ambiental e as infecções respiratórias precoces podem estar presentes como causas menos relevantes, bem como uma condição hereditária onde há deficiência de uma enzima, a alfa 1 antitripsina.
O diagnóstico e o tratamento
O diagnóstico consiste na identificação da tosse e da falta de ar associados aos fatores de risco e aos resultados do teste de função pulmonar, à espirometria e ao teste da caminhada. Exames de imagem como a tomografia do tórax também são úteis para caracterizar e quantificar o enfisema.
O tratamento clínico tem como objetivo aliviar os sintomas e prevenir as exacerbações. O acompanhamento pelo pneumologista garante a escolha e o uso adequado de broncodilatadores e a profilaxia de infecções virais através das vacinas. Cuidado importante, a reabilitação pulmonar (atividade física orientada) impede que o sedentarismo imposto pela falta de ar determine atrofia muscular, responsável pela sensação de cansaço extremo que não se consegue distinguir da verdadeira falta de ar.
Em casos graves, terapias podem diminuir o tamanho dos pulmões afetados pelas bolhas do enfisema, ajudando-os a recuperar sua função. Isso pode ser feito através da colocação de válvulas brônquicas, que visam ocluir os brônquicos mais afetados pelo enfisema.
O entusiasmo inicial por esta técnica arrefeceu pelo custo elevado e pelas complicações (infecção, deslocamento da válvula, pneumotórax e curta de duração do benefício). O surgimento de técnicas minimamente invasivas (cirurgia por vídeo ou robótica) retomou o entusiasmo pela redução cirúrgica dos pulmões, removendo as áreas mais afetadas, e permitindo que as áreas menos doentes tenham mais espaço para funcionar. Os ganhos funcionais são maiores e mais duradouros do que em outras formas de intervenção não medicamentosa. Quando todas as possibilidades de tratamento se esgotam, avalia-se o transplante pulmonar de um ou os dois pulmões, com ganho funcional incomparavelmente maior.
A avaliação dos casos avançados, considerando contraindicações conhecidas, restringe o benefício a um pequeno grupo de pacientes com resultados previsíveis. Isso significa que todos os enfisematosos graves precisam ser avaliados por grupos experientes, capazes de definir risco/benefício de cada forma de tratamento. Os cuidados do paciente com enfisema impõem o abandono obrigatório do tabagismo, adesão ao tratamento, e cuidados multidisciplinares com o pneumologista, fisioterapeuta e preparador físico, além da eventual avaliação cirúrgica por equipe experiente.
(*) Cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e membro titular das Academias Sul-Rio-Grandense de Medicina e Nacional de Medicina
(**) Cirurgiã torácica e integrante do Programa de Novos Talentos da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina
Parceria com a Academia
- Este artigo faz parte da parceria firmada entre Zero Hora e a Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM) em março de 2022.
- Uma vez por mês, o caderno Vida publica conteúdos produzidos por médicos da entidade.
- A ASRM completou 35 anos em 2025, conta com cerca de 90 membros de diversas especialidades e atualmente é presidida pelo psiquiatra Sérgio de Paula Ramos.
- Os textos são assinados por um integrante do Programa Novos Talentos, coordenado pelo eletrofisiologista Leandro Zimerman, e por um tutor com larga experiência na área.


