
Stephen Stefani (*)
No fim dos anos 1990, a série Dawson’s Creek conquistou uma geração ao retratar, com diálogos intensos e um certo idealismo romântico, as dores e descobertas da adolescência. O personagem de James Van Der Beek vivia entre sonhos, inseguranças e a transição inevitável para a vida adulta. A série terminou em 2003 como um marco do drama jovem.
Em 2024, o ator veio a público anunciar o diagnóstico de câncer de cólon. Morreu em janeiro de 2026, aos 48 anos, deixando esposa, seis filhos, fãs e uma pergunta incômoda: por que uma doença historicamente associada a idades mais avançadas está atingindo cada vez mais pessoas jovens?
As estatísticas preocupam. O câncer colorretal (CCR) é hoje um dos tumores mais incidentes no Brasil. Dados recentes do Instituto Nacional do Câncer indicam que, após pele não melanoma, mama e próstata, ele está entre os mais frequentes e já figura como um dos mais letais em adultos jovens. Aproximadamente 40% dos diagnósticos ocorrem entre 40 e 45 anos.
O fenômeno tem provocado debate sobre antecipar a idade recomendada para o exame de triagem com colonoscopia. O exame é realizado por médico habilitado, sob sedação, com risco muito baixo. Exige preparo intestinal — eventualmente visto como desconfortável —, mas está longe de ser proibitivo para a maioria das pessoas. E, evidentemente, é muito menos complexo do que tratar um câncer diagnosticado tardiamente.
Mas rastrear não basta. Exames só fazem sentido se houver rede estruturada para acolher e tratar quem recebe um diagnóstico. Identificar uma alteração e não garantir encaminhamento adequado e ágil é falhar no essencial.

E por que jovens estão adoecendo mais? A ciência ainda busca respostas. Hipóteses incluem mudanças alimentares (excesso de ultraprocessados e açúcar), uso precoce e frequente de antibióticos, alterações no sono, sedentarismo e até exposição a microplásticos. O que se sabe é que o câncer colorretal de início precoce não é simplesmente “a mesma doença em pessoas mais novas”.
Estudos mostram perfis moleculares distintos, com diferenças metabólicas, genéticas e até na arquitetura do tecido tumoral. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego identificaram, por exemplo, a toxina colibactina, produzida por certas cepas de E. coli do intestino. Ao analisar amostras de 981 pacientes em 11 países, observaram que mutações associadas a essa toxina eram 3,3 vezes mais frequentes em adultos com menos de 40 anos do que em pessoas acima de 70. A hipótese é inquietante: exposições ainda na infância podem deixar “marcas” no DNA das células do cólon, aumentando o risco décadas depois. A ideia de que a vulnerabilidade possa começar cedo muda a forma como pensamos prevenção.
Atenção aos sintomas
Enquanto respostas definitivas não chegam, algumas atitudes já são claras. Sintomas como alteração persistente do hábito intestinal, sangue nas fezes, perda de peso inexplicada e dor abdominal contínua não devem ser ignorados, independentemente da idade. Pessoas acima de 45 anos — principalmente, mas não exclusivamente aquelas com histórico familiar — devem discutir rastreamento com seu médico. Alimentação rica em fibras, frutas e verduras, atividade física regular e cuidado com o peso ajudam a proteger a saúde intestinal.
Toda vida interrompida é dolorosa. Quando isso ocorre por uma doença potencialmente detectável precocemente, a dor carrega o componente da oportunidade perdida. Se temos planos e projetos para o futuro temos que agir com respeito e disciplina com o próprio organismo. A propósito, a trilha sonora da abertura de Dawson’s Creek, I Don’t Want To Wait (em tradução literal, “Eu não quero esperar”), traz elementos de superação, busca por paz e, principalmente, desejo de não adiar o amor e felicidade até que seja tarde demais.
(*) Oncologista e autor do livro Saúde (em) Crônica



