
Maria Helena Itaqui Lopes (*)
Um dia, estudando a biografia de Herbert von Karajan (1908-1989), lendário maestro, considerado um dos maiores do mundo na história da regência, denominado de "maestro dos maestros", chamou-me atenção suas observações sobre o ritmo. Dizia ele que "se ninguém ensina os alunos as disciplinas básicas do ritmo, as coisas ficam impossíveis".
Essa afirmativa proferida por um músico pode ter uma interpretação direcionada para o sentido unicamente musical. Porém, na realidade, o ritmo vai além disso e inclui um senso de equilíbrio nos movimentos físicos, da mente, da aprendizagem, do cuidado do corpo, das atividades e da energia vital.
O nosso organismo trabalha de forma ritmada, basta lembrar dos ritmos cardíaco, respiratório, do sono, das funções digestivas, entre tantos. Entre os ritmos biológicos que modulam a funcionalidade, o ritmo circadiano constitui um exemplo central, ao organizar a liberação hormonal de forma temporalmente dependente. A secreção de cortisol, melatonina, hormônio do crescimento e insulina obedece a padrões que influenciam o metabolismo, resposta imune, desempenho cognitivo e reparo tecidual. Na medicina preventiva, reconhecer esses ritmos permite interpretar variações funcionais e orientar o momento das avaliações e individualizar intervenções.
A consulta médica tem um início, um desenvolvimento, o momento de clímax e um desfecho. Expressar empatia pelo paciente em momento precoce ou inadequado rompe esse equilíbrio.
Ainda em se tratando de medicina preventiva, o momento zero da revisão em saúde não é definido pelo calendário etário nem pela presença de sintomas, mas pelo reconhecimento precoce das variações da funcionalidade, levando em consideração o histórico familiar e a genética. Iniciar a avaliação nesse ponto significa respeitar o tempo biológico individual, interpretar sinais funcionais sutis e antecipar riscos antes da instalação da doença, transformando a revisão clínica em uma estratégia de cuidado contínuo, personalizada e orientada à preservação da autonomia e da saúde ao longo do tempo.
Essas noções da linguagem do corpo interagem com nossas atividades. Retornando ao caso da música, sabemos que grande parte das obras barrocas foram escritas com um ritmo de 75-80 batidas por minuto, calculadas pelo metrônomo (aparelho utilizado por músicos que regula o andamento de uma obra estabelecendo o compasso por minuto), justamente correspondendo à média das pulsações cardíacas consideradas normais. E pode-se dizer que essa sinergia agrada a maioria das pessoas.
Uma consulta médica também tem um ritmo, por vezes esquecido ou até não aprendido. A consulta médica tem um início, um desenvolvimento, o momento de clímax e um desfecho. Expressar empatia pelo paciente em momento precoce ou no momento inadequado rompe esse equilíbrio, e a relação médico-paciente fica incorreta. Entrar na frequência certa para compreensão apropriada de um paciente é uma habilidade que exige noções básicas de ritmo. Um andante (termo usado em música para andamentos entre 72-84 batimentos por minuto) costuma parecer com o nosso ritmo cardíaco, e por isso nos parece confortável. Em outras palavras, no início da consulta ou do momento da visita a um paciente em seu leito hospitalar, esse encontro deverá ter um ritmo que transmita segurança e apoio por parte do médico, habilidade essa que deveria ser mais conhecida e valorizada pelos profissionais. Com o olhar pelo lado do paciente, a eleição do momento da revisão clínica deve ser dimensionada e programada para acontecer no novo ano que se inicia.
Uma história ainda pitoresca sobre ritmo foram os casos de três maestros que morreram ao reger o terceiro ato da ópera Tristão e Isolda, de Wagner. As pausas são intermitentes nesse trecho, descompassadas, e essa tensão pode afetar a mente e o corpo do maestro. Karajan, para se proteger e com o conhecimento disso, dissipava essa enorme tensão fazendo movimentos respiratórios para distanciar-se dessa imposição musical.
Na vida, tal como na música, há que se encontrar o ritmo certo para cada desafio, especialmente em se tratando no cuidado com a sua própria saúde.
(*) Médica gastroenterologista e pianista, professora de Medicina da UCS e membro titular da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina
Parceria com a Academia
- Este artigo faz parte da parceria firmada entre Zero Hora e a Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM) em março de 2022.
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